Harry Dean Stanton (1926-2017): as canções do anti-herói

O ator que protagonizou Paris, Texas, de Wim Wenders, morreu na sexta-feira aos 91 anos. Também cantava (e bem)

Não é justo ouvi-la assim, sabendo já da morte de Harry Dean Stanton, na última sexta-feira, aos 91 anos, por causas naturais. Todavia, quando o ator entoa Everybody"s talking at me / I don"t hear a word they"re saying ou I"m going where the sun keeps shining, ambas passagens da canção Everybody"s Talking, é difícil não imaginá-lo a cantar para quem cá fica.

O homem que nunca quis ser protagonista - "demasiado trabalho", citava a Billboard - foi-o pela primeira vez em 1984, aos 58 anos, quase cem filmes depois, no clássico Paris, Texas, de Wim Wenders, o responsável pela dificuldade de vermos o rosto de Stanton sem ouvir a guitarra de Ry Cooder (autor da mítica banda sonora) por trás. Apesar de se mostrar ali quase mudo, o anti-herói Travis, que conhecemos estrada fora, a caminho de Jane (a atriz Nastassja Kinski) canta Canción Mixteca no filme que venceu a Palma de Ouro em Cannes. Canção tradicional desse país que está paredes meias com o estado americano a que pertence o Paris de Stanton: Texas. Consta que o papel lhe foi oferecido depois de se embebedar com Sam Shepard, o argumentista do filme, que morreu em julho último.

Além de Wenders, o ator conta no currículo realizadores como David Lynch, com quem trabalhou em Wild at Heart, Inland Empire, e na série Twin Peaks (onde voltou agora a aparecer como Carl Rodd). Contam-se ainda O Padrinho II, de Francis Ford Coppola, Alien, de Ridley Scott, Escape From New York, de John Carpenter, ou A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. Sempre papéis secundários, como convinha a Harry, nascido em 1926 no Kentucky. Filho de uma mãe cabeleireira, e um pai que plantava tabaco, o ator serviu na Marinha como cozinheiro, durante a II Guerra Mundial. Quis ser escritor, músico e ator; rendeu-se à representação, confessou em entrevista ao Observer. Mas a voz apareceu muito, ao longo dos anos em que apareceu no grande ecrã, e sobretudo em Harry Dean Stanton: Partly Fiction (2012), o filme que Sophie Huber fez sobre ele. Vale a pena ouvi-lo cantar aí Hands On The Wheel ou o clássico da folk, Blue Eyes Crying In The Rain.

Uma das suas mais icónicas aparições no cinema é, aliás, a cantar, em Cool Hand Luke , de Stuart Rosenberg, com Paul Newman na cadeia. Stanton, novo, com a cara queimada pelo sol, canta If I fall, dear lord, who cares?, da canção Just a Closer Walk With Thee.

Foi muito amigo de Jack Nicholson, com quem partilhou casa na década de 1960 e para quem cantou, ao lado de Art Garfunkel, All I Have To Do Is Dream, numa homenagem ao ator pelo American Film Institute. Outro amigo próximo foi Bob Dylan, que conheceu na rodagem de Pat Garrett and Billy the Kid, de Sam Peckinpah, em 1973. O ator contou ao Guardian que Peckinpah puxou de uma pistola à sua frente, porque ele e Dylan estragaram uma cena, correndo cenário fora.

Para acabar: Stanton a cantar Red River Valley no regresso de Twin Peaks.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG