A Magia de Ahmed: o conto infantil vencedor do Correntes d'Escritas

O prémio conto ilustrado infantil Correntes D'Escritas/Porto Editora foi para Armamar. Houve 115 candidaturas.

Era uma vez uma cidade que não era muito grande nem muito pequena. Como todas as outras cidades, tinha muitas casas, prédios com muitas janelas, ruas largas e ruas estreitas, um hotel, escolas modernas, muitas lojas, alguns jardins, cafés, muitas pessoas apressadas... coisas iguais a todas as cidades que não são grandes nem pequenas.

Mas algo era diferente: bem no centro desta cidade, passava um riacho que desaparecia no "Baldio". E era a existência do Baldio que fazia a diferença!

O Baldio era um pedaço de terreno abandonado junto ao campo de futebol. Era um espaço sozinho, esquecido, sombrio, rodeado de muros altos, velhos como o tempo, onde ninguém se lembra de ter entrado. Do lado de fora do Baldio, por cima dos muros, viam-se, há muitos anos, as copas de mil árvores frondosas e esverdeadas de mil verdes. Os habitantes da cidade habituaram-se a passar longe do Baldio porque se contavam muitas histórias tenebrosas a propósito dos barulhos que se ouviam à noite, das sombras que a vegetação desenhava no horizonte, dos cães e gatos que desapareciam misteriosamente, dos contos de seres inventados. Por isso, ninguém se atrevia a transpor os muros, mas todas as crianças viviam curiosas e com a esperança de um dia poderem desvendar os segredos do Baldio.

Só um habitante da cidade não temia as histórias deste lugar misterioso: o Ahmed!

O Ahmed não tinha medo porque também ele era estranho. Dizia-se que era oriundo de uma terra distante, dos lados do Oriente, que tinha fugido da guerra, que não tinha família, que vivia à custa de pequenos trabalhos de limpeza, lavagem e arrumação de carros e de conserto de canos e fios de eletricidade. Os pais e as mães diziam às suas crianças que o Ahmed não era boa companhia, portanto, deviam evitá-lo. Mas, às vezes, meninos e meninas, no final do jogo de futebol, sentavam-se na margem do riacho, junto ao muro, a ouvir as histórias que o Ahmed contava. Eram bonitas! Nasciam de um rosto moreno que se acendia, quando as contava!

Um dia, num sábado, deu-se na cidade um acontecimento preocupante: os meninos tinham estado, pela manhã, muito divertidos a jogar à bola... depois, ninguém mais soube deles! Não apareceram para o almoço e os pais ficaram muito aflitos.

Depressa a notícia se espalhou pelas ruas! Formaram-se grupos de pessoas que procuraram as crianças por todos os cantos da cidade, chamaram a polícia, a sirene dos bombeiros gritou, até os senhores do INEM se prepararam para agir! Mas os esforços foram em vão! As crianças não apareceram!

Já se tinham passado algumas horas, quando alguém se lembrou de perguntar ao porteiro do parque desportivo!...

Entretanto, as crianças estavam na floresta do Baldio! Entraram a medo, todos em fila, atrás do Ahmed que os encorajava. A princípio, as árvores e os arbustos até dificultava a passagem, de tão densos; depois... ai, depois!... Tudo se transformou!

O Baldio, afinal, era um lugar maravilhoso! O riacho que entrava na floresta, pequenino, formava uma cascata e alargava o seu leito! Várias espécies de animais brincavam nas margens e banhavam-se na água límpida! As flores coloridas tapavam o chão como se fossem pinturas de um tapete gigante! A relva era macia e convidava a rebolar, a deitar! Um velho moinho, com as portas abertas, mostrava as montanhas de brinquedos; os mesmos que um dia se estragaram e que as mães deitaram fora; estavam, agora, como novos!

Perante este quadro de sonho, as crianças estavam de boca aberta, sem palavras, com os olhos a brilharem e a quererem mais!

- Olha uma árvore!

À beira da lagoa, mesmo ao lado do moinho, lá estava a árvore! Grande! Copada! Pelo tronco, pendiam umas escadas de corda! Por entre os ramos, uma casa!

- É aqui que eu vivo! Podeis subir.

As crianças, ao ouvir o convite de Ahmed, reparam pela escada de cordas e entraram na casa construída no alto da árvore.

- Que lindo!

- Tantas coisas!

- Ena! Tantos livros!...

Dentro da construção de madeira, havia um sofá que servia de cama, um armário, uma secretária com um candeeiro a petróleo e estantes... e muitos, muitos livros!

As crianças estavam maravilhadas com tanta magia. O Ahmed estava feliz e mostrava a sua felicidade no sorriso que lhe rasgava o rosto e nas lágrimas brilhantes que lhe caíam e molhavam o chão da casa.

Enfim, o Ahmed teve a oportunidade de falar sobre a sua vida. Contou-lhes que umas bombas destruíram a sua casa, a sua família e a escola onde ele dava aulas. Contou também que escrevia livros com histórias infantis. E as crianças compreenderam que, afinal, aquele homem de quem todos tinham medo era bom, era até uma pessoa especial.

O que restava da tarde foi passado por entre muitas histórias... sem ninguém dar conta de que o sol começava a ficar mais fraco e se preparava para se incendiar no cume da serra.

- Agora, tendes que ir embora, meninos!

Cheias de alegria e com muito que contar, as crianças abandonaram a casa, a clareira da lagos, a floresta e...

Do lado de fora do Baldio, para lá dos muros, uma multidão de pessoas aflitas, nervosas, revoltadas... todos soltaram, ao mesmo tempo, um ruidoso suspiro de alívio. E uma confusão emocionada encheu a estrada. Alguns abraçaram os filhos, outros bateram palmas, outros queriam "fazer justiça" e prender o Ahmed por este ter "raptado" os meninos.

No dia seguinte, toda a cidade falava da verdadeira história do Ahmed e comentava a decisão da Câmara Municipal: inaugurar a "Biblioteca da Casa da Árvore", destruir os muros e abrir à cidade o "Parque da Lagoa".

- E o Ahmed?

O Ahmed continua a fazer pequenas reparações de brinquedos, a escrever livros, a contar histórias à beira do riacho e... é, hoje, o "Senhor Professor Bibliotecário"!

Sol Azul

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