Harnoncourt, um enorme maestro, morre aos 86 anos

Obituário. Nikolaus Harnoncourt foi uma figura decisiva do mundo da música clássica do pós-II Guerra e ensinou-nos a escutar de forma diferente as obras do passado. Deixa uma vastíssima discografia

Há três meses, na véspera do seu aniversário (nasceu no dia de São Nicolau, 6 de dezembro, em 1929), Nikolaus Harnoncourt anunciara de forma sincera e singela, ao seu público de Viena e ao mundo - urbi et orbi, portanto - o final da sua carreira de maestro, admitindo não deter mais capacidades físicas para continuar. Quem o conhecesse bem terá de imediato temido o pior - pois dele era uma máxima que dizia "não posso parar, senão fico prostrado na cama e nunca mais me levanto!" E a mulher de toda a vida, Alice (violinista), era a primeira a não o deixar desdizer-se...

Precisamente três meses depois, Nikolaus faleceu, aos 86 anos, derrotado por uma doença cancerígena de que padecia há alguns anos e que muito poucos conheciam.

Extingue-se assim a presença entre nós de alguém que foi verdadeiramente um portador de luz sobre a arte de interpretar a música erudita da tradição ocidental. Que começou por ser um "porta-facho", quando, nos anos 50, decidiu virar do avesso a forma de interpretar o repertório barroco e clássico.

Veja aqui um vídeo de Harnoncourt na Sinfonia n.º 1 de Brahms, com a Filarmónica de Berlim (inclui entrevista, na qual ficam claros os seus princípios interpretativos e a sua imensa sabedoria), e onde também fala do significado pessoal muito particular do Duplo Concerto de Brahms:

Na Áustria natal (filho de austríacos, Harnoncourt nasceu em Berlim, onde o pai trabalhava, mas a família mudou-se para a Áustria ainda ele bebé), comparam a sua envergadura e a relevância do seu legado aos de dois (outros) gigantes da regência orquestral: Wilhelm Furtwängler e Herbert von Karajan. Agora, a quente sobre o seu desaparecimento, poderá parecer exagerado, mas cremos que os anos e as décadas próximas confirmarão essas afinidade e proximidade.

Veja aqui um vídeo de Harnoncourt ensaiando sinfonias de Beethoven com a Orquestra de Câmara da Europa, formação com a qual fez uma marcante integral beethoveniana (inclui depoimentos seus):

Uma coisa é certa: Harnoncourt foi o verdadeiro pai da maior mudança de paradigma interpretativo verificada no século XX. Foi esta a abordagem das obras a partir de considerações históricas, preconizando a necessidade de consultar as várias fontes e compará-las; investigar a performance practice (prática interpretativa) adequada à obra, de acordo com autor, época, local, estilo, género, função; recuperação de instrumentos coetâneos da época em qua a música foi feita, ou estímulo à construção de cópias modernas desses instrumentos, para se obter um som o mais aproximado possível daquele em que as obras primeiro soaram; estudo detalhado da técnica de execução desses instrumentos, assim como da estética que guiava a interpretação musical; ligação da interpretação musical aos princípios da retórica e da voz humana; formação de agrupamentos instrumentais semelhantes aos que existiam em séculos passados para devolver (observando as premissas acima) um som "autêntico".

Foi precisamente isso que Harnoncourt fez quando criou o Concentus Musicus Wien na década de 50, grupo com o qual viria a revolucionar a cena da "música clássica" nas décadas de 60 e 70.

Veja aqui um vídeo de Harnoncourt dirigindo o Concentus Musicus, mais solistas e um coro infantil na Paixão segundo São João de Johann Sebastian Bach:

A partir, sobretudo, da década de 80, começou a dirigir orquestras grandes e de instrumentos modernos, mas apli- cando, na extensão possível, princípios interpretativos historicistas. Contudo, Harnoncourt era tudo menos um fundamentalista, ou tão ingénuo que acreditasse na absoluta autenticidade. Era antes de mais um artista e um intérprete que amava a música o suficiente para saber que ela, vinda embora do passado (por vezes distante) tem porém de comunicar e emocionar as sociedades de hoje.

O seu ideal ficou registado em centenas de gravações e estas, co- mo o seu exemplo, são os "ombros de gigante" que será preciso escalar para ver mais além. Sempre.

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