"A Madeira é a periferia mais longe do centro de Lisboa"

Os Paus tocam hoje no Capitólio com o seu novo e quarto álbum na mala. E explicam como a música que fazem é um "bicho diferente"

Com o novo disco na bagagem, Madeira, os Paus sobem hoje ao palco do renovado Capitólio, em Lisboa, depois de terem apresentado na passada sexta-feira o seu quarto álbum no Porto. Fábio Jevelim, Hélio Morais, Makoto Yagyu e Quim Albergaria dizem de si que são demasiado brancos para serem do sul, demasiado pretos para serem do norte, demasiado velhos para serem do outro lado e demasiado curiosos para deixarem as colunas de pé.

Com este Madeira provam-no, assumindo-se como um objeto musical com uma identidade musical cada vez mais própria e que foge a qualquer definição. Já não é apenas a formação original de duas baterias siamesas, um baixo e teclas a fazer um rock cru, visceral e físico. É também uma banda sonora de paisagens que rasgam conceitos de espaço e de formato, como logo anuncia Blusão de Ganza I, com umas teclas que são tocadas como guitarras, ritmos que bebem em muitas influências. "O que mais ouvimos na carrinha são hip hop, música africana (principalmente funaná) e às vezes um dub ou um reggae", conta Hélio.

No Haus, o estúdio de gravação que é também a sua casa, num dia de bátegas violentas, Hélio e Fábio explicam que aquilo que fazem "torna-se um bicho diferente de todas estas referências" porque todos eles vêm do rock. "Uns mais do indie--rock, outros mais do hardcore, mas é uma linguagem que já faz parte de nós e misturando essa herança com o que nós ouvimos acaba por transformar isto noutra coisa", explica Hélio na conversa com o DN. O que ouvem, de onde vê, ajuda a definir esta amálgama em que as palavras são, também elas, um instrumento. "Sempre vimos a voz como um complemento rítmico da música, é muito difícil pôr letras cantadas aqui, que não pareça um bocado azeiteiro", admite Fábio. "Que não fique esquisito", completa Hélio. Para Fábio, o guitarristas que se fez teclista nos Paus, se optarem por pôr em cada canção "uma melodia clássica, fica ridículo, bué de esquisito". "Por isso vemo-nos sempre à rasca para pôr lá voz, levamos a voz para ser mais um instrumento", e ouvimos A Mutante ou L123, canções em que as vozes são disparadas como as baquetas de Hélio e Quim.

Este L123, como o nome do passe social que nos leva até à periferia de Lisboa, "quem vem dos Foros d"Amora/ leva mais até ao centro", remete também para os sítios de onde vêm os quatro Paus e a experiência deste álbum que viajou até à ilha da Madeira, uma região ultraperiférica para a Europa, onde a banda realizou uma residência artística e gravou todos os nove filmes que acompanham cada uma das canções num videodisco. "A Madeira é a periferia mais distante do centro de Lisboa", aponta Fábio. As periferias onde cresceram ajudam a explicar também o que fazem. "Todas essas coisas influenciam, são zonas mais multiculturais, e tu cresces desde puto a ouvir vários tipos de música e isso acaba por te influenciar", conta.

"Em casa o que mais ouço é Beatles e não encontro nada de Beatles em Paus", nota Hélio. "Não há guitarra, não deixamos de ser uma banda rock mas não temos guitarra, não é uma formação muito normal", regista. "Cá já não somos novidade, começámos em 2009, com quatro discos e dois EP já não somos novidade para ninguém." Lá fora é diferente: "Sempre que vamos tocar, como no sábado passado em Haia, as pessoas ainda se surpreendem com o nosso som e o nosso setup", as duas baterias, as teclas e o baixo. Lá fora, há o entusiasmo da descoberta e quem vê os concertos "devolvem esse entusiasmo, "fogo, o que é isto, nunca tinha visto nada disto"."

Como um relógio, de dois em dois anos, mais coisa menos coisa, os Paus têm um álbum novo. "É o tempo certo para ficarmos fartos de tocar aquelas músicas", aponta Fábio. É um esforço de aprendizagem, também para a banda. "Temos de aprender a tocar as músicas para os concertos e apercebemo-nos muitas vezes que ao vivo temos de mudar muitas coisas para que soe ao que está no disco. Pode parecer estranho mas às vezes tens de mudar a tua forma de tocar para que ao vivo consigas captar a mesma sensação que tens no disco", diz Hélio. Hoje à noite, é tempo de descoberta para quem for ao Capitólio.

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