Além do Paraíso, com Demián Flores, no Padrão dos Descobrimentos

O artista mexicano cruza as influências da cultura indígena com os códigos da arte ocidental. Até 2 de abril no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

Branco e negro, apenas. Demián Flores, mexicano de origem indígena, de Juchitán, na província de Oxaca, 45 anos, usa apenas estas duas cores nas pinturas murais que ocupam a galeria subterrânea do reabilitado Padrão dos Descobrimentos. A exposição é inaugurada hoje, e, como denuncia a nacionalidade do artista, é uma das propostas da Capital Ibero-Americana. Fica até 2 de abril, de terça a domingo, das 10.00 às 17.30.

Demián Flores, artista de muitos meios, vem da gravura e diz que lhe interessa "abrir as possibilidades das artes gráficas, pois souberam atualizar-se como prática contemporânea. O trabalho gráfico expande as suas fronteiras entre linguagens e disciplinas", refere, enquanto deambula pela exposição.

As personagens começaram no computador do artista, tornaram-se papel de parede e foram retocadas à mão no local. Foram criadas para a galeria do Padrão dos Descobrimentos, feitas para este lugar e nenhum outro. Nesse aspeto, Demián Flores cola-se à tradição muralista mexicana. Usa apenas duas cores para jogar na dualidade do céu e da terra. Vida e morte. Guerra e paz.

E o que está Além do Paraíso - Al Final del Paraíso, em espanhol -, o título da exposição? Começa nas gravuras de Theodor de Bry, inspiradas nas descrições de Frei Bartolomeu de Las Casas do Novo Mundo, no final do século XVI. A violência descrita na conquista americana é trazida para a exposição como metáfora do narcotráfico no México. "Abro perguntas políticas, sociais e simbólicas, até", considera sobre a exposição, o que nos conduz à prática artística de Flores do outro lado do oceano.

Demián Flores fundou La Curtiduría na cidade natal, que é também uma escola alternativa de artes visuais, que permite a interação entre artistas, e que recebe crianças. "Tentamos que a arte faça parte da vida quotidiana", explica. "Começou como espaço cultural a fazer ações com posicionamento político vinculadas às artes visuais", conta. "A arte é a forma de expressão mais transparente e o espelho do que uma pessoa vive", afirma, retomando o tema da violência no México. Fala "em cem mil mortos e 20 mil desaparecidos, num país corrupto, com carência de muitas coisas". Mas, acrescenta, "há uma cultura, uma cultura indígena, que suporta o México - um país de 69 línguas, incluindo o espanhol".

Como as suas personagens - sombrias umas, carregadas de esperança outras -, fala desse Estado falido, mas com esperança como a milpa, o nome dado ao local onde cresce a planta que gera a abóbora, o feijão e a maçaroca do milho. Para Demián Flores, evoca o potencial do trabalho coletivo.

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