"É a realidade que aciona o poema"

Nómada veio confirmar João Luís Barreto Guimarães como um dos principais poetas da língua portuguesa.

O mais recente livro do poeta João Luís Barreto Guimarães tem uma palavra única no título: Nómada. Nada que se estranhe, pois as suas respostas são tão sucintas como os poemas que escreve em livros que têm surpreendido e seduzido cada vez mais leitores.

No "Prelúdio" destaca a "pastilha elástica" e a "batata frita". Como diz no último verso, é para "perguntar pela verdade que existe nas coisas comuns"?

É para mencionar a imagem precisa, a que é necessária à verdade, sem receio do vocábulo inusual ou do signo que possa ser menos poético. Porque se é daquelas palavras que o poema precisa para com maior precisão dizer o real, então são essas as palavras que devem ser usadas porque todas têm potencial para vir a ser matéria-prima do poema.

Sente-se um diálogo com o leitor nos poemas. É uma necessidade?

É uma opção. Existe poesia que não se interessa em saber se comunica e existe outra que comunica. Esta é uma poesia que nunca escondeu que quer ser lida, sem que isso signifique qualquer grau de facilidade. O poema coloca-se num nível de inteleção que respeita a inteligência do leitor, e ele faz o seu caminho para entrar no poema. Poeta e leitor comunicam através do poema, essa construção lúdica, esse artifício.

Em "A Hipótese do cinzento" recusa um país a preto e branco. A realidade altera o caminho da poesia?

Mais do que recusar ou aceitar, constato a sua existência e lido ironicamente com isso. Porque a realidade não apenas altera a minha poesia como a define. É a realidade que aciona o poema.

É impossível ao poeta fugir ao "Autorretrato" no seu trabalho?

Em Você Está aqui (Quetzal, 2013), existia um "Autorretrato" (aos quarenta e cinco). Agora, em Nómada surge um "Autorretrato" (aos cinquenta). Posso dizer que, se aquele já era algo melancólico, próprio de um cético inconformado, este é muito mais dorido, na alma e nas articulações.

Publica desde 1989, em média de três em três anos. Precisa de intervalos rigorosos?

Preciso de viver. Preciso de experimentar a vida. Em Luz Última (Cotovia, 2016), no poema "Deceção à Regra", escrevi: "Escrevo de dentro da vida." Tem de existir vida - tempo, geografia - entre os poemas para que os livros aconteçam.

Quando voltar a fazer um Poesia Reunida (Quetzal, 2011), vai banir poemas que manteve nessa reunião da obra completa?

Sim, dois poemas de "Há Violinos na Tribo" (edição de autor, Porto, 1989) não souberam resistir às sucessivas leituras da obra. O livrinho de 28 sonetos terá numa próxima edição, vinte e seis.

Aonde o leva o reconhecimento dos seus últimos livros?

Às mãos de um maior número de leitores, suponho eu, a única coisa que realmente me interessa.

Alguns destes poemas foram escritos em cidades estrangeiras. Inspiram-no mais?

Não digo que me inspirem mais mas provavelmente o facto de, em algumas dessas geografias, o meu olhar sobre as coisas ser um olhar limpo, um olhar novo, talvez me permita ver mais claro.

Terminar com "Moral da História" era inevitável?

Não sei se era inevitável, aconteceu assim... A sexta parte de Nómada transporta uma certa redenção, depois dos temas que são tocados pelas cinco partes que a precedem. Mas na vida real, a morte vence sempre a vida, por essa razão o livro tinha de terminar com uma nota mais negra para que plasmasse, com verosimilhança, a experiência universal do ser humano.

A crítica está-lhe rendida. Receia essa bênção?

Está?

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