Grammys: política dominou cerimónia

Kendrick Lamar venceu cinco categorias. Mas foi a sua atuação que ficou para a história desta 58.ª edição dos Grammys

To Pimp A Butterfly, de Kendrick Lamar, foi um dos álbuns mais aclamados de 2015, no qual sintetizou a intensa discriminação racial que ainda se vive nos Estados Unidos, numa altura particularmente crucial pelos muitos casos de abusos policiais que ganharam dimensão pública.

Foi com este álbum que o rapper norte-americano, que este verão volta a Portugal para um concerto no festival Super Bock Super Rock, conseguiu 11 nomeações na edição deste ano dos prémios Grammy (um feito que, por pouco, não o igualou a Michael Jackson, que chegou a estar nomeado em 12 categorias num só ano). Na segunda-feira à noite Kendrick Lamar saiu do Staples Center, em Los Angeles, com cinco prémios. Não recebeu aquele que mais ambicionava, o de Álbum do Ano, mas a sua atuação ficará, certamente, na história destes prémios pelo seu caráter político.

"You hate my people, your plan is to terminate my culture" ("Vocês odeiam o meu povo, o vosso plano é acabar com a minha cultura", tradução livre em português). Versos do single The Blacker the Berry, que Lamar cantou na cerimónia, acorrentado, enquanto alguns membros da sua banda surgiam por trás de grades.

A história da escravatura dos EUA transformada em espetáculo pop de intervenção. A esse tema o rapper juntou ainda Alright, com o palco já em forma de grande fogueira, e um inédito, com o qual terminou este medley, e no final podia-se ler a palavra "Compton" (bairro de Los Angeles, de onde é natural) inscrita sob o mapa de África.

É inegável que Kendrick Lamar quis, em palco, vincar ainda mais o cunho político que já tinha sido traçado no seu álbum e numa altura em que muito se discute a falta de representação de negros numa cerimónia como os Óscares, uma atuação como esta acaba por ter um peso social ainda maior.

Apesar de não ter ganho o prémio de Álbum do Ano, o rapper conquistou uma mão cheia de troféus: Melhor Performance Rap e Melhor Canção Rap (ambas por Alright), Melhor Colaboração Rap (por These Walls), Melhor Álbum Rap e Melhor Vídeo Musical (este pela sua colaboração em Bad Blood, de Taylor Swift).

Swift, que venceu na categoria de Álbum do Ano, também fez dos Grammys um palco de intervenção social, por ter sido a primeira mulher a vencer duas vezes nesta categoria.

A diversidade racial

Ao contrário dos Óscares, nos Grammys celebrou-se a diversidade racial e cultural. A mais importante categoria destes prémios, a de Gravação do Ano, foi entregue a Bruno Mars e Mark Ronson pelo sucesso Uptown Funk, tendo ainda recebido o prémio de Melhor Performance Pop por um Duo/Grupo. Os Alabama Shakes triunfaram nas categorias de rock, com os prémios de Melhor Performance Rock e Melhor Canção Rock (ambas graças a Don"t Wanna Fight) e Melhor Álbum de Música Alternativa (com Sound & Color). The Weeknd e D"Angelo receberam, cada um, dois prémios.

LL Cool J, o apresentador da gala, frisou, precisamente, essa diversidade no seu monólogo: "Com tudo o que hoje nos divide, o nosso amor pela música une-nos". Não foi por isso de admirar que a homenagem a Lionel Richie tenha contado com um grupo diverso de artistas, composto por John Legend, Demi Lovato, Luke Bryan, Meghan Traynor (distinguida como Artista Revelação), Tyrese Gibson e o próprio Richie.

As várias homenagens

Não foi só Lionel Richie que foi homenageado na cerimónia dos mais importantes prémios da indústria discográfica norte-americana. Seria inevitável prestar também tributo a David Bowie, que morreu no passado dia 10 de janeiro, poucos dias depois de lançar o seu último álbum, Blackstar. Lady Gaga, acompanhada por Nile Rodgers (que produziu Let"s Dance, de Bowie), interpretou um medley que passou por canções incontornáveis como Space Oddity, Changes, Ziggy Stardust, Suffragette City, Rebel Rebel, Fashion, Fame, Let"s Dance e Heroes.

Glenn Frey, guitarrista dos Eagles, que morreu a 18 de janeiro, não foi esquecido por dois dos seus antigos colegas de banda, Bernie Leadon e Jackson Browne, enquanto Stevie Wonder se juntou aos Pentatonix para interpretar à capela That"s the Way of the World, numa homenagem a Maurice White, fundador dos Earth, Wind & Fire, que morreu no dia 4 deste mês.

Entre os vencedores da noite, a destacar ainda Justin Bieber, que recebeu o primeiro Grammy da sua carreira (Melhor Gravação de Música de Dança), pela parceria com os produtores Diplo e Skrillex, no single Where Are Ü Now.

No entanto, nem tudo correu pelo melhor na cerimónia. Rihanna e Lauryn Hill, dois nomes que estavam na calha para atuar, cancelaram a sua presença à última da hora (a primeira por razões de saúde, a segunda por falta de preparação), enquanto a britânica Adele sofreu vários problemas técnicos, mas que não causaram um "desastre" maior.

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