Fernando Lemos: "Gostaria de ser um bom morto"

As respostas chegaram de São Paulo por email, com a mulher, Beatrix Overmeer, como intermediária. Com elas uma novidade: uma exposição individual de Lemos no MUDE.

Continua a pintar e a escrever todos os dias?

Continuo sim. Pelo menos desenho faço um por dia. Escrevo normalmente conforme o que estou lendo, ouvindo, pensando, usando texto automático surrealista.

Pode falar do último desenho que fez, por exemplo?

O último desenho que fiz foi de ontem para hoje. Pode ter sido o primeiro de alguma série. Nunca fiz somente um desenho por si. Ele continua até ao dia seguinte em séries que não têm prazo de esgotamento. Só me preocupo com o princípio, porque o fim não me preocupa. A revolução sempre continua.

Quando pensa voltar a Portugal? Tem alguma exposição em mente ou pessoas que quer visitar?

Exponho no MUDE numa coletiva [Tanto Mar. Fluxos transatlânticos pelo design, no Palácio dos Condes da Calheta, de 10 de março até julho], produzi o cartaz que já esta em circulação pela cidade, e tenho uma individual em setembro ou novembro sobre o meu Desenho Gráfico, [ambas] com curadoria de Bárbara Coutinho.

Lamenta que em Portugal seja maioritariamente conhecido pelo seu trabalho fotográfico, havendo ainda um desconhecimento em relação à sua pintura e desenho?

Ainda é cedo para lamentar. Sou um poeta para o tudo e para o nada.

Ainda fotografa?

Já não me interesso por imagens que já existem feitas como se fossem fotografias, assim sendo, não vou copiá-las. Mas o celular me descobriu e fui procurado por colegas que vieram-me fotografar com propostas de retratos só por celular. Tenho como mestre o fotógrafo Lorca [n. São Paulo, 1922] e acabo de ganhar de minha mulher um celular a serviço. Quem sabe o que ele vai fazer comigo, talvez ela saiba.

Manteve sempre a regra de só fotografar quem conhece e de quem gosta?

Do que a gente gosta deve ser de retrato de gente, do contrário, o não gostar de alguma coisa não deve prioritário mas sempre criativo.

Ainda olha para os retratos antigos, para aquele grupo "de gente proibida que não vivia na gruta"?

Olharei sempre enquanto eles me lembrarem o nosso tempo, que aí esta registado, de sofrimento político, frustração profissional , limitações psicológicas, e o roubo de alguns anos da nossa juventude.

Disse: "Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, diretor de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, (...) pai de filhos (...)" Há alguma coisa que queira ser e ainda não foi?

Gostaria de ser um bom morto, o que ainda não consegui, mas estou caminhando, numa cadeira de rodas, para este fim.

Aparece como alguém profundamente marcado pelo fascismo. O que é hoje ainda é resultado disso e da fuga a isso?

O fascismo ficou um trauma até hoje, confesso. O medo da perseguição, a consciência que tenho agora ao analisar que foi uma ditadura da colonização, que fez e instalou a corrupção no Brasil ainda é uma nuvem atual.

Tendo atravessado esse período, como vê a situação política presente no Brasil?

A situação se repetiu. Passei duas ditaduras, por sinal com palavras de ordem em língua portuguesa. Uma de sacristia lusa e outra de quartel. Atualmente o Brasil começa a ser uma democracia difícil, sem liderança, corrupta, e sem o necessário combate a corrupção que chegou a ser obrigatória. O Brasil não é um caos, é um acaso, dele esperamos sua criatividade.

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