A recuperação do Jardim Botânico de Queluz é "uma história de amor" para o património cultural

Sneška Quaedvlieg-Mihailović é a secretária-geral da Europa Nostra ​

Sneška Quaedvlieg-Mihailović é a secretária-geral da Europa Nostra, a principal organização europeia não-governamental dedicada ao património cultural. A cerimónia de entrega do Prémio da União Europeia para o Património Cultural / Prémios Europa Nostra acontecem esta sexta-feira, em Berlim. O Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz foi o vencedor na categoria Conservação mas pode ainda ganhar o Prémio da Escolha do Público.

Como descreve a missão da Europa Nostra?

A Europa Nostra é a voz do património cultural na Europa. É uma organização da sociedade civil que abrange toda a Europa, mas é mais do que isso: é um movimento não apenas da União Europeia mas que incluiu os Balcãs, região de onde venho, Rússia, Turquia. Nós divulgamos e promovemos o património cultural mas também promovemos a Europa, fazemo-lo através da nossa herança cultural partilhada.

Como é que a organização tem vindo a contribuir para a preservação e valorização do património cultural destes últimos 50 anos?

Como é que implementamos a nossa tão importante missão? Em primeiro lugar, fazemos campanhas para salvar a nossa herança cultural que está em perigo, porque há tantos lugares negligenciados, com falta de financiamento ou com projetos de expansão ou desenvolvimento que não se adequam. Por isso acreditamos que tem que existir um movimento solidário que promova e sensibilize para a conservação do nosso património cultural. De certa forma partilhamos este património e devemos também partilhar a responsabilidade. Por isso criámos o programa "7 Most in Endangered" (em português, os 7 lugares em maior perigo), e Portugal teve alguns monumentos nessa lista. Felizmente eles estão no bom caminho para se tornarem uma história de sucesso. São, por exemplo, o Mosteiro e a Igreja de Jesus, em Setúbal, e os carrilhões de sinos do Convento de Mafra, que estavam danificados e negligenciados, e vão ser restaurados muito devido à nossa campanha conjunta com o Centro Nacional de Cultura. Conseguimos mobilizar recursos públicos e privados para salvar estes lugares. Ao mesmo tempo, a nossa missão é celebrar a excelência, celebrar as histórias de sucesso, por isso organizamos estes prémios "Europa Nostra" desde 2002, em conjunto com a União Europeia. É o mais prestigiado galardão dedicado ao património cultural, uma espécie de prémio Nobel nesta área.

Qual é a importância de 2018 ser considerado o "European Year of Cultural Heritage" (o Ano do Património Cultural Europeu)?

Eu diria que é um momento histórico! Um ano histórico para a Europa. Chegamos aqui não porque alguém no topo, em Bruxelas, decidiu fazê-lo, mas sim porque muitas organizações públicas e privadas, organizações da sociedade civil, pensam que a Europa tem que dar prioridade à cultura e ao património cultural e colocar o tema no centro da discussão e do debate político. Portanto, diria que representa um ponto de viragem porque, por demasiado tempo, a narrativa de integração europeia e da União, esteve primordialmente focada na economia, no mercado interno, nas finanças. Mas a Europa é, antes de mais, um projeto de paz, é um projeto cultural. Com tudo o que está a acontecer atualmente na Europa, com as novas formas em que os "velhos demónios" estão a voltar, os demónios do populismo, do nacionalismo, muito perigosas para o futuro da Europa, é extremamente importante lembrar porque é que estamos todos juntos. Estamos todos juntos nesta aventura europeia porque partilhamos uma história, partilhamos cultura, partilhamos uma herança e temos uma responsabilidade conjunta de transmiti-lo às gerações futuras.

Este ano, a cerimónia de entrega dos prémios Europa Nostra está integrada na primeira Cimeira Europeia do Património Cultural, qual o valor deste encontro?

É a primeira vez que tantos eventos ligados ao património cultural, grandes ou pequenos, se juntam numa mesma semana e formam uma cimeira europeia de larga escala dedicada ao tema. E obviamente foi possível fazê-lo, em primeiro lugar, por ser o "Ano Europeu do Património Cultural" mas também graças às nossas parcerias com o Comitê do Património Cultural da Alemanha. Foram eles que tiveram a coragem de sonhar com um ano europeu dedicado ao património cultural. E depois sonhámos todos juntos e decidimos que a cimeira teria de acontecer em Berlim. No início esperava que fosse uma espécie de "mini Davos" para o património cultural mas agora acho que se transformou num "maxi Davos". Espero sinceramente que não seja a primeira e última cimeira, mas sim que aconteçam outras reuniões semelhantes e possamos mostrar quão forte, diversificado e dinâmico é o movimento do património cultural. E estou muito feliz que o ministro da cultura de Portugal esteja connosco.

O Jardim Botânico do Palácio de Queluz é um dos galardoados deste ano na categoria Conservação, que características determinaram esta escolha?

É uma história de sucesso formidável. Eu diria que é uma história de amor para o património cultural o que tantas pessoas dentro e fora de Portugal conseguiram fazer. Um jardim botânico, um lindo jardim botânico que remonta ao tempo do iluminismo, portanto, um dos únicos quatro jardins existentes na Europa construídos nessa altura, foi destruído pelas cheias catastróficas de 1984, há 35 anos. Muitas pessoas, muitas delas em Portugal, pensaram: "nós não podemos apenas abandoná-lo" e juntaram-se. Com muito suporte das comunidades locais e com muitos investigadores, muita perícia, investigações arqueológicas, documentação, eu diria um verdadeiro exemplo, um estudo de caso para a Europa de um projeto holístico de recuperação patrimonial. É uma história de renascença, renascença de um jardim botânico. Um vasto número de jardins botânicos decidiram ajudar e enviar para Portugal, para Queluz, as sementes das plantas que terão feito parte daquele jardim botânico. Felizmente havia um inventário de 1789 de todas as plantas que tinham lá estado e hoje temos a recriação e um belíssimo diálogo entre uma obra do homem e a herança natural. Não apenas o jardim foi reconstruído mas todos os ornamentos, as fontes, as vedações, as esculturas, mas também o edifício que é parte desse jardim. Ainda não vi mas o meu plano é visitar Lisboa no princípio de setembro com o nosso presidente Plácido Domingo, ele vai lá estar para a competição internacional "Operalia". Estou muito ansiosa por visitar o jardim Botânico do Palácio de Queluz.

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