Artífices de Lisboa: "Estou aqui. Isto existe"

Da joalharia à marcenaria, da luminária à construção de instrumentos musicais. Quem são os artífices de Lisboa, que oficinas são aquelas. A Rede de Artes e Ofícios de Lisboa responde num "museu digital" que é hoje lançado

Passámos várias vezes pelo número seis da Rua de Santa Justa, na baixa de Lisboa, à procura dessa mesma porta. Afinal, era preciso ultrapassar as malas em exposição para, já no interior, empurrar a porta que dava acesso às escadas. Chegamos ao terceiro andar. Na porta: "Quim Gravador". Pode não ser o último gravador manual de Lisboa, mas nem ele conhece mais algum, nem as arquitetas Ana Jara e Lucinda Correia encontraram outro, para o incluir na Rede de Artes e Ofícios de Lisboa, que hoje será lançada no Mercado do Bairro Alto às 16.30.

É "um documento interativo, um museu digital, uma montra, um arquivo", define em várias vezes Lucinda, com os lugares e os rostos dos artífices da cidade de Lisboa em exposição: da joalharia aos bordados, da cerâmica à marcenaria ou à luminária (há até uma oficina que faz néones). Quem são, o que fazem, que oficina é aquela, e que história é a dela. Tudo isso se encontra na plataforma que a partir de hoje à tarde estará disponível em www.redearteseoficios.pt, lançada no âmbito do Open House, programa que hoje e amanhã abre, para visita, 87 portas, entre apartamentos, palácios ou museus de Lisboa.

Antes de entrarmos no ateliê de Joaquim Mendes, que devia ter "uns 12, 13 anos" quando começou a aprender o ofício - hoje tem 62 - há que dizer que o seu é um dos 130 ateliês lisboetas que compõem esta rede, uma espécie de irmã mais nova da Rede de Carpintarias de Lisboa, lançada em 2014 pelas mesmas arquitetas e cofundadoras da Artéria, gabinete de arquitetura e reabilitação urbana.

Joaquim Mendes, único gravador de metais da Rede de Artes e Ofícios

Tudo começou por necessidade profissional: precisavam de encontrar carpintarias que lhes fornecessem determinados serviços. Agora alargaram a rede. "Esse tipo de ofícios não está disponível, não lhe é dada uma visibilidade. E achámos que era muito importante trazer essa visibilidade, e reenquadrar as carpintarias numa rede maior, porque permite uma série de interações entre os vários ofícios. Ter as madeiras, os metais, a pedra..."

Com a Rede de Carpintarias, contam as arquitetas no seu escritório da rua da Madalena - a curta distância de várias oficinas -, surgiram "interações" entre carpintarias, trabalhos conjuntos. Além disso, diz Ana, "semanalmente eles recebem pedidos de orçamento através da rede". E mais: depois de terem recebido pedidos de estágio de Inglaterra e da Suécia, esta Rede de Artes e Ofícios, apoiada pela câmara de Lisboa através do Programa BIP/ZIP - Parcerias Locais, traz já uma secção dedicada aos estágios nas várias oficinas.

"Eu acho que este projeto é um território de resistência" afirma, perentória, Lucinda. Fala dos tempo de hoje, em que deitamos fora o velho e corremos ao IKEA para comprar o novo, fala do mobiliário antigo que se encontra deitado ao lixo (e que muitos aproveitam para recolher, restaurar, e vender por preços muitas vezes elevados), e lança: "É como se estivéssemos a deitar diamantes para o lixo sem saber. Normalmente deitam-se foras portas maciças para pôr portas de cartão revestidas a madeira. Convém saber isto. Convém saber que deitei fora 10 mil euros e estou a por lá três mil. E perdi uma coisa que tem uma durabilidade enorme. Esta consciência devia existir. E então a pessoa dizia: "Estou a deitar fora sete mil euros.""

