Estar inteiro no palco, no meio do caos, no mundo

O coreógrafo Faustin Linyekula alunos finalistas da ESTC construíram um espectáculo como quem toma uma posição.

"No início eles eram dez" diz-se, para começo de tudo em We went there and all we found was chaos - assim mesmo, fomos lá e tudo o que encontramos foi caos, em tradução literal de uma viagem que aconteceu num lugar e num tempo específico mas continua sem fim à vista. Está a acontecer de novo, agora que aqueles dez sobem ao palco do Teatro Maria Matos para o primeiro ensaio corrido do espectáculo que construíram ao longo dos últimos meses com os colegas de Design de Cena e Produção da licenciatura de Teatro, alguns dos professores da Escola Superior de Teatro e Cinema, onde todos são finalistas do ramo Atores, e com o coreógrafo e bailarino Faustin Linyekula, Artista na Cidade neste biénio.

Comecemos, então, com o no-me da coisa, explicado pelo criador congolês. "O título de trabalho era Eu Tremo. Parecia-me justo este ponto de partida para trabalhar com jovens atores que, após três anos na segurança de uma instituição de ensino, enfrentam o mundo com um misto de risco e excitação". Este tremor, um movimento tão característico da linguagem coreográfica de Linyekula, percorre o espectáculo a par com questões levantadas por experiências mais ou menos avassaladoras, como quando o grupo da escola da Amadora se desviou do percurso habitual e foi ao Bairro de Santa Filomena, ali ao lado, onde ainda a semana passada foram retomadas as demolições das casas auto construídas, num processo que envolve dezenas de famílias a viverem em habitações degradadas e ilegais, incluindo as que não têm garantias de realojamento.

O título da peça tomou forma depois dessa experiência física, social e política, de indivíduos a serem responsáveis pela sua presença no palco e na vida. "Não vim aqui fazer uma declaração enquanto criador, vim aqui encontrar-me com estas pessoas e perceber onde se posicionam no mundo", resume Faustin.

O futuro do teatro europeu

Estas pessoas, estes artistas de vinte ou vinte e poucos anos, com as mulheres em clara maioria (em toda a equipa do espectáculo há dois homens além do coreógrafo), quase todos com experiência de palco em projetos fora da escola, alguns em televisão, alguns vindos do Brasil, do México ou da República Checa em Erasmus, outros com formação em dança e música a acompanhar a teatral, tinham escolhido Linyekula quando foi preciso escolher o mentor do projeto final de curso, a apresentar em público, a contar para a avaliação. Uma escolha pouco óbvia.

"O ponto de partida é o corpo que ali está, o que pode ser assustador para alunos de teatro, habituados ao trabalho com o texto", diz Andreia Carneiro, da equipa pedagógica. "A palavra é física, um gesto pode ter uma leitura enorme e isso está muito presente no trabalho do Faustin", contraria Tomás Varela, 21 anos, que dele tinha visto Le Cargo, no Alkantara Festival de 2014. "Queria experimentar outra abordagem à construção do espectáculo". E então? "Aqui nós não partimos de nada anterior ao grupo, de um texto preexistente, de um pressuposto, nada. Partimos de conversas e improvisações". Sofia Fialho, 20 anos e uma voz capaz de cantar a capella para um teatro inteiro junta a intuição à análise: "Fiz uma pesquisa e percebi que o Faustin trabalha muito a partir do espaço político e social em que está. E eu queria isso", diz."Eu sentia necessidade de abrir - o espaço, o pensamento, o horizonte, entenda-se - e o Faustin era a oportunidade disso mesmo", continua Maria Manuel Pinheiro, 22 anos e um percurso em que dança e teatro se misturam.

É ela que, mal a peça começa, se atira ao Moloch, litania visionária de Allen Ginsberg sobre o consumismo, impressionantemente fresca 60 anos depois de ser ouvida pela primeira vez no longo poema Uivo, um monólogo que a atraía e repelia. "Mas esse era o ponto", completa Tomás, "o Faustin pediu-nos algo - um texto, uma música - algo que fosse importante para nós mas ao mesmo tempo difícil. No caso do texto, difícil de dizer". E depois partilhável. "Tudo o que era trazido para o processo de trabalho tornava-se comum".

O espectáculo cresceu com o que cada um foram trazendo, depurando, contrariando, do cante alentejano a Mário Cesariny, da palavra em português, inglês, castelhano ao gesto coreográfico. Tanto que Cláudia Pereira e Lúcia Seixo, de 28 e 20 anos, responsáveis pela produção, que confessam terem ficado ansiosas durante um processo de criação em constante mudança, acham, agora que o primeiro ensaio corrido chegou ao fim, uma coerência inesperada: "parecia que nunca nada estava acabado e agora o final é surpreendente".

Voltamos a Linyekula: "O desafio foi criar um espaço onde eu pudesse reconhecer-me e dizer algo sobre a arte e o mundo com coisas que não vêm de mim e, ao mesmo tempo, deixar os artistas fazerem as suas próprias declarações artísticas. Fazê-los ir mais longe mas também levar-me mais longe a mim. Expandir a minha aproximação às coisas e ao mundo, numa experiência que é social, cultural e geracional - o que é que faz mexer estes jovens artistas agora? Porque eles são o futuro. O futuro do teatro europeu não é o [encenador italiano] Castellucci, são eles".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG