"A canção nacional é o hino, não é o fado"

A conversa começa com Antoñete e atravessa o mundo até ao Soweto, duas imagens distanciadas no tempo mas a tocar fortemente a sensibilidade de Carlos do Carmo.

O fado está sempre presente, mesmo quando fala de qualquer outra coisa. No sábado, 18 de novembro, o fadista de 77 anos partilha o palco com Raquel Tavares, de 32, que ganhou a Grande Noite do Fado aos doze. Nenhum dos dois desvenda o segredo do que vai ser este concerto que encerra as comemorações do 125.º aniversário do Campo Pequeno.

Tem memórias de infância do Campo Pequeno?

De adolescência. O meu pai era aficionado e eu vinha com ele assistir às corridas de toiros com os melhores cavaleiros, grupos de forcados e toureiros a pé. Os tempos passam, as coisas alteram-se, hoje a tourada é vista por um razoável grupo de pessoas como algo negativo que molesta os animais. Deixou de ser um espetáculo para ser polémico. Mas o que eu tenho presente tem a ver com arte e com estética: o homem e o toiro. Havia um toureiro espanhol chamado Antoñete [1932-2011]. Era uma esfinge. O touro saía do curro, limpinho, com os cornos bem afiados, e ele, estático no meio da arena, recebia-o com um passe. Uma coisa de aguarela. Toda a faena se ia fazendo com ele fincado num local, os pés não mexiam. Como é que o touro não o colhia? Ele tinha uma magia qualquer que nunca percebi. Era arte pura e dura, com muita elevação.

Vai cantar com a Raquel Tavares. Como é que a vê?

É uma artista muito completa e canta muito bem o fado. Sendo uma jovem, é uma mulher muito experimentada porque começou em miúda. Tem uma sabedoria. Ela é intensa e dança maravilhosamente. Gosto muito da Raquel. Sou suspeito porque temos uma relação muito terna, é uma pessoa encantadora comigo e com a minha mulher.

O Campo Pequeno foi remodelado. Está muito diferente desse tempo?

Vou-me permitir dizer isto em público porque já o disse ao Bento Vasques, que me convidou muito educadamente para fazer o concerto. Isto não tem a ver só com o Campo Pequeno. Eu canto há 54 anos, sou português visceralmente, amo a minha terra e tenho-a cantado no mundo inteiro, procuro sempre que o meu país seja visto com a dignidade que merece. Tenho uma ligação fortíssima com a diáspora, desde a Austrália até aos sítios mais próximos. Mas nos últimos 40 anos construíram-se pavilhões e nunca foi consultado um engenheiro de som, é absurdo. As manifestações culturais requerem um bom. Há um caso típico, que é a super-sala de Lisboa, o Meo Arena [agora Altice Arena]. É uma sala com muito mau som. O Coliseu tinha um bom som antes das obras, depois das obras ficou com mau som. Os engenheiros de som servem para isso, acompanham a obra com os arquitetos e os construtores.

A classificação do Fado como Património Mundial valeu a pena?

Muito. Estamos numa fase de desenvolvimento. A pesquisa nunca para, vão-se sempre descobrindo coisas. Está a decorrer no Museu do Fado uma exposição de pintura sobre o fado, o que era impensável antes. Houve uma exposição em Seul que teve 300 mil visitantes. O Museu está sempre em movimento, há colóquios, exposições, aulas e um exponencial aumento de visitantes. A princípio eram meia dúzia de gatos pingados e no ano passado foram 175 mil pessoas. É um trabalho muito bonito e deve-se a uma diretora excecional que está lá desde a fundação, a Sara Pereira, que tem uma equipa de mulheres excecional. Nós, fadistas, beneficiamos disso. Desejo que a geração que chegou depois da nossa olhe para aquilo com atenção e que desfrute, porque com as novas tecnologias tem tudo ao dispor. Sabia que o primeiro disco de fado é um ano anterior ao primeiro disco de blues?

É uma investigação que nunca tinha sido feita?

Não, e é feita de forma muito responsável. Eu tive o privilégio de conhecer os mestres, com a maior parte deles tive muito boa relação. Ensinavam-me. Esses velhos mandavam, quando falavam para a geração seguinte era como quem dá uma ordem. Um dia o Marceneiro ouviu-me cantar, olhou para a minha mãe e disse: "Ó Lucília, tem atenção ao miúdo que ele tem muito jeito". Isto era uma ordem. Os primeiros três ou quatro discos da minha carreira não os editei sem o Marceneiro os ouvir primeiro.

Tratava-o por senhor?

Ti Alfredo. Eu tinha uma ternura imensa pelo Carlos Ramos, pela Berta Cardoso, um grande respeito pela Maria Teresa de Noronha. A Amália e eu tivemos uma relação próxima mas depois fiz-me homem e a vida separou-nos.

Sente falta da vida de casa de fado?

Não. Foram 20 anos de tempo de antena. A minha mãe e eu fizemos a melhor sala de visitas de Lisboa, passe a vaidade. Era uma grande casa de fados, com um excelente staff. Já morreram 95 por cento dos empregados e tenho muitas saudades deles.

