A Mãe é Que Sabe: viagens no tempo com bacalhau com natas

Uma família portuguesa à mesa com uma matriarca que alucina e viaja no tempo. É assim o filme de estreia de Nuno Rocha. O DN foi espreitar as filmagens, numa casa lisboeta

No novo cinema português há jovens cineastas que não querem ser o próximo João César Monteiro ou o próximo António Reis. Querem antes fazer um cinema de matriz narrativa e sem medo de uma aproximação a um modelo americano. Nuno Rocha, conhecido de curtas premiadas como 3x3 e Vicky and Sam, estudou nos EUA e está a agora a estrear-se nas longas-metragens, com A Mãe É Que Sabe, uma produção de Pandora da Cunha Telles, e acredita que a sua linguagem pode chegar a um público generalista, ao chamado "grande público".

Quando o DN visita o plateau num apartamento pouco espaçoso mas com muitas divisões no centro de Lisboa, assistimos a uma cena de refeição de uma família. Essa é precisamente a cena que atravessa o filme em três tempos diferentes. A Mãe É Que Sabe passa-se essencialmente à mesa numa refeição de bacalhau com natas e a partir daí salta no tempo e pula por entre hipóteses de realidades paralelas como num jogo espaço temporal com o destino. A mãe, interpretada por Maria João Abreu, começa a ter visões ou alucinações de como a sua vida poderia ter mudado se tivesse feito isto ou aquilo, um pouco como acontecia em Instantes Decisivos, de Peter Howitt, com Gwyneth Paltrow.

Num intervalo da rodagem, Dalila Carmo, a irmã da mãe, ajuda a explicar: "Isto é um filme sobre uma família disfuncional igual a tantas outras mas com uma parte também de fantasia. Mais do que um filme de construção de personagens, é um filme de reações. Como estamos sempre a comer em cena lembrei-me dos filmes do Kechiche. Há uma relação forte com a comida e com o vinho." Um filme português em que a personagem principal tem a máquina do tempo na sua cabeça é, no mínimo, raro no nosso panorama: "Sim, é verdade. Será quase humor negro e nonsense. Gosto do absurdo e isto não é mesmo comédia óbvia como estamos habituados a ver. Para mim, é um bocadinho teatro do absurdo. Estou a adorar!", exclama a atriz.

Como tudo se passa em décadas diferentes, as mesmas personagens são interpretadas por atores diferentes. A versão mais nova da mãe é interpretada por Filipa Areosa e Dalila do Carmo fica mais jovem por intermédio da atriz Catarina Rebelo.

Dalila Carmo: “Isto é um filme sobre uma família disfuncional igual a tantas outras"

Uma comédia conceptual feita por um estreante não deixa de ser matéria de risco para a produtora Pandora da Cunha Telles, da Ukbar Filmes e responsável por Florbela, de Vicente Alves do Ó. A Mãe É Que Sabe não tem subsídios do Estado e terá custado um pouco menos de 400 mil euros, tendo já estreia marcada para o fim do ano pela Cinemundo.

A própria explica como se meteu nesta aventura: "Tenho seguido a carreira do Nuno Rocha nas curtas-metragens. Foi um namoro longo do qual saíram algumas tentativas falhadas de colaboração mas um enorme desejo de trabalharmos juntos. Recentemente decidimos fazer um corta-mato neste namoro e "propusemos-lhe casamento" com este guião de comédia que surgiu do Lab LOL Filmes. Há alguns anos criámos na Ukbar um branding interno para filmes de comédia e género chamado LOL Filmes. E tendo por base várias ideias originais de histórias familiares contratámos argumentistas de comédia para desenvolver guiões. Alguns destes tiveram apoio do ICA ao desenvolvimento, outros à produção, este decidimos avançar recorrendo a patrocínios, distribuidores e um canal de TV, a RTP."

No plateau, Nuno não parece acusar a pressão apesar de tossir algumas vezes devido a uma alergia aos ácaros. Conta-nos que é duro filmar apenas em três semanas e com constrangimentos financeiros, mas não se queixa. Nota-se que quer manter os valores estéticos dos seus filmes publicitários da sua produtora nortenha, a Filmes da Mente. Por isso, manda esperar até dizer "ação!" depois de os fumos serem libertados e fala também muito com Luís Branquinho, o diretor de fotografia. Como nos conta, quer fazer um filme popular mas não popularucho.

Maria João Abreu acrescenta: "É um filme para a família inteira ir ver! Além do mais, temos um elenco de luxo." Além dos já referidos, à mesa com o bacalhau estão entre outros Manuel Cavaco, Manuela Maria e Carlos Santos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A Europa, da gasolina lusa ao palhaço ucraniano

Estamos assim, perdidos algures entre as urnas eleitorais e o comando da televisão. As urnas estão mortas e o nosso comando não é nenhum. Mas, ao menos, em advogado de Maserati que conduz sindicalistas podíamos não ver matéria de gente rija como cornos. Matéria perigosa, sim. Em Portugal como mais a leste. Segue o relato longínquo para vermos perto.Ontem, defrontaram-se os dois candidatos a presidir a Ucrânia. Não é assunto irrelevante apesar de vivermos no outro extremo da Europa. Afinal, num canto ainda mais a leste daquele país há uma guerra civil meio instigada pelos russos - e hoje sabemos, como não sabíamos ainda há pouco, que as guerras de anteontem podem voltar.

Premium

Marisa Matias

Greta Thunberg

A Antonia estava em Estrasburgo e aproveitou para vir ao Parlamento assistir ao discurso da Greta Thunberg, que para ela é uma heroína. A menina de 7 ou 8 anos emocionou-se quando a Greta se emocionou e não descolou os olhos enquanto ela falava. Quando, no final do discurso, se passou à ronda dos grupos parlamentares, a Antonia perguntou se podia sair. Disse que tinha entendido tudo o que a Greta tinha dito, mas que lhe custava estar ali porque não percebia nada do que diziam as pessoas que estavam agora a falar. Poucos minutos antes de a Antonia ter pedido para sair, eu tinha comentado com a minha colega Jude, com quem a Antonia estava, que me envergonhava a forma como os grupos parlamentares estavam a dirigir-se a Greta.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

O governo continua a enganar os professores

Nesta semana o Parlamento debateu as apreciações ao decreto-lei apresentado pelo governo, relativamente à contagem do tempo de carreira dos professores. Se não é novidade para este governo a contestação social, também não é o tema da contagem do tempo de carreira dos professores, que se tem vindo a tornar um dos mais flagrantes casos de incompetência política deste executivo, com o ministro Tiago Brandão Rodrigues à cabeça.