Festa do Cinema Italiano combina fantasia e realismo

"O Conto dos Contos", de Matteo Garrone, abre programa. Ettore Scola é um dos homenageados e Oito e Meio de Fellini passa em cópia restaurada

Está a chegar a nona edição da Festa do Cinema Italiano - a partir de quarta-feira, em Lisboa (cinemas São Jorge e UCI-El Corte Inglés, e Cinemateca, até 7 de abril); depois em mais 14 cidades, até meados do mês de julho. Desta vez, o evento prolongar-se-á até ao mês de agosto, chegando a salas de Brasil, Angola e Moçambique.

Mais do que nunca, a iniciativa da associação cultural Il Sorpasso aposta no cruzamento da atualidade da produção italiana, em particular na revelação de novos cineastas, com a revisitação de diversas memórias históricas. Assim, a abertura oficial (São Jorge, dia 30, 21.30) será feita com a antestreia de O Conto dos Contos, de Matteo Garrone, que esteve no ano passado na competição do Festival de Cannes, surgindo no dia seguinte (UCI, dia 31, 21.45) a cópia restaurada do clássico Oito e Meio (1963), de Federico Fellini.

O paralelismo é tanto mais sugestivo quanto Garrone reconhece em Fellini uma das suas referências tutelares. Em Cannes, precisamente, numa conversa em que o DN participou, Garrone lembrou a "influência determinante de Pasolini e Fellini, mas também de Dario Argento e Mario Bava". Em jogo está, afinal, a exploração de "um tipo de fantasia e fantástico que não exclui o realismo". Mais do que isso: "Um gosto hiper-realista."

O Conto dos Contos é uma produção italiana, com a participação de um produtor francês (Jean Labadie) e outro inglês (Jeremy Thomas), apostada em recriar os mundos delirantes do poeta napolitano Giambattista Basile (1566-1632).

Para Garrone, a viagem às fábulas do séc. XVII envolvia também a redescoberta dos poderes primitivos do cinematógrafo: "Quisemos encontrar uma linguagem que nos remetesse para as origens do cinema, até Georges Méliès. Daí que tenhamos procurado cenários naturais que pudessem parecer artificiais; ao mesmo tempo, em estúdio, construímos cenários que, sendo artificiais, tivessem um toque realista." Num certo sentido, o cineasta reencontrava as suas origens criativas: "Fui pintor, antes de realizar filmes. E é um facto que, ainda criança, gostava de desenhar histórias: aos 7 anos, fazia verdadeiros storyboards..."

Salma Hayek e Vincent Cassel

Com um elenco internacional que inclui os nomes de Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones, Alba Rohrwacher e John C. Reilly, com direção fotográfica de Peter Suschitzky (colaborador habitual de David Cronenberg), O Conto dos Contos é falado em inglês. Cedência aos padrões dominantes? Garrone desdramatiza tal opção, sublinhando as nuances de qualquer noção de fidelidade: "Quando lemos agora estes contos, é necessariamente numa tradução, não no dialeto napolitano original; além do mais, considerámos que a língua inglesa podia ajudar a alcançar uma audiência mais alargada, dando a Basile a possibilidade de, finalmente, ser conhecido em qualquer recanto do mundo."

A passagem de O Conto dos Contos antecede a sua estreia comercial, na quinta-feira, dia em que será também reposta a nova cópia de Oito e Meio. Entre as memórias propostas figura ainda outra cópia restaurada, de A Vida É Bela (1997), de Roberto Begnini, e uma evocação da obra do recentemente falecido Ettore Scola (na Cinemateca), incluindo o lendário A Ultrapassagem (1962), de Dino Risi, em cujo argumento Scola colaborou.

A programação inclui uma secção competitiva, com seis títulos de novos autores, a serem avaliados por um júri constituído pelo ator italiano Ronaldo Bonacchi, Tiago Alves (jornalista e crítico, Antena 1) e João Monteiro (codiretor do MOTELx); entre os filmes selecionados, um deles, A Espera, de Piero Messina, já tem distribuição assegurada no mercado português (estreia-se a 14 de abril). Das outras secções, também a serem lançados nas nossas salas, estão programados: Suburra, de Stefano Sollima, Mergulho Profundo, de Luca Guadagnino, Anna, de Giuseppe Gaudino, Quo Vado?, de Gennaro Nunziante, a ser apresentado na sessão de encerramento.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Crónica de Televisão

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.

Premium

Fernanda Câncio

O jornalismo como "insinuação" e "teoria da conspiração"

Insinuam, deixam antever, dizem saber mas, ao cabo e ao resto, não dizem o que sabem. (...) As notícias colam títulos com realidades, nomes com casos, numa quase word salad [salada de palavras], pensamentos desorganizados, pontas soltas, em que muito mais do que dizer se sugere, se dá a entender, no fundo, ao cabo e ao resto, que onde há fumo há fogo, que alguma coisa há, que umas realidades e outras estão todas conexas, que é tudo muito grave, que há muito dinheiro envolvido, que é mais do mesmo, que os políticos são corruptos, que os interesses estão todos conexos numa trama invisível e etc., etc., etc."

Premium

João Taborda da Gama

Aceleras

Uma mudança de casa para uma zona rodeada de radares fez que as multas por excesso de velocidade se fossem acumulando, umas atrás das outras, umas em cima das outras; o carro sempre o mesmo, o condutor, presumivelmente eu, dado à morte das sanções estradais. Diz o código, algures, fiquei a saber, que se pode escolher a carta ou o curso. Ou se entrega a carta, quarenta e cinco dias no meu caso, ou se faz um curso sobre velocidade, dois sábados, das nove às cinco, na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

Premium

Catarina Carvalho

Querem saber como apoiar os media? Perguntem aos leitores

Não há nenhum negócio que possa funcionar sem que quem o consome lhe dê algum valor. Carros que não andam não são vendidos. Sapatos que deixam entrar água podem enganar os primeiros que os compram mas não terão futuro. Então, o que há de diferente com o jornalismo? Vale a pena perguntar, depois de uma semana em que, em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas debateu o financiamento dos media, e, em Espanha, a Associação Internacional dos Editores (Wan-Ifra) debateu o negócio das subscrições eletrónicas.