A guitarra portuguesa tem vida para além do fado

Habitual companheiro de nomes como Ana Moura, Carlos do Carmo ou Mariza, o guitarrista Ângelo Freire apresenta-se hoje a solo no palco do CCB, em Lisboa

Apesar de sem guitarra portuguesa não poder existir fado, o guitarrista que a dedilha fica sempre em segundo plano, subalternizado à emoção da voz. É assim a cultura do fado e Ângelo Freire sabe-o bem, pois desde que se conhece que faz parte dela. Mas isso não o impede de perseguir o sonho de levar a guitarra portuguesa para além do fado, torná-la um instrumento de pleno direito, com vida própria. "Falta muito dar esse passo. A única pessoa que o fez foi o Carlos Paredes, mas fê-lo enquanto solista e compositor, porque nunca esteve ligado ao fado. Tocava um reportório próprio, numa linguagem só dele, que elevou a guitarra a outro universo", defende, em conversa com o DN antes de logo à noite subir ao palco do CCB.

Ângelo Freire tocou para o DN "Canto de Embalar":

Dá como exemplo o último disco de Ana Moura, no qual participou, em que a guitarra portuguesa foi processada para um amplificador de guitarra elétrica. "Foi algo muito ousado e se calhar impensável há apenas 10 anos, mas que acabou por soar bastante bem." Segundo Ângelo Freire, a maior parte dos guitarristas de fado concorda com esta evolução. Os fadistas é que por vezes são mais conservadores, mas até isso está a mudar: "Os guitarristas de hoje têm uma linguagem musical muito mais fresca e abrangente. E a nova geração de fadistas, no modo como tem cruzado o fado com outras músicas do mundo, também tem contribuído para que a guitarra esteja cada vez mais em contacto com outras realidades."

Tendo uma personalidade tão própria, "as raízes da guitarra portuguesa nunca se vão perder" e deveria começar a ser vista quase como outro instrumento, "que se pode encaixar em qualquer estilo musical", mas isso, sublinha, só depende dos guitarristas.

"Há uma elite de guitarristas no fado, bastante conhecida e respeitada no meio, mas se pegarmos neles individualmente, ninguém de fora sabe quem eu sou, quem é o José Manuel Neto, o Luís Guerreiro, o Bernardo Couto, o Pedro Castro, o Custódio Castelo, o Ricardo Parreira, o Ricardo Rocha e por aí fora." Não se leia aqui qualquer crítica ao fado, muito pelo contrário. "Nem me imagino a viver sem o fado", faz questão de esclarecer, mas nem era preciso tal declaração de interesses, bastava apenas olhar à volta. Por sugestão do próprio, o encontro com o DN foi no restaurante o Faia, uma das mais conhecidas casas de fado lisboetas, enquanto a conversa tem lugar "na mesa da Dona Anita Guerreiro", como faz questão de respeitosamente referir. É portanto esse amor ao fado que o leva sempre a desejar mais e mais para a guitarra portuguesa.

Da Tasca do Jaime para o mundo

Aos 27 anos, já há quem o apelide de prodígio, afinal nem todos se podem gabar de, ainda adolescente, terem corrido o mundo a acompanhar alguns dos maiores nomes do fado. É mesmo caso para dizer que, apesar da juventude, toda a vida de Ângelo Freire tem sido dedicada ao fado. "Acho que por nascido e crescido num bairro tão tradicional como é o da Graça, o fado sempre fez parte de mim", reconhece.

Apesar de desde pequeno ir com os pais aos fados, foi na popular Tasca do Jaime que começou a ter os primeiros contactos com guitarristas e fadistas. "Não tenho ninguém na família ligado ao fado, foi um interesse espontâneo e logo aos 6 anos comecei a cantarolar os meus primeiros fados", adianta. Bem presente na memória está também o momento em que pela primeira vez cantou em público. "Foi depois da minha primeira comunhão. Fomos almoçar a um restaurante na Graça e alguém me pediu para cantar um fado. Subi para cima do beiral da janela e cantei a Lenda da Fonte a capella."

O interesse pela guitarra portuguesa surge pouco tempo depois, "por volta dos 8 ou 9 anos", altura em que aprende os primeiros acordes. "Nem sequer tinha guitarra, mas um marceneiro da Graça, o senhor Arnaldo, que fazia móveis, ofereceu-lhe uma, feita por ele.

Em 2000, com apenas 12 anos, vence a Grande Noite do Fado, na categoria de Juvenis, e o concurso internacional de talentos Bravo Bravíssimo. Nesse mesmo ano começara a ter aulas de guitarra com o mestre Arménio de Melo e, pela primeira vez, começou a pensar no fado como opção de vida. "O meu pai percebeu desde muito cedo este meu desejo. Eu era muito mais interessado por música do que por qualquer outra coisa. Daí ele nunca ter exigido muito de mim na escola e tê-lo feito na música. A única condição que colocou foi apenas passar de ano, senão acabava-se a música. E a ameaça resultou (risos)." Aos 14 anos, com a mudança da voz, Ângelo apostou de vez na guitarra e foi tirar um curso de guitarra clássica. Mais ou menos na mesma altura começou também a tocar nas casas de fado, a acompanhar o seu mestre, porque "é assim que se aprende, a ver e a ouvir os mais velhos". Aos poucos as pessoas começaram a conhecê-lo também e as portas começaram a abrir-se. Aos 15 anos já tocava com Mafalda Arnauth ou Ana Moura. "Fui convidado pelo Jorge Fernando, que é um dos grandes responsáveis pelo meu crescimento e por me dar a conhecer ao mundo", revela. Mesmo assim e como prometera ao pai, estudou até ao 12.º ano, mas "com alguma dificuldade", pois as digressões obrigaram-no a crescer um bocadinho depressa demais. Em especial a partir dos 17 anos, quando começou a acompanhar Mariza nalguns dos maiores palcos internacionais, convivendo com nomes míticos da música mundial.

"Foi um período muito importante, que me permitiu desenvolver uma nova linguagem musical para a guitarra portuguesa", lembra. Neste momento é com Ana Moura que habitualmente toca - "Além de uma amiga de longa data, que me deu a conhecer o mundo e me deu a conhecer ao mundo, é a pessoa com quem mais à vontade me sinto, em termos musicais." É este percurso que amanhã quer celebrar no palco do Grande Auditório do CCB, onde, ao contrário do habitual, será o guitarrista a estrela maior do espetáculo, que contará com a presença de alguns convidados especiais, como Carlos do Carmo ou Ana Moura.

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