Eurovisão do sentimento dá lugar à da aceitação das diferenças

Israelista vence concurso em Lisboa, com canção de "aceitação das diferenças. Embaixador fala de "semana muito significativa"

Salvador Sobral trouxe o sentimento para a Eurovisão, em 2017, e, neste ano, Netta Barzilai levou-a de volta ao campo político: "É uma música que celebra as diferenças, de empoderamento para todas as pessoas que se têm debatido consigo próprias, com os seus patrões, com o governo, com alguém que as pisa", voltou a sublinhar, depois da vitória, a intérprete israelita.

Uma mensagem sublinhada também pelo embaixador de Israel em Portugal, Raphael Gamzou. "Naturalmente estou muito contente, orgulhoso da escolha de uma jovem mulher como Netta, que não é um cliché de uma beleza jovem, mas mais a ideia de personalidade, o valor do talento e a mensagem da canção de que todos têm a sua identidade e que todos se devem sentir confortáveis com a sua identidade. Que a nossa alma é mais importante do que a nossa aparência exterior", elogia.

Ainda sem confirmação oficial da cidade que vai acolher a Eurovisão no próximo ano, todos acreditam que será Jerusalém, tal como aconteceu em 1979 e 1999, as duas vezes anteriores que Israel acolheu o concurso. Logo na noite da vitória, a própria disse em palco: "Amo o meu país, no próximo ano é em Jerusalém." A referência à capital foi também feita pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nas felicitações que enviou a Netta Barzilai através do Twitter. E o mesmo acrescenta o embaixador Raphael Gamzou: "Será seguramente em Jerusalém, de certeza."

Mas antes disso é tempo de celebrar e será isso certamente que vai acontecer hoje, quando Netta aterrar em Telavive. A cantora e o seu staff viajaram ontem para Israel e chegam nesta manhã, confirmou ao DN a sua equipa. Curiosamente no dia em que o país celebra o 70.º aniversário da sua fundação - uma vitória que o diplomata considera ser "uma bonita prenda para Israel".

Algo que a cantora de 25 anos já tinha referido em entrevista ao DN, antes das semifinais, que seria um grande presente. "Seria fantástico para Israel ganhar no ano do seu 70.º aniversário e ter a Eurovisão na sua casa, para que todos os turistas possam ver o quão espetacular Israel é. Sei que não temos uma grande reputação, mas Israel é espetacular, tem vibes espetaculares e convido as pessoas a verem, quer a Eurovisão seja lá ou não", disse ao DN a 3 de maio.

A chegada a Israel da vencedora da Eurovisão acontece num momento em que os EUA inauguram a sua embaixada em Jerusalém (ver mais noticiário na página 24). No que o embaixador de Israel em Lisboa classifica como "uma semana muito significativa" para o país. Antecipando que hoje haverá "uma grande celebração para Netta e com Netta na Praça Rabin, em Telavive".

Festa para a comunidade LGBT

Sobre receber a Eurovisão, o diplomata lembra que esta não é primeira vez que o país recebe o concurso - a primeira foi em 1979 e a segunda em 1999 e a próxima será em 2019 (todas com 20 anos de diferença) - e que tudo estará a postos. "Será uma grande celebração, uma grande festa para a comunidade LGBT e será uma outra oportunidade para a comunidade LGBT receber e celebrar com gays de toda a Europa, e nós damos as boas-vindas a todos na Gay Parade, do próximo mês [e onde Netta estará] e na Eurovisão do próximo ano."

Raphael Gamzou elogiou ainda a organização portuguesa: "Quero cumprimentar Portugal pelo bom trabalho na organização de uma grande Eurovisão, tanto a RTP, como a Câmara Municipal de Lisboa e a RTP, todos fizeram um excelente trabalho."

A cantora natural de Hod HaSharon, no distrito central de Israel, venceu a competição com 93 pontos de avanço em relação ao segundo lugar, conquistado por Eleni Foureira, representante de Chipre. Quando chegou a Lisboa no final de abril, Netta era a grande favorita à vitória, mas ao longo das duas semanas de ensaios, semifinais e final foi perdendo terreno e acabou ultrapassada pela intérprete de Fuego.

Pelo caminho, a sua música que foi escrita como apoio ao movimento #MeToo, foi ainda criticada pelo anterior vencedor da Eurovisão, o português Salvador Sobral, que no sábado entregou o troféu da vitória a Netta. Após a vitória, a israelita elogiou Eleni Foureira pela sua prestação e enviou "amor" a Salvador Sobral. "Senti que ele me respeita. Deu-me o microfone e apenas lhe desejo amor."

Um troféu que se partiu ainda a cantora estava em palco. O que obrigou Jon Ola Sand, o presidente da EBU (União Europeia de Radiotelevisão, a responsável pela organização da Eurovisão), a entregar um novo microfone a Netta durante a conferência de imprensa.

Visivelmente emocionada, Netta Barzilai não fugiu às questões sobre as críticas que foram feitas pelo cantor de Amar pelos Dois. "Música é música, sempre disse isso. É estranho comparar géneros de música, mas para a maioria me escolher é inovador. Sempre disse que estava em competição comigo mesma, nervosa com a minha prestação, chegar ao maior número de pessoas", frisou, na conferência de imprensa.

Mais uma vez, a jovem de 25 anos sublinhou que a sua música é um sinal de força para todos os que são diferentes. Tal como ela faz: "Sou eu própria, celebro-me, independentemente do meu tamanho, como está o meu cabelo ou a minha voz." E acredita que alguém aparecer na televisão a dizer e a fazer isso mesmo ajuda a que jovens como ela, que são vítimas de bullying, tenham coragem. "Acho que o meu "eu" mais jovem seria menos infeliz se tivesse um exemplo como o meu no horário nobre da televisão. É por isso que estou a fazer isto nesta plataforma. E estou feliz por o ter feito."

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