Nanni Moretti. Filmar o mundo é ser ator do seu tempo

No filme Querido Diário (1993), Nanni Moretti apresenta-se num registo confessional em que tudo se pode cruzar, desde a paixão pelas ruas desertas de Roma, no período das férias de verão, até à minuciosa descrição da doença cancerígena que, por essa altura, o atingiu. Há um momento emblemático em que recorda Pier Paolo Pasolini (1922-1975), decidindo visitar o local em que o cineasta de O Evangelho Segundo São Mateus (1964) foi assassinado. Na sua "vespa", Moretti desloca-se através de cenários suburbanos cada vez mais tristes, enquanto na banda sonora escutamos uma faixa do Concerto de Colónia (1975), de Keith Jarrett. Ao chegar ao local do crime, depara com um cenário desolador: o pequeno monumento em memória de Pasolini está sujo e degradado, o terreno à volta cheio de ervas, vislumbrando-se em fundo o brilho das águas do mar.

Se é verdade que cada cena concebida por um grande cineasta congrega, de forma explícita ou simbólica, as linhas de força de toda a sua obra, estes breves minutos de Querido Diário são exemplares. Desde logo, claro, pela escolha de uma filiação. Moretti é um herdeiro da nobreza cinematográfica italiana em que, justamente, Pasolini emerge como uma voz nuclear, tanto pela exigência de reflexão política como pela contundência do gosto experimental. Ao mesmo tempo, há em Moretti um desejo de realismo tecido através de uma fascinante dialética: trata-se de registar as convulsões do mundo à sua volta, sem nunca abdicar da afirmação de um "eu" que, de alguma maneira, discute os fundamentos da sua identidade através do gesto de colocar uma câmara em frente a um acontecimento.

Daí a componente documental do seu cinema, confirmada em Abril (1998), sequela de Querido Diário em que Moretti, sempre com sofisticado humor, inicia o filho recém-nascido no complexo labirinto mediático da sociedade italiana. Daí também a sua deambulação por temas como a decomposição ideológica da esquerda italiana, em La Cosa (1990), sobre as atribulações identitárias do Partido Comunista Italiano, ou ainda, em Diário de Um Espectador, a sua contribuição para o filme coletivo Cada Um o Seu Cinema (2007), lamentando o encerramento de muitas salas de cinema que fazem parte do seu imaginário juvenil e cinéfilo.

O permanente cruzamento da experiência individual com as dinâmicas coletivas envolve a presença regular do realizador como ator do seu próprio cinema. Assim, ao longo de alguns filmes, Moretti assumiu o alter ego de Michele Apicella, personagem cuja evolução está registada em histórias que constituem também uma crónica sarcástica das transformações da sociedade italiana ao longo dos anos 70/80 - de Io Sono Un Autarchico (1976), sobre um grupo de atores em angustiada crise criativa, até Palombella Rossa (1989), admirável comédia em que Apicella, jogador de polo aquático, sofre um ligeiro acidente que lhe provoca uma amnésia temporária, esquecendo-se, entre outras coisas, da sua filiação... no Partido Comunista.

O próprio Moretti terá querido evitar qualquer esquematização da sua condição de ator, por vezes trabalhando sob a direção de outros cineastas - neste domínio, Caos Calmo (2008), de Antonello Grimaldi, poderá ser um esclarecedor exemplo. Na sua obra como realizador, emergem os papéis visceralmente dramáticos, por exemplo em dois títulos que lidam com a certeza brutal da irreversibilidade da morte: O Quarto do Filho (2001) e Minha Mãe (2015), o primeiro consagrado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Todas estas formas de personalização da obra de Moretti são tanto mais importantes quanto se demarcam, ponto por ponto, da cultura da "fulanização" que, hoje em dia, comanda a ideologia de muitas formas de exposição mediática, em particular na televisão e na chamada imprensa "cor-de- -rosa". O cinema de Moretti nasce sempre de uma profunda insatisfação, tecida de rebeldia nos seus filmes mais antigos, com o modo como a sociedade representa e mascara os seus desequilíbrios e contradições.

É dele O Caimão (2006), por certo o filme mais implacável que já se fez sobre Silvio Berlusconi e os valores de consumismo e indiferença que as suas políticas injetaram no tecido social italiano. Não por acaso, O Caimão é também uma narrativa em que se cruzam dois temas inerentes à gestão cultural de Berlusconi: a decomposição das estruturas tradicionais de produção cinematográfica, a par da histeria populista do espaço televisivo.

Será preciso acrescentar que nada disto é estranho a um permanente confronto de inocência e pecado, quer dizer, às componentes católicas da história de Itália? Num prodigioso gesto de comédia, Moretti assume mesmo o papel de um psicanalista que, em Habemus Papam - Temos Papa (2011), tem por missão tratar um novo Papa (Michel Piccoli) que vive a sua missão no mais absoluto pânico existencial. Sem cair na vulgaridade anticlerical, Moretti expõe a delicada tensão que se estabelece entre a intensidade de um símbolo e a vulnerabilidade humana. Com o mais desconcertante humor, sugere mesmo aos cardeais angustiados com as hesitações do seu líder algumas inusitadas formas de terapia - jogar voleibol é, por certo, a mais saudável.

Nanni Moretti
- Nasce em 1953, em Brunico
- Estreou-se na longa-metragem com Io Sono Un Autarchico (1976)
- Dirige a sala de cinema Nuovo Sacher, em Roma
- Em Cannes, foi premiado como melhor realizador por Querido Diário (1994), recebendo a Palma de Ouro com O Quarto do Filho (2001); O Caimão (2006) foi melhor filme nos Prémios David Di Donatello (cinema italiano).

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG