A inocência ficou para trás. Os U2 estão mais experientes

U2 apresentam o seu 14º álbum. Songs of Experience é provavelmente o melhor disco da banda irlandesa deste século XXI, que nos ajuda a ouvir melhor os dias de hoje.

Os U2 não chegam hoje de Berlim com a revolução de Achtung Baby e Zooropa, mas o seu 14º. álbum, ontem editado a nível mundial, traz-nos no seu rock mais imediatamente reconhecido um repositório de canções que é, provavelmente, o melhor da banda irlandesa deste século XXI. E traz-nos um Bono a descobrir que a morte é uma certeza.

Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. apresentam este Songs of Experience depois da digressão que comemorou os 30 anos dessa outra obra-prima que é The Joshua Tree e que acabou por adiar o lançamento deste novo álbum. Verdade seja recordada: a culpa foi de Trump. Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, os U2 quiseram fazer um compasso de espera e recuperar o álbum de 1987, para num fechar de círculo cantarem melhor a distopia do tempo em que vivemos.

Para chegar aqui é preciso olhar ainda um pouco mais para trás, para Songs of Innocence, o álbum anterior, de 2015, que foi lançado com a promessa de um segundo tomo (o álbum que é hoje lançado) e que em determinados momentos assoma à porta de canções deste Experience: American Soul, que conta com Kendrick Lamar a abrir este hino contra a política de Trump, começa onde terminava Volcano; e a fechar o álbum 13 (There Is a Light) é uma reinterpretação de Song for Someone.

A pausa foi produtiva entre um e outro disco, com a digressão pelo meio, explicou Bono nas páginas da revista americana Rolling Stone. “A pausa no nosso álbum deu-nos a oportunidade de tocar ao vivo no estúdio estas canções, despindo-as até ao essencial, sem qualquer truque de estúdio, para ver o que realmente tínhamos. Foi um excelente presente para o álbum.”

Não é, ainda assim, um disco para cativar detratores de sempre ou miúdos que só os ouvem a encher estádios, mas também não se acomodam a revisitar a matéria dada sem ponta de novidade. O letrista e vocalista escreveu estas novas canções como uma coleção de cartas dirigidas à família, aos amigos e à América. Por isso, a intimidade de 13 (There Is a Light) resgata a luz de alguns bons momentos dos U2.

É por Love Is All Have Left que se inicia esta experiência, num tom quase místico de vozes sintetizadas e cordas a vibrarem nas palavras de um Bono que nunca deixa as coisas por menos: “Nothing to stop this being the best day ever/ Nothing to keep us from where we should be”, avisa, para início de conversa. E depois de Lights of Home entra-se na sequência das canções já mostradas ao mundo, com You’re the Best Thing About Me, Get Out of Your Own Way e American Soul. Se na primeira Bono sabe que “The best things are easy to destroy”, em American Soul é Kendrick Lamar que nos narra que “Blessed are the bullies/ For one day they will have to stand up to themselves/ Blessed are the liars/ For the truth can be awkward”.

Também mais à frente The Blackout - outra das canções já reveladas - regressa à América de hoje. Bono confessou que este tema “começou por ser mais sobre um apocalipse pessoal”. E explicou-se em setembro na Rolling Stone: esta canção é sobre “alguns eventos na minha vida que me recordaram da minha mortalidade mas seguiu depois para a distopia política para onde estamos a caminhar”. E é o próprio que cita os versos da canção que mais bem retratam esta canção: “Dinosaur, wonders why it still walks the earth/ A meteor promises it’s not going to hurt would” - e com humor acrescenta que “seriam versos divertidos sobre uma velha estrela de rock mas menos piada quando estamos a falar sobre a democracia e antigas certezas, como a verdade”.

É por isso que os versos seguintes vão diretos ao que está em jogo no mundo, neste momento, como defende Bono: “Statues fall, democracy is flat on its back, Jack/ We had it all and what we had is not coming back, Zac/ A big mouth says the people they don’t want to be free for free/ The blackout, is this an extinction event we see?”

Na capa, os dois jovens fotografados pelo colaborador de sempre, o fotógrafo e cineasta holandês Anton Corbijn, são os filhos adolescentes de Bono e de The Edge. Quando em The Little Things That Give You Away se ouve “The air is so anxious/ All my thoughts are so reckless/ And all of my innocence has died”, percebemos melhor que a inocência ficou para trás e é a maturidade de uma obra como esta dos U2 que nos ajuda também a ouvir melhor os dias de hoje.


Songs of Experience

U2

Island UK

PVP: 19,90/23,90 (deluxe)

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