João Barros Matos faz projeto para Museu Nacional da Resistência e Liberdade

O arquiteto vai coordenar a equipa responsável por elaborar o projeto de arquitetura para o Museu Nacional da Resistência e Liberdade, previsto para a Fortaleza de Peniche, foi hoje divulgado.

João Barros Matos foi o vencedor do concurso público de conceção do projeto, e vai receber um prémio de cinco mil euros, divulgaram hoje a Direção-Geral do Património Cultural e a Ordem dos Arquitetos.

Das 22 propostas apresentadas, o júri considerou que a vencedora se destacou pela proposta de "sobreposição de percursos de diferente natureza nunca perdendo, cada um deles, autonomia, significado ou fluidez no seu conjunto", refere o respetivo relatório, a que a agência Lusa teve acesso.

Além disso, "o projeto é muito contido e algo sombrio, de acordo com a natureza dramática do seu conteúdo central, preservando os valores arquitetónicos com interesse patrimonial e os que, sem interesse de forma, remetem para um muito significativo conteúdo, não deixando de se abrir a leituras mais contemporâneas consonantes com um maior futuro de liberdade e democracia ".

Já a memória descritiva do projeto vencedor, a que a Lusa teve acesso, explica que a "ideia de museu se materializa na sobreposição de três tempos: o tempo da fortaleza, o tempo da prisão e o tempo do museu".

Neste sentido, propõe "a sobreposição de percursos de diferentes naturezas, que se entrelaçam e sobrepõem, relacionando os edifícios, os pátios do núcleo central e as plataformas circundantes".

No concurso, a que concorreram 22 trabalhos, a arquiteta Margarida Grácia arrecadou o segundo lugar (3.000 euros) e o terceiro classificado foi o arquiteto Marcelo de Gouveia Cardia (1.500 euros).

Os trabalhos foram apreciados por um júri, composto pelos arquitetos Alexandre Alves Costa, João António Serra Herdade, João Mendes Ribeiro e Sofia Aleixo e pelo designer Henrique Cayatte.

Os 22 projetos concorrentes vão ser dados a conhecer ao público numa exposição a inaugurar a 20 de junho, no Museu de Arte Popular, em Lisboa.

A DGPC lançou, a 11 de maio, concurso de cerca de cerca de um milhão de euros para obras de recuperação dos antigos pavilhões prisionais da Fortaleza de Peniche, no distrito de Leiria, para instalar depois o Museu Nacional da Resistência e Liberdade.

No final de abril, a Comissão de Instalação dos Conteúdos e da Apresentação Museológica, presidida pela DGPC, entregou ao ministro da Cultura o guião para os conteúdos do Museu, que vai ter 11 núcleos temáticos.

O investimento na recuperação da Fortaleza e da respetiva muralha e de instalação do museu estão estimadas em 3,5 milhões de euros, dos quais três milhões são financiados por fundos comunitários e, os restantes, pelo Orçamento do Estado para 2018.

Em abril de 2017, o Governo aprovou em Conselho de Ministros um plano de recuperação da Fortaleza de Peniche, que em setembro de 2016 foi integrada na lista de monumentos históricos a concessionar a privados, no âmbito do programa Revive, mas passados dois meses foi daí retirada, pela polémica suscitada.

Em abril de 2017, a Assembleia da República defendeu em plenário, da esquerda à direita, a requalificação e a preservação da sua memória histórica enquanto ex-prisão política da Ditadura.

A fortaleza, classificada como Monumento Nacional desde 1938, foi uma das prisões do Estado Novo de onde se conseguiu evadir, entre outros, o histórico secretário-geral do PCP Álvaro Cunhal, em 1960, protagonizando um dos episódios mais marcantes do combate ao regime ditatorial.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.