A queda de calças na mão de um gigante de Hollywood

Há uma semana que vão surgindo denúncias de assédio e violação sexual que acusam o produtor Harvey Weinstein: de Angelina Jolie a Cara Delavingne ou Asia Argento

"Reconheço que a forma como me comportei no passado com colegas causou muita dor, e peço sinceras desculpas por isso. Apesar de estar a tentar fazer melhor, sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer. A minha viagem agora será a de aprender mais acerca de mim mesmo e de conquistar os meus demónios." Harvey Weinstein, de 65 anos, é um dos maiores produtores de Hollywood, com o seu nome a passar ao longo dos anos nos créditos de filmes como Pulp Fiction ou O Leitor. No comunicado que enviou ao jornal The New York Times, lamenta as histórias que dão conta de quase três décadas de episódios de assédio e abuso sexual da sua parte a quase 30 vítimas.

Não se pode dizer que tudo tenha começado na semana passada, com a reportagem do Times que denunciava os oito acordos extrajudiciais a que Weinstein tinha já chegado com oito mulheres desde os anos 90 e apresentava testemunhos de antigos e atuais funcionários do produtor. Na cerimónia dos Óscares de 2013, ao anunciar as nomeadas, o comediante Seth MacFarlane brincava: "Parabéns, às cinco senhoras: não precisam de fingir mais que estão atraídas pelo Harvey Weinstein." A plateia riu. Mas eram rumores. Agora, depois da publicação do Times, na terça-feira a revista New Yorker lançava uma reportagem com testemunhos de vítimas alegadamente violadas pelo produtor que, conta a publicação, nas cerimónias de prémios é o nome a quem as pessoas mais agradecem depois de Steven Spielberg e antes de Deus.

Harvey Weinstein e a mulher e mãe dos seus dois filhos, a estilista Georgina Chapman

Entre as que deram a cara e contaram as histórias que têm sido negadas pelos advogados e representantes de Weinstein, está a atriz Asia Argento, atriz e realizadora que, aos 21 anos, achou que ia para uma festa e afinal viu-se num encontro privado com Weinstein que, segundo conta a italiana, lhe terá feito sexo oral contra a sua vontade. "Eu sentia-me responsável", lamentou-se Argento, que, intimidada pelo seu poder, continuou uma relação de sexo consentido com o produtor durante alguns anos. Outra foi Lucia Evans, a quem Weinstein terá obrigado a fazer-lhe sexo oral, conta também a New Yorker, que cita ainda outra atriz, anónima, violada pelo produtor. Esta diz ter sentido "horror, descrença e vergonha" depois do que aconteceu, e conta que os dois continuaram uma relação profissional depois deste episódio.

Os testemunhos começaram a aparecer um depois do outro. A história é quase sempre a mesma. As mulheres viam-se sozinhas com Weinstein num hotel, que estaria de roupão de banho e lhes propunha uma massagem, que assistissem ao banho dele, ou algo mais explícito. Angelina Jolie não entrou em detalhes acerca de um episódio dos anos 1990. "Tive uma má experiência com o Harvey Weinstein na minha juventude e por causa disso escolhi nunca mais trabalhar com ele e avisar outras pessoas quando o fizeram", escreveu a atriz de 42 anos. "Este comportamento para com as mulheres em qualquer área, em qualquer país, é inaceitável." Também Gwyneth Paltrow, depois de ter sido escolhida para o papel principal de Emma foi convidada para a suite de hotel de Weinstein. Ele sugeriu uma massagem. Ela recusou. "Pensava que era o meu tio Harvey", lembra-se de lhe ter passado então pela cabeça.

Uma das mulheres que chegaram a acordo com o homem que fundou a produtora e distribuidora Weinstein, cujo conselho de administração o despediu neste domingo, foi Rose McGowan. A atriz que ontem viu a sua conta do Twitter suspensa depois de escrever "fuck off" para o ator Ben Affleck acusando-o de mentir quando disse não saber destes episódios do produtor.

A lista continua: Cara Delavingne, que Weinstein tentou beijar à força depois de lhe ter dito que sendo lésbica não teria futuro, Ashley Judd, rosto de Frida no cinema, ou Léa Seydoux, que na quarta-feira assinou um artigo no jornal britânico The Guardian relatando um episódio num quarto de hotel com o produtor. "De repente ele saltou para cima de mim e tentou beijar-me. Tive de me defender." A atriz de A Vida de Adèle ou 007 - Spectre recorda ainda ter estado em "jantares com ele em que ele se gabava acerca das atrizes de Hollywood com quem teve sexo."

A mulher de Weinstein e mãe dos seus dois filhos, Georgina Chapman, confirmou na quarta-feira à revista People que vai avançar com o divórcio. O mundo da indústria cinematográfica, por sua vez, depressa formou um coro crítico à conduta do produtor. Vozes como as de Meryl Streep, Judi Dench ou Jennifer Lawrence, todas elas protagonistas em filmes produzidos por Weinstein, atacaram ferozmente a conduta do produtor. A Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA) anunciou na quarta-feira a suspensão imediata da sua associação ao produtor de Hollywood. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos chamou "repugnante", "abominável" e "antiético" ao comportamento de Weinstein e avançou que este será tema de uma reunião dos membros.

As reações à queda em desgraça de Weinstein, generoso doador ao partido democrata, chegaram à política norte-americana. Michelle e Barack Obama, cuja filha mais velha, Malia, estagiou com o produtor no ano passado, disseram-se "repugnados" e elogiaram "a coragem das mulheres que contaram estas histórias dolorosas". Hillary Clinton, para cuja campanha Weinstein organizou no ano passado uma angariação de fundos em sua casa, disse-se "chocada" e condenou a conduta do produtor.

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