A nau 'Esmeralda' foi de facto descoberta? As pistas e as dúvidas

Pertencia a uma armada de Vasco da Gama. Naufragou em Omã. Ouvimos os especialistas, dentro e fora do projeto

"Omã. Uma fascinante descoberta. A acompanhar com toda a atenção" escrevia ontem o ministro da Cultura na sua página de Facebook. João Soares referia-se à descoberta da nau Esmeralda, anunciada na segunda-feira pelo Ministério do Património e da Cultura (MPC) de Omã. A nau fazia parte de uma armada de Vasco da Gama na rota da Índia. Comandada por Vicente Sodré, terá naufragado em maio de 1503 ao largo da ilha Al Hallaniyah. Com ela, a São Pedro, comandada pelo irmão de Vicente, Brás, tios de Vasco da Gama.

No dia em que a notícia foi divulgada, nenhum dos investigadores envolvidos falava. Tinham ordens para esperarem pelo dia de ontem, altura em que foi apresentado oficialmente, em Mascate, o artigo assinado por David L. Mearns, explorador responsável pela empresa Blue Water Recoveries, David Parham, arqueólogo da universidade de Bournemouth, e Bruno Frohlich, antropólogo do Museu Nacional de História Natural, Smithsonian Institute, Washington. Publicado o artigo, os investigadores falaram. Era, pois, hora de esgrimir argumentos.

David Mearns conta ao telefone que, quando percebeu que tinha permissão para explorar a área marítima de Omã, pensou: "Bom, qual pode ser o navio mais importante que possamos encontrar? Era o Esmeralda. Aliás, eram os dois navios dos irmãos Sodré." Assim foi. Começou com uma pequena expedição em 1998. "Recuperámos cerca de 40 artefactos. Agora temos 2800." De 1998 até hoje, aconteceram três anos de expedições, que só decorreram de 2013 em diante. Porquê tamanho interregno? "Não tínhamos os especialistas para escavar. Se prosseguíssemos sem a equipa certa, podíamos ter causado danos. Esperámos. Foi muito difícil conseguir que alguém nos prestasse atenção e levasse a sério."

Filipe Castro, professor de Arqueologia Subaquática na Universidade do Texas A&M, não esteve envolvido no projeto. Reconhece a credibilidade de Parham, da revista onde foi publicado o artigo, a International Journal of Nautical Archeology, e até o facto de ser "plausível" que se trate da nau portuguesa. Todavia, diz: " Anunciar o achado da Esmeralda é uma parvoíce." É "plausível", "não certo". Caso se verifique, esta "será a nau portuguesa mais antiga descoberta até agora ganhando, por isso, uma enorme importância", explica o professor.

Quando lhe pedimos um parecer acerca do número de portugueses no projeto - oito - lança: "Vou-lhe contar uma história. Ele [Mearns] convidou o Alexandre Monteiro, o arqueólogo português mais conceituado, que disse: "Tem de ter cuidado. Não pode, antes de começar a escavar, achar que isto é a Esmeralda. Não pode estar a fazer uma escavação para provar a sua teoria. Primeiro tem de ver quantos navios se perderam ali, há vários naufrágios, aquilo é um porto. Havia navios árabes cheios de artefactos portugueses e vice-versa. Temos de ir com calma.""

David não terá gostado. Ele que, segundo notou ao DN, se espanta com a falta de interesse das instituições portuguesas. Recorda que as tem contactado e, "no verão de 2014", esteve na Direção Geral do Património Cultural (DGPC) a apresentar o projeto. Nunca obteve resposta. "Estamos abertos a trabalhar com qualquer português neste projeto. A DGPC disse-nos: "Aceitariam ter convosco pessoas nossas?" E eu disse: "Absolutamente." Eles nunca nos contactaram."

O ministério português da Cultura foi lacónico em relação a este assunto. Contactado pelo DN, foi apenas dito que estará "a acompanhar o assunto pelos meios apropriados". Já o ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou que "Portugal facilitará toda a colaboração ao Sultanato de Omã, havendo natural interesse no acesso de investigadores portugueses ao local de trabalho, no seguimento, aliás, do envolvimento de entidades nacionais na análise dos artefactos encontrados".

A moeda rara de D. Manuel I

À parte das bolsas que Mearns recebeu de instituições como a National Geographic Society, foi o MPC de Omã que financiou o projeto. Talvez por isso, depois "da análise de conservação e restauro, os artefactos" serão exibidos no novo Museu Nacional de Omã. A análise, contudo, pode demorar anos, diz Mearns. Quanto aos artefactos, que segundo os investigadores permitem identificar o navio naufragado como o Esmeralda, incluem um Índio, rara moeda de prata que D. Manuel I terá mandado fazer e do qual só existirá mais um exemplar.

António Trigueiros, especialista em Numismática do país, e ex-diretor do Departamento de Moeda e Produtos Metálicos da Imprensa Nacional Casa da Moeda, foi um dos investigadores com quem Mearns contou. Recorda que, quando recebeu a fotografia do Índio, terá dito: "Não pode ser. Se for, é a descoberta na numismática mais importante dos últimos cem anos." E esse Índio, conta Trigueiros, permite identificar o navio que o transportava como sendo de 1503, ano em que Esmeralda e São Pedro afundaram.

Esmeralda, a nau de uma das armadas de Vasco da Gama de que, nos últimos dias, todos falam, é apresentada no artigo ontem divulgado como "a fonte provável" dos artefactos encontrados. "Ainda que o registo histórico sugira que os destroços são de facto de apenas um navio, e que são da Esmeralda de Vicente e não de São Pedro, ainda nos faltam provas conclusivas para fazer esta determinação", lê-se.

Tânia Casimiro, arqueóloga portuguesa, foi consultada por Mearns logo em 2013. Foi a Omã em janeiro de 2015. Da descoberta, diz que a "importância científica, pelo menos a nível da cultura material, é extraordinária." Com ela, é "possível saber que tipo de objetos se utilizava em Portugal nos inícios do século XVI." Quanto às novidades, continua a investigadora, "são mais que muitas. Isto vai poder permitir contar muitas histórias sobre a vida a bordo nos inícios da carreira da Índia, mas igualmente sobre o que se passava em Portugal".

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