Haja bolsa para tanta variedade de concertos

Vamos revisitar Bob Dylan e Van Morrison. Saudamos os regressos dos Arcade Fire, de Benjamin Clementine ou dos LCD Soundsystem. A delegação metálica é forte, a brasileira ainda espera novidades. E os portugueses também "complicam" a escolha. João Gobern

Quando lhe foi atribuído o Nobel da Literatura, Bob Dylan terá sorrido por diversos motivos. Um deles, porventura dos mais prosaicos, prendia-se com a notoriedade, com o aumento da procura do seu nome para concertos e com a inevitável subida do cachê. Vamos poder vê-lo e ouvi-lo ainda no primeiro trimestre de 2018, a 22 de março, na Altice Arena, com o secreto desejo de que não gaste demasiado tempo com as versões de originais alheios - como acontece em Triplicate, o seu disco mais recente - e se vire para as suas próprias criações.

Mais adiante, outro dos "pais fundadores" chegará para encerrar o EDP Cool Jazz, que decorre de 11 a 28 de julho - Van Morrison, o cantor hiperativo que, ao longo de 2017, lançou dois álbuns originais e uma coletânea de raridades. Esse pode cantar o que quiser, que qualquer cançãozinha lhe vai bem. No mesmo festival, já estão confirmados mais dois nomes, bastante apetecíveis: David Byrne e Gregory Porter. Entre os velhos mestres, merece ainda destaque a dupla presença de Roger Waters (Pink Floyd), a 20 e 21 de maio (Altice Arena), num espetáculo que vai percorrer The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e Animals, três dos álbuns clássicos do grupo que liderou.

As várias classes de revivalismos - ou de expectativa de prolongar os sons e os temas que deixaram marcas na juventude - vão muito além do já referido, se pensarmos na vinda dos OMD (os de Enola Gay e Souvenir) à Aula Magna, a 16 de fevereiro, já depois dos Fischer-Z (os de Marliese ou So Long) passarem pelo Hard Club (28 de janeiro), no Porto. Os The Jesus and Mary Chain engrossam este terreno do regresso à new wave e ao post-punk, reservando o Coliseu dos Recreios (28 de maio) e a Casa da Música (no dia seguinte). Mais notícias sobre a matéria ficam reservadas, certamente, para o momento em que se fechar o programa do festival de Vilar de Mouros (23 a 25 de agosto), em que já estão confirmadas as presenças dos Human League (os de Don"t You Want Me? ou Human) e de Los Lobos, que, com enorme injustiça e ironia, se tornaram conhecidos do grande público por causa de uma versão de La Bamba, quando antes e depois assinaram grandes momentos do tex-mex musical.

Cotações em alta

Nem só de lembranças, por melhores que sejam, vive este calendário de oportunidades, em que figuram - e de forma destacada - os nomes que, por estes dias, dominam as "cotações" dos espetáculos internacionais. O ano ficaria ganho, mesmo que não fôssemos além de um quadrado mágico, que tem como vértices Benjamin Clementine - que, entre 27 e 29 de março, vai regressar ao seu segundo disco em Viana do Castelo, na Figueira da Foz e no Campo Pequeno -, os Arcade Fire - também com cartel de momentos sublimes entre nós e, desta vez, agendados para 23 de abril, no Campo Pequeno -, os LCD Soundsystem de James Murphy - com o Coliseu de Lisboa pronto a lotar a 19 e 20 de junho - e, mais tarde, no cenário singular de Paredes de Coura (15 a 18 de agosto), quando pudermos saudar o novo andamento do percurso de Björk, que acabará sempre por ser a cabeça-de-cartaz do festival nortenho.

Os amantes do hip-hop poderão voltar a aplaudir o carismático Tricky, que estará no Lisboa ao Vivo (27 de fevereiro) e no Hard Club (28 de fevereiro). Apontado a uma plateia de outras dimensões, também seremos convocados para testemunhar a verdade sobre a voz de Sam Smith, que estará a 18 de maio na Altice Arena. Poucos dias antes, a norte--americana Angel Olsen poderá avaliar o seu próprio crescimento, tanto no Centro Vila Flor, em Guimarães, como no Teatro da Trindade, em Lisboa - é a 13 e 14 de maio. O palco da Altice Arena, um dos mais disputados pelos artistas e bandas que aqui vão chegando, prova a sua "maleabilidade": a 31 de janeiro, recebe Steve Wilson; a 23 de março, entrega-se ao irresistível balanço dos irlandeses The Script, aos quais só faltava mesmo a cadência reggae, que também afloram no mais recente álbum; a 1 de julho, acolhe outro grande conquistador de públicos, capaz de alternar o rock e a soul com uma mestria carregada de hinos: Lenny Kravitz. Os "apocalípticos" não desdenharão a visita - a 27 de junho e ao Campo Pequeno - de Marilyn Manson, o homem que sempre gostou de exceder os limites nas suas subidas ao palco.

Festivais em espera

A avalancha dos chamados festivais de verão mantém-se, como já fomos vendo, indiferente a qualquer hipótese de ressaca de consumo. Por esta altura, já todos têm datas e locais - começando no Primavera Sound, de 7 a 9 de junho, no Parque da Cidade, no Porto, e "fechando" em Vilar de Mouros, marcado para os dias 23,24 e 25 de agosto. Há, no mínimo, mais oito, de média ou grande dimensão, mas os respetivos elencos ainda não estão definidos ou, pelo menos, ainda não foram anunciados. O que se encontra mais adiantado é o NOS Alive (Passeio Marítimo de Algés, de 12 a 14 de julho), que já confirmou quatro pontas-de-lança: Queens of the Stone Age, The National, Franz Ferdinand e, talvez acima de todos, Pearl Jam. Num plano mais segmentado, destaque para os Friendly Fires, para os Two Door Cinema Club e para a brasileira Mallu Magalhães.

