A noite num bar do Porto que inspirou os Pet Shop Boys

Grupo britânico continua a reeditar o seu catálogo, com material extra à mistura. Agora é a vez de "Yes" e de "Elysium", em que Neil Tennant e Chris Lowe apresentam algumas das suas propostas mais luminosas. Com uma descoberta numa noite em Portugal: uma canção de José Afonso.

Numa certa noite, depois de jantar, Neil Tennant e Chris Lowe passeavam pelas ruas do Porto quando entraram num bar, por um dos motivos mais banais deste mundo: Chris precisava de ir à casa de banho. Não havia muita gente no bar, apenas um grupo sentado a ouvir tocar guitarra, mas os dois Pet Shop Boys resolveram ficar mais um bocado. "Foi fantástico. Estava um tipo com uma guitarra a cantar e estava um grupo de pessoas à volta dele e então todos se juntaram em coro. Uma das canções era mesmo boa e então eu perguntei o que é que era." Perante a resposta, Chris agradeceu "as maravilhas da tecnologia moderna", enquanto comprava a canção no iTunes: era As Sete Mulheres do Minho, o tema popular musicado por José Afonso, que o cantor gravou em Fura Fura (1979).

De regresso ao estúdio, onde estavam a gravar Glad all over, os Pet Shop Boys andavam às voltas com aquela canção que tinham ouvido no Porto. "Passávamos a vida a dizer, oh, e há esta canção popular portuguesa", recordou Neil. A vontade aguçou o engenho, mas neste caso sem grande sucesso. Os britânicos procuraram inspirar-se nos acordes de Zeca. "Originalmente começámos a tentar fazer uma versão da canção, mas não conseguimos fazer nada daquilo", argumentou Chris.

Optaram por avançar para aquilo que seria Together, que funcionaria como single de apresentação da coletânea Ultimate, que a editora dos Pet Shop Boys por esses dias - estávamos em 2010 - queria pôr cá fora. E Together acabou por beber mais em sonoridades russas (como explicou Neil) do que na canção popular minhota de Zeca. A letra também foi uma inspiração, defende Neil, que confunde o ano em que a canção foi escrita com o retrato que Zeca faz da revolução da Maria da Fonte em 1846. "Julgo que foi escrita há mais de cem anos como uma canção revolucionária", confunde-se ele, o que não retira uma vírgula à delícia que é esta (quase) inspiração.

Toda esta história é agora revelada pelos dois numa conversa transcrita no booklet que acompanha a edição de Yes+Further Listening. mais um álbum reeditado no plano de edições de toda a obra dos Pet Shop Boys, que estão a revisitar o catálogo completo dos álbuns de estúdio de 1985 a 2012 da Parlophone.

Estas reedições, sob o nome de Catalogue: 1985-2012, iniciaram-se com os três álbuns anteriores a estes - Nightlife (1999), Release (2002) e Fundamental (2006) - acompanhados de muito material extra reunido sob o nome comum de Further Listening. Depois dos sétimo, oitavo e nono álbuns dos Pet Shop Boys (que foi por onde começou este catálogo), o duo britânico recupera agora os seus 10.º e 11.º álbuns, Yes e Elysium.

Yes, publicado em 2009, com Johnny Marr nas guitarras (o ex-Smiths já tinha tocado em Release), Neil e Chris apresentam um punhado de canções de primeira água, em que a pop mais descaradamente pop (abusemos da redundância) se mistura entre temas que fazem o corpo suar, como Love etc. ou Pandemonium, e baladas cheias de elegância, como em King of Rome.

A acompanhar Yes, os dois álbuns extra de Further Listening contam histórias paralelas dos Pet Shop Boys de 2008 a 2010: há I Cried for Us, uma bela canção de homenagem à mãe de Rufus Wainwright, Kate McGarrigle, cuja interpretação mereceu de Nick Cave um só adjetivo: "imaculada"; há novas versões de canções de Natal, recuperadas do EP Christmas; há Phil Oakey a acompanhar na voz em This Used to Be the Future; há canções infantis de uma peça de teatro, My Dad's a Birdman; há My Girl dos Madness; ou uma versão de Viva la Vida, dos Coldplay, de onde irrompe Domino Dancing. Neil não se recorda porque misturaram os dois temas, Chris lembra que andavam a fazer medleys.

Por falar em medleys, no segundo volume deste Further Listening encontram-se também 11 minutos de algumas das principais canções dos Pet Shop Boys que Neil e Chris misturaram para a cerimónia dos Brit Awards, onde receberam um prémio de carreira, desde Suburbia a West End Girls, passando por Always on My Mind ou Go West - uma luxúria para os sentidos.

Elysium, de 2012, nasceu de uma antiga proposta de Trevor Horn, para a gravação de um disco em Los Angeles, algo "suave e bonito", uma proposta que os intrigou mas que acabou por ser concretizada sem ser cumprida à risca e voltando também aos sons latinos de Bilingual. "Algumas das minhas canções favoritas dos Pet Shop Boys estão neste álbum", reconhece Chris. Esta nova audição pode vir a dar-lhe razão.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.