Essa passagem de testemunho é hoje o seu papel?

Tenho uma atitude muito fraterna com a grande maioria das jovens e dos jovens fadistas e sinto que eles gostam que eu acrescente qualquer coisa ao que eles sabem, no sentido de passar a tradição oral. Se conto uma história que vivi com o Marceneiro, que não vem nos livros, eles gostam. Diziam que ele era um homem difícil, e era. Mas a cantar era de uma grande honestidade. Se tinha a consciência de que não estava a cantar bem - ele tinha umas orelhas do tamanho de um camião - e o público vibrava, ele chegava ao pé de mim e da minha mãe e dizia - "não percebem nada disto". Outras vezes cantava magistralmente, e a vibração do público não correspondia, ele dizia "pérolas a porcos..." com ar de Marceneiro. Era uma grande figura, uma grande referência para todos nós.

O Camané fez um disco com fados do Marceneiro que tem a sua participação num fado delicioso.

Lembrava-me daquele fado de quando era miúdo, cantado por um homem que era porteiro da Adega Machado. Saía da porta e ia lá dentro cantar um fado. Era uma espécie de desgarrada, empolgante. Quando fui gravar com o Camané, disse-lhe - "dá-me só a letra, deixa-me guardar a música que tenho na memória". Eu nunca soube a letra toda, sabia pouco mais do que A Lucília Camareira era a moça mais bonita... Atirei-me de cabeça a cantar, ele ficou meio surpreendido e, em vez de cantarmos à desgarrada, cantámos um para o outro.

E ele tem consciência disso, já o disse.

Na realidade, conheci aquelas pessoas, eu seria garoto mas está na minha memória. Deixaram uma grande marca no fado. Um rapaz da minha geração, o António Rocha, diz: "O fado não muda, o que muda são os tempos". Dá para refletir. O tempo mudou, as pessoas são outras, mas o fado está lá. Se não estiver, já não é fado, passamos para o domínio da pop e é outra coisa. O fado é um canto de imensas minorias. Quando vou cantar a Trás-os-Montes ou ao Alentejo vou cheio de cerimónia.

Porquê?

Porque não é a música deles. O fado centrou-se na zona de Lisboa e foi chamado canção nacional porque tocava de manhã à noite na rádio durante a ditadura. A canção nacional é o Hino. O fado é uma canção urbana, com muito valor, capaz de penetrar por esse mundo fora, tenho experiência pessoal disso. A ideia de se cantar boa poesia através do fado é absolutamente divina. Um finlandês que não sabe uma palavra de português é tocado pelo fado. É quase inexplicável. Porque cada país tem alguém que gosta da língua portuguesa, alguém que gosta de fado. E não esquecer que há luso-americanos, luso-franceses, luso-australianos, que hoje vão assistir ao fado falando os idiomas da terra onde nasceram. Às vezes mal o português, mas vão em homenagem aos pais, às referências que têm da infância, mas vão com interesse e uma atitude cultural diferente.

Muito obrigada pela entrevista.

Desculpe mas tenho uma coisa para contar, morro se não conto. Tive há um mês uma das mais belas emoções da minha carreira, uma coisa muito marcante para mim do ponto de vista sentimental, afetivo, social. Fui cantar a Joanesburgo com os meus três guitarristas e acompanhado por uma orquestra de jovens sul-africanos. Não era fácil para eles estarem a tocar os nossos arranjos mas, com boa vontade, conseguimos criar ali um ambiente. Não dei conta que havia um palanque e de repente vejo entrar dez raparigas e dez rapazes, pretos, sul-africanos. Os dois fados que tinha para cantar eram as Canoas do Tejo e a Lisboa Menina e Moça, mais alegres, para as pessoas cantarem juntas. Eles vinham fardadinhos, uma coisa simples mas uniforme. Eles cantaram rigorosamente o refrão da Canoa como se fossem portugueses. E depois cantaram o refrão da Lisboa Menina e Moça com as suas coreografias, dançando como africanos.

Como é que isso aconteceu?

Um moçambicano que trabalha muito em questões sociais arranjou um patrocínio para comprar as farditas dos miúdos - alguns nem sapatos tinham - e foi ao Soweto buscá-los. Preparou-os e naquela noite os miúdos vieram cantar comigo. Aprenderam foneticamente. Eu estava a olhar para eles e com os olhos a ficarem humedecidos. Estava muito tocado por aquela circunstância absolutamente única na minha vida e provavelmente irrepetível. É uma coisa do outro mundo, uma coisa de sonho. Virei-me para o público e estavam as pessoas todas de pé a chorar. Uma coisa esmagadora. E devo dizer que 50 por cento do público era sul-africano. Uma coisa arrepiante, quando penso nisso penso na dimensão do Homem. O Homem pode fazer coisas tão belas, tão belas. Não faz nenhum sentido que neste momento estejamos na velha Europa todos contra todos.

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