No Primavera Sound, o nome já divulgado diz respeito a um cantor espanhol: nada mais nada menos do que Enrique Iglesias, que fica à espera de parceiros. De resto, a Espanha terá um grupo em destaque, algumas semanas antes, na programação do Hard Club, do Porto: a 25 de maio, ali estarão os Vetusta Morla, já repetentes no nosso país. Voltando aos festivais, o Rock in Rio (23, 24, 29 e 30 de junho) já deu conta das contratações dos Muse, dos Killers, de Bruno Mars e de Demi Lovato. No SBSR (19-21 de julho), uma só garantia já chega para aguçar o apetite, por se tratar de uma nova incursão dos The xx pelos palcos portugueses. Por fim, mais a norte, o Marés Vivas (20-22 de julho) recebe Jamiroquai, Goo Goo Dolls e os irlandeses Kodaline.

O metal sonante e as "minorias"

Julho promete ser um mês de muitas alegrias para os adeptos da brigada metálica, com uma primeira quinzena verdadeiramente alucinante, a desdobrar em quatro escalas. Antes disso, o "aperitivo" será servido a 1 de fevereiro, na Altice Arena, quando entrar em ação todo o poder bélico dos Metallica. Com a chegada do estio, o cartaz adensa-se: dia 2 (na mesma sala), juntam-se o eterno Ozzy Osbourne e os remoçados Judas Priest. Para fecho deste "ciclo", o local "do crime" volta a repetir-se, no dia 13, quando tocar a vez aos Iron Maiden. Pelo meio, tudo se vira para o Estádio Municipal de Oeiras: no dia 10, o destaque reparte-se pelos Kiss e pelos Megadeth; no dia 11, lugar aos Scorpions.

No campo "alternativo", menos pela forma do que pela origem, há uma festa garantida, quando, a 6 de abril, o palco do Teatro Tivoli ficar nas mãos (e nas vozes) dançantes dos Tubarões, de Cabo Verde. O "quadrado" de nomes brasileiros vai obrigar os fãs a deslocarem-se às salas dos casinos - ao de Espinho, para verem Ana Carolina, a 2 de março; ao do Estoril, a 6 de julho, para aplaudirem Daniela Mercury. Outra via será aquela que abrirá caminho até aos espetáculos de Adriana Calcanhotto: a 10 de abril, no Centro Cultural de Belém, e a 24 de abril, no Coliseu do Porto. Pelo meio, a 17 de abril, o Tivoli vai ajudar a festejar os 50 anos de carreira de Toquinho, nome grande do Brasil, da bossa--nova e um dos grandes parceiros de Vinicius de Moraes.

De França, além da visita da "primeira-dama" Carla Bruni - a 25 de janeiro em Lisboa, a 27 no Porto -, merece registo a passagem de Yann Tiersen, popularizado a partir da banda sonora do filme O Fabuloso Destino de Amélie, pelo Coliseu do Porto, na noite de 13 de março. Não nos esqueçamos do jazz, já com reservas feitas para Jason Moran (4 de maio, CCB) e para a divina Stacey Kent (30 de maio no CCB, 31 de maio no Coliseu do Porto).

Portugueses sem parança

A produção nacional também não dá "folga" aos interessados: Ana Bacalhau vai mostrar ao vivo o seu projeto solista, no Tivoli (26 de janeiro) e na Casa da Música (31 de janeiro). Mazgani chega ao CCB a 3 de fevereiro; Paulo Gonzo apresenta um "concerto íntimo", no Olga Cadaval, em Sintra, a 17 de fevereiro; Camané faz "reviver" Alfredo Marceneiro, a 14 de abril, no Casino Estoril; Cristina Branco marca encontro no Tivoli, a 15 de maio.

Mariza tem reservada a data de 30 de maio, para se apresentar no Coliseu do Porto. Antes disso, será a vez de os The Gift nos mostrarem, de novo, tudo aquilo que era passível de descoberta em Altar, um dos melhores e talvez menos aproveitados discos de 2017. Datas e salas: 2 de março, no Coliseu do Porto; 3 de março, no Coliseu dos Recreios. Os HMB festejam uma década de carreira com uma noite no Campo Pequeno, a 24 de fevereiro. Já João Pedro Pais, por seu lado, assinala os 20 anos do seu percurso - na Casa da Música, a 3 de março. A nota máxima da polivalência vai para Rodrigo Leão, que promete quatro concertos diferentes para 2018. Por ordem de entrada em cena: a 22 de março, no CCB, ao lado de Scott Matthew, para abordar o disco Life Is Long: a 27 de abril, no Tivoli, o projeto instrumental Hauschka; a 15 de junho, no Casino Estoril, o espetáculo Os Portugueses; por fim, a 9 (Coliseu de Lisboa) e a 10 (Coliseu do Porto) de novembro, há outra festa, a dos 25 anos de carreira. Variedade não falta, como se vê - assim haja bolsa para alimentar a diversidade.

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