"Há leitores de teatro, o que não existe são editores de teatro"

Entre as decisões do diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, está a de aumentar a atividade editorial da instituição.

A coleção de Biografias do Teatro Português do Teatro Nacional D. Maria II lançou recentemente um novo volume, sobre Alfredo Cortez, da autoria de Sebastiana Fadda, mas a saída do terceiro estudo já está marcada para o outono e trata-se de um dos nomes mais revolucionários do nosso teatro: António Pedro.

Quem o anuncia é Tiago Rodrigues, o diretor artístico do D. Maria II, que considera ser uma figura sobre a qual há muita curiosidade e pouca investigação: "É de uma grande dimensão e protagonista de uma enorme rutura no teatro português." Acrescenta que a ausência de trabalhos sobre António Pedro tem gerado "dificuldade em o estudar, principalmente nas gerações mais novas, até porque se existe um conhecimento profundo do teatro europeu negligencia-se em muito a história do teatro português, como se fosse de segunda linha devido a não ter influenciado as grandes correntes europeias mas apenas sido beneficiário."

Falando de figuras do teatro português, o quarto volume desta coleção que terá pelo menos dez volumes será sobre Emília das Neves: "Alguém que rompeu com todos os estereótipos do lugar da mulher enquanto atriz no nosso teatro". Uma série a preços muito baratos, a 10 euros, ou seja, diz, "a preços de serviço público", porque se enquadra no projeto editorial em curso do D. Maria II, que é financiado pelo próprio teatro porque "editar livros é como montar espetáculos".

Entre as razões apresentadas por Tiago Rodrigues para dinamizar esta iniciativa editorial está a preservação da memória. Situação que se repete nas restantes coleções - Textos de Teatro e Estudos - que o D. Maria também edita e que favorecem o aumento da produção teatral, como explica: "A publicação de textos de teatro legitima e oferece perenidade ao trabalho de um autor, permitindo que seja lido e montado mais tarde porque aquilo que foi visto e existiu no teatro é muito efémero. Quando acaba o espetáculo, arriscamo-nos a que no futuro se possa pensar que não existiu, sendo a edição em livro um garante de posteridade que nem o vídeo ou a fotografia oferecem." Tem uma outra vantagem, refere, a de que "o espetáculo poderá ser continuado, pois muitos grupos recorrem à coleção do Teatro Nacional para a montagem de peças. Os livros alargam o que é o impacto do trabalho que fazemos aqui".

A ausência de um trabalho consequente na edição faz lembrar a acusação de Almeida Garrett sobre a fragilidade do teatro nacional, posição de que Tiago Rodrigues não partilha por inteiro: "Existem grandes desafios, mesmo que vivamos um tempo de grande vitalidade na escrita de teatro em Portugal." O desafio, conclui, é o da regularidade: "A maioria dos autores não escreve na solidão do escritório e nota-se a ausência daquilo a que se pode chamar uma escrita de cena. Que tem em paralelo a regularidade, porque conseguir que no contexto muito precário do teatro português os autores escrevam regularmente é algo muito difícil."

Segundo o diretor artístico, é difícil ao autor sentar-se a conceber uma peça sem se preocupar com a execução: "É da natureza do teatro existir uma escrita que tem uma relação com o coletivo e com a construção do espetáculo. Há autores que escreveram de outra maneira, como Ibsen que escrevia na sua solidão, entregava o texto pronto e "agora montem-no que eu irei vê-lo no dia da estreia". Mesmo Ibsen sabe que ao acabar a peça ela não está completa, falta escrever o sentido que pertence aos encenadores, atores e ao coletivo que a faz."

Quanto a leitores para os livros editados pelo D. Maria II ou em parceria com O Teatro Nacional de São João, a Imprensa Nacional e a editora Bicho do Mato? Tiago Rodrigues não foge à questão: "Há leitores de teatro, o que não existe são editores de teatro. O nosso panorama editorial passa por esforços heroicos, como o da editora Cotovia, a Relógio D"Água e poucas mais, só que é uma edição muito residual - até comparativamente com a poesia. É um nicho, mas não estaremos preparados para defender uma presença mais forte do teatro nas livrarias e nas escolas se não cumprirmos esta parte da nossa missão. Até porque o D. Maria II cumpriu há dias 171 anos de vida."


Alfredo Cortez

Sebastiana Fadda

Ed. TNDM II, TNSJ

e IN-CM

155 páginas

PVP: 10 euros



Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro

Joana d"Eça Leal

Ed. TNDM II, TNSJ

e IN-CM

143 páginas

PVP: 10 euros

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