"Não quero ensinar futuros pobres"

Arranjar tapetes de Arraiolos, a boneca que herdou dos tempos da II Guerra Mundial, ou as cadeiras da sala de jantar que têm os pés desengonçados; encomendar uma joia, ou gravar manualmente alguma coisa em metais nobres. Os artífices que correspondem a estas necessidades estão na rede. Para esta última, já se sabe, só o "Quim". Começamos aqui por onde acabou a conversa lá, no ateliê. "Não tenho aprendizes. Já tive uma ou outra pessoa, mas depois ao fim de uma semana... Um rapaz novo, a não ser que tenha um interesse muito especial, chega a uma certa altura e começa: "Isto não é para mim, estar aqui com uma lupa no olho, ou sem lupa e estar a fazer estas coisas." E eu não quero ensinar uma coisa que demora tempo em workshops de 15 dias. E tenho também dificuldade porque sei que se houver duas ou três pessoas que sigam isto não vão ter uma vida fácil. Não quero andar a ensinar futuros pobres. Uma pessoa tem de ser honesta, não é? Isto está-se a perder." Não é derrotista. Basta olhar para ele, ouvi-lo falar do seu ofício, do que já fez. "Às vezes tento falar, gosto de divulgar. Porque está a acabar. Para a gente dizer às pessoas: estou aqui, isto existe." Conta que gravou a réplica do nónio do Pedro Nunes, que tem muitas peças "espalhadas por museus e igrejas", e, diz a certa altura: "Acho que no Santo Sepulcro de Israel tenho lá uma peça gravada por mim".

Em miúdo, explica, começava-se por "fazer recados, os trabalhos mais simples, limpar as oficinas, dar inicio ao trabalho dos mestres." Assim se ia aprendendo o ofício onde, explica, se é para sempre aprendiz. Ao seu lado, um grande leque em metal todo gravado, com um desenho chinês. "Isto é uma coisa do arco-da-velha. Demorou-me muito tempo a fazer." O desenho chegou-lhe às mãos quando tinha "16 ou 17 anos". Pertencia ao mestre Teles, que ele todos os dias depois do trabalho costumava visitar nas tascas da baixa. Logo nessa altura, decidiu que um dia faria a obra, como viria a acontecer cerca de dez anos depois.

A fuga do centro da cidade

As arquitetas Lucinda Correia e Ana Jara

As arquitetas afirmam que estas oficinas "não estão de igual para igual" em relação às grandes superfícies, no que diz respeito à comunicação. "Achámos que era importante olhar para a cidade de Lisboa a partir das artes e dos ofícios, porque elas estão cá e muitas delas em risco de sair, de irem para a periferia, ou até de desaparecer", explica Lucinda. "Encontrámos muitos que se deslocaram para zonas periféricas: Amadora, margem sul", completa Ana.

Bem no centro de Lisboa, a uns minutos, está o Atelier São Vicente. Já não em São Vicente, onde começou em 2007, mas na Rua de São Mamede ao Caldas. É lá que Chloé Pais Duquet trabalha a madeira, rodeada de móveis antigos que serão restaurados ou enormes placas de mogno à espera de serem transformadas em peças. Na oficina ressoa Serge Gainsbourg a cantar Bonnie and Clyde enquanto Chloé trabalha um painel de embutidos; quem passa espreita, atrasa o passo. A franco-portuguesa trocou a arquitetura pela marcenaria. "É mais físico e acho que também tem a ver com ter um resultado mais rápido. E não me estava a ver fechada atrás de um computador", explica. Estudou no Instituto de Artes e Ofícios da Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva, parceira da rede que, aliás, terá as suas Oficinas Criativas de gravação de pele, passamanaria, e papel marmoreado no mercado do Bairro Alto, que pode ser visitado hoje e amanhã, no Open House.

Depois do curso, aprendeu muito com um mestre da avenida de Roma. Como se vê pela fotografia, Chloé é jovem, e mulher. Perguntamos-lhe se alguma vez sentiu preconceito ou desconfiança. Nega. "As pessoas ficam surpreendidas, no bom sentido, pelo facto de ser mulher. E isso deu-me uma certa força. Tenho velhotes que trabalham em carpintaria que param aqui. "Deixe-me ajudar."Ficamos a conversar." Em cima da mesa de trabalho estão uma espécie de caixas que depois se juntarão às borboletas que o ateliê ao lado, Caulino, faz em cerâmica, e rumarão ao Belcanto, o restaurante de José Avillez.

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