África Negra: "Éramos diferentes de toda a gente"

Foi um caso sério de popularidade, mas depois quase caíram no esquecimento, até que uma nova geração os começou a redescobrir. Hoje, a mais importante banda de São Tomé e Príncipe volta a reunir-se em palco em Lisboa.

Ainda faltava um ano para a independência de São Tomé e Príncipe, quando em 1974, o Conjunto África Negra começou a dar nas vistas no circuito dos "fundões" da capital, São Tomé, como eram conhecidos os bailes ao ar livre, organizados pelas diferentes comunidades locais, onde surpreendiam o público com os amplificadores Marshall e os pedais de guitarra. A fama era tal, que, no início dos anos 80, a Rádio Nacional de São Tomé convidou-os a gravar um disco. Sempre liderados por um núcleo duro composto por Emídio Vaz (guitarra solo), Leonídio Barros (guitarra ritmo) e João Seria (voz), a banda começou também a ganhar popularidade em todo o espaço lusófono, especialmente em Angola e Cabo Verde, mas também em Portugal, onde chegou a editar três álbuns, Angélica, Alice e África Negra 83, hoje verdadeiras (e valiosas) raridades. Depois do fim da banda, em meados da década de 90, passaram a reunir-se de forma intermitente, para recordar esses tempos gloriosos, como agora fazem mais uma vez em Lisboa, num concerto único no B.Leza, que contará com três dos membros originais do África Negra: Miguel (reco-reco), João Seria (voz) e Leonídio Barros (guitarra-ritmo), que aos 60 anos é o único a residir em Portugal.

Qual foi o segredo do sucesso dos África Negra, que nos anos 80 chegaram a ser uma das bandas mais famosas no espaço dos países africanos lusófonos?

Não sei ao certo. Houve uma conjugação de fatores que levou a isso e quase sem darmos por nada ficámos famosos, em especial no início dos anos 80, quando começámos a viajar por muitos países para mostrar a nossa música. Na altura havia uma grande comunidade angolana em São Tomé e foram eles que levaram as nossas cassetes para Angola, que foi o primeiro país onde fomos tocar. Fizemos cerca de dez digressões em Angola, sempre com os concertos cheios de gente. E depois também viemos algumas vezes a Portugal, onde chegámos a editar alguns discos.

E pode-se dizer que foi também devido à fama da banda que os África Negra acabaram, depois de uma digressão em Cabo Verde, no início dos anos 90, certo?

Sim (risos), Cabo Verde é que estragou tudo. Dos sete membros da banda que lá foram só regressaram quatro.

Porquê?

Porque gostavam muito de nós, especialmente as mulheres cabo-verdianas (risos). Um dos que ficou foi o vocalista João Seria, que entretanto já regressou a São Tomé. Sem ele não fazia sentido continuarmos ou pelo menos continuarmos da mesma maneira que até aí.

Mas também nunca deixaram verdadeiramente de tocar...

Não, mas apenas em momentos esporádicos, como agora, que nos permitem reviver com o público esses bons tempos. Chegámos a ter 13 elementos e hoje só somos sete, todos dispersos pelo mundo. Eu vivo em Lisboa, na zona das Galinheiras, onde continuo a tocar, numa banda chamada Leguelá. Há outros dois que vivem em França. O João Seria e o Emídio vivem em São Tomé... Não é fácil juntarmo-nos para tocar, por isso é que damos poucos concertos (risos).

O que é que a vossa música tem, para, passados 30 anos, ainda continuar a soar tão atual, ao ponto de toda uma nova geração a estar novamente a descobrir agora?

Nós começámos por adaptar o estilo musical dos países africanos francófonos, que era o que gostávamos. E para não sermos acusados de estar apenas a imitar os outros, fundimos esse som com a música tradicional de São Tomé, o que nos fazia diferentes de toda a gente. Aliás, anda hoje a maior parte das bandas de São Tomé não se diferenciam umas das outras.

Concorda que uma das razões seria uma abordagem mais rock aos ritmos africanos, com os amplificadores Marshall e os efeitos na guitarra a marcarem muito a vossa sonoridade?

Em parte sim, mas isso apenas aconteceu porque não gostávamos nada de tocar com teclas. Para nós o mais importante era a guitarra bater (risos). Fui uma das primeiras pessoas em São Tomé a aplicar efeitos na guitarra logo mal entrei para a banda. E como o público não fazia a mínima ideia de como fazia aquilo, ganhei logo muita fama, diziam que a minha guitarra soava como um teclado (risos).

O que sente ao ver agora alguns dos discos dos África Negra a serem vendidos por centenas de euros na internet?

É um reconhecimento por tudo aquilo que fizemos. É bom que haja novas gerações interessadas na nossa música.

E não pensam em voltar a gravar?

Por acaso estamos prestes a editar um novo disco, com as nossas músicas perdidas, que regravámos recentemente.

Como assim, músicas perdidas?

Cada vez que tocávamos nos Fundões, como eram chamados os bailes populares em São Tomé, tínhamos de levar sempre quatro ou cinco músicas novas, porque havia lá outras bandas e essas festas funcionavam também como um duelo entre os músicos. Conseguimos recuperar algumas, através de gravações antigas, de velhos programas de rádio ou simplesmente porque alguém se lembrava e decidimos gravá-las em disco. Mas ainda faltam muitas, para aí umas 30 ou 40, que só foram tocadas uma vez e correm o risco de ficar perdidas para sempre.

Como será este concerto em Lisboa?

Vamos tocar mais de duas horas e será uma grande festa. Teremos os temas mais antigos e conhecidos, que todos querem ouvir, e também algumas dessas canções perdidas, para surpreender as pessoas. Se calhar até vai lá estar alguém que ainda se lembra delas...

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