5+5 de 2017 para ouvir em 2018

Dos balanços do ano passado recuperamos alguns álbuns que valem a pena (re)descobrir neste novo ano. A música nunca tem prazo de validade, como provam estes dez exemplos: cinco de cá, cinco de lá

Os balanços do ano são também tempos de descoberta e de sintetizar o muito que ouvimos e o tanto que nos escapou. Ou só aquela preciosidade a que não prestámos a atenção devida no momento certo. De 2017, agora que 2018 assenta arraiais, vale a pena recuperar sons e palavras que fizeram alguma da melhor música do ano, de cá e de lá fora - e que ressoam no ar à espera de mais tempo para a escuta. Prova ainda de que a música nunca tem prazo de validade.

Ermo, Lo-Fi Moda

Num improvável regresso ao futuro, Fernando Pessoa deve ter escrevinhado, nos idos de 1929, "primeiro estranha-se, depois entranha-se", de auscultadores postos a ouvir Lo-Fi Moda, que se tornou um dos favoritos das listas de 2017 das publicações da especialidade. O terceiro registo desta dupla de Braga navega por entre sons eletrónicos que tanto parecem saídos de ataris e zx-spectrums como desconstroem barreiras físicas da pop, numa crítica assumida aos excessos do digital. Gravado numa residência artística no GNRation, em Braga, espaço orientado para a exploração nas artes digitais, António Costa e Bernardo Barbosa afirmam-se como incontornáveis com este Ermo.

Tomara, Favourite Ghost

Tomara é o nome improvável para o delicado projeto musical de Filipe C. Monteiro, produtor, que trabalhou para Rita Redshoes e Márcia, escritor de canções e realizador que se estreou em setembro passado com Favourite Ghost. Nos fantasmas convocados por entre guitarras, metais e cordas, ressoa a voz de Filipe, que é também acompanhada por Márcia em House. Os instrumentais que emergem, como The Road ou Land At The Bottom Of The Sea, inscrevem-se nessa linha lânguida e melancólica da que é uma bela primeira obra.

Sílvia Pérez Cruz, Vestida de nit

É das vozes mais inquietantes e fascinantes da atualidade. Esta catalã que tem um pé em Portugal (vive cá uma das suas irmãs) acaba por refletir na sua obra a transversalidade de diferentes culturas e sonoridades reinventando-as como suas. Por isso, neste espantoso Vestida de nit não estranhamos ouvir no seu alinhamento Estranha forma de vida, imortalizado por Amália Rodrigues, Corrandes d"exili, de Lluis Llach, ou Hallelujah, de Leonard Cohen.

Grandfather's House, Diving

Os Grandfather's House apresentam no seu terceiro cartão de visita uma canção que conta com a voz rouca e declamada do mão morta Adolfo Luxúria Canibal - no longo e viciante Nah Nah Nah -, que contrabalança e introduz nos restantes temas da voz segura de Rita Sampaio (e nos embala ainda nos sintetizadores), as guitarras de Tiago Sampaio e a bateria de João Costeira. Diving nasceu também de uma residência artística no GNRation. É um mergulho que vale a pena.

Susanne Sundfør, Music For People In Trouble

Depois do aclamado Ten Love Songs (2015), que sintetizava uma pop cinematográfica e baladas épicas, Susanne Sundfør regressou para nos apresentar um dos mais belos álbuns de 2017, pela primeira vez numa editora internacional. Despido de excessos, Music For People In Trouble é um disco que se centra na voz da norueguesa, num formato acústico que vai desconstruindo a sua linguagem pop com ambientes e sons que obrigam o ouvinte a prestar toda a atenção às finas camadas que se desenham e arrebatam num final glorioso, onde se ouve também com a voz de John Grant (em Mountaineers). Tão imprevisível como essencial.

Luís Severo, Luís Severo

Se a palavra não tivesse sido gasta à exaustão e caído em desuso, Luís Severo seria um cantautor das gerações novas, a juntar-se a uma excelente galeria de rapaziada que faz das palavras em português um delicioso exercício de autorretrato, a cantar amores e malandragens, a cidade e os comboios, neste álbum homónimo de 2017. No final do ano, Severo ainda presenteou fãs e desconhecedores com um "disco ao vivo gravado em novembro, para sair no natal", Pianinho. Pianíssimo.

Peter Perrett, How The West Was Won

Cheio de vida, como se apresentou este britânico de 65 anos, Peter Perrett surpreendeu em 2017 com um regresso em voz própria - depois de anos de silêncio do antigo líder dos The Only Ones, banda que pontuou de 1978 a 1980, e de outro grupo de um disco só, The One (com edição em 2006). Este How The West Was Won é um exercício sobre o amor, não recusando os espinhos, e fazendo dele uma celebração da história com a sua mulher há 48 anos. Sorte a nossa.

Rostam, Half-Light

Depois de deixar os Vampire Weekend, no início de 2016, para seguir uma carreira a solo, Rostam Batmanglij apresentou este Half-Light em 2017, que acaba por recuperar algumas composições anteriores do iraniano-americano, uma escrita há mais de 10 anos, outras publicadas originalmente em 2011. Também por isto o álbum soa estranhamente familiar, entre projetos antigos de Rostam e os Vampire Weekend, num registo que ilumina ao lusco-fusco.

Randy Newman, Dark Matter

Se for daqueles que presta atenção aos créditos dos filmes e está atento às noites dos óscares, o nome de Randy Newman é-lhe familiar: já foi nomeado por 20 vezes para a estatueta e venceu por duas vezes, com as canções originais de Toy Story 3 e Monstros e Companhia. Dark Matter é de outra cepa, apesar de Newman absorver as suas orquestrações da ficção de Hollywood: aos 73 anos, o compositor americano mostra-nos como continua atento ao mundo que o rodeia, com diálogos entre criacionistas e cientistas ou um olhar cáustico sobre Putin.

Lula Pena, Archivo Pittoresco

O arquivo que Lula Pena nos trouxe em 2017 é de um magnetismo que se pode resumir a uma guitarra e uma voz que sussurra e arrebata a cada nota e a cada instante destas 13 canções. Há um sabor especial nas palavras desta lisboeta, nascida no ano da revolução e que se explora entre o português de cá e do Brasil ou o espanhol e o grego, salada atlântica e mediterrânica óbvia e própria de um cosmopolitismo feito de despojamento que nunca soa a soberba. Ao terceiro álbum desde 1998 (!), Lula traduz em Archivo Pittoresco uma das obras mais consistentes da música feita por cá.

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O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

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Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

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A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

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Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

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Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

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Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

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A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

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Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.