"Este é um festival que pede a participação das pessoas"

O Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST) continua a trazer grandes artistas e estrelas a Portugal, mas é o contacto informal com o público que caracteriza o Festival. Paulo Branco conversou com o DN.

A homenagem que esta 11ª edição do LEFFEST faz a Isabelle Huppert era algo já pensado para edições anteriores, ou teve a ver com este ano efervescente da carreira dela?

Se há uma atriz que representa tudo o que é relevante e que atravessou praticamente todo o cinema europeu, ao mesmo tempo conquistando também o cinema independente americano, essa atriz é Isabelle Huppert. Desde as escolhas dos cineastas com quem trabalhou, ao risco permanente que sempre assumiu em trabalhar com realizadores, por vezes jovens, que ainda não são conhecidos... ela é, para mim, um símbolo único. Era evidente que, numa altura ou noutra, teríamos que fazer esta homenagem. Aproveitei também a possibilidade de trazer uma grande exposição de fotografias dela que está no MoMA, em Nova Iorque - de facto, este era o último ano em que isso seria possível - e sobretudo, é fantástico que ela esteja disponível um fim de semana [o primeiro do Festival] para vir cá... e mesmo assim, é no meio de uma rodagem que ela cá vem!

Dos filmes que vão constar nesta homenagem, que peso tem a colaboração dela com Claude Chabrol?

Ela tem uma relação muito particular com o cinema do Chabrol, assim como teve com o próprio Chabrol. Havia entre eles uma confiança única, acho que a Huppert aceitava qualquer proposta que o Chabrol lhe fizesse. Ele conseguiu filmá-la tanto em papéis de época como em papéis modernos, experimentando registos que mostrassem as suas capacidades de atriz. Era muito importante privilegiar essa relação aqui.

Um filme dessas colaborações que vai poder ser visto é...

A Cerimónia [1995].

Outro dos nomes em destaque nesta edição é Alain Tanner [em retrospetiva], com quem colaborou diversas vezes. É um cineasta muitas vezes esquecido. Qual a importância de o redescobrir?

O Alain Tanner é dos cineastas que mais se conseguiu aproximar da essência da minha geração, com aquelas personagens que saem sempre das trajetórias da vida. Ele filmou com muito carinho a excecionalidade que essas personagens banais trazem dentro delas.

Basta lembrar a personagem de Bruno Ganz em A Cidade Branca (1983), rodado em Lisboa...

Exatamente, um homem perdido na cidade. É isso que sempre me fascinou no cinema do Tanner... Eu conheci-o em 1977, e mantenho uma grande proximidade com ele até hoje.

Dos nomes que nesta edição correm o risco de passar despercebidos, quem destaca?

Desde logo, o José Vieira, um cineasta que gostaria imenso que descobrissem. Há também um grande artista que passa despercebido para as novas gerações, o Julian Schnabel, uma figura muito especial e vem cá. Outro será o pianista Alain Planès.

Disse há pouco que este não é um festival de passadeira vermelha.

Este é um festival que pede a participação das pessoas. Nós queremos que as pessoas venham de maneira completamente informal. Estes grandes artistas gostam de ter essa relação com os espectadores que muitas vezes lhes é vedada. E tenho tido muitas provas disso, pelo modo com eles ficam sensibilizados com esta forma de estar com as pessoas, o contacto direto, a partilha... Isto escapa a tudo o que eles estão habituados. Inclusivamente, daqui nasceram amizades entre artistas de diferentes áreas. É isto que se quer.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...