Esta poderá ser a mais antiga nau portuguesa descoberta

O Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciou ontem ter encontrado Esmeralda , quase 20 anos após a primeira expedição ao largo da ilha Al Hallaniyah

David L. Mearns, responsável pela empresa britânica Blue Water Recoveries, procura em Lisboa um português chamado António Camarão. Estávamos em 1997 e em causa estava Esmeralda, nau da armada de Vasco da Gama a caminho da Índia, que terá naufragado em 1503. Era comandada por Vicente Sodré. Também São Pedro, nau comandada pelo irmão de Vicente, Brás, terá submergido ao fundo do mar na mesma altura.

Mearns queria saber onde estavam as embarcações. Em 1998 desceu com dois mergulhadores ao fundo do mar. Ontem, o Ministério do Património e da Cultura de Omã confirmou a descoberta.

No comunicado a que o DN teve acesso, diz-se que o navio foi encontrado ao largo da ilha Al Hallaniyah. Mas só hoje terá lugar a conferência de imprensa em torno da descoberta que, a verificar-se, "antecede o naufrágio ibérico mais antigo em 30 a 50 anos".

Já Filipe Castro, professor de Arqueologia Subaquática na Universidade do Texas A&M, afirma que, a confirmarem-se as informações ontem veiculadas, Esmeralda "será a nau portuguesa mais antiga descoberta até agora ganhando, por isso, uma enorme importância".

O académico avisa, contudo, que este tipo de descobertas, "quando caem assim de repente na imprensa, nove em cada dez vezes é mais um navio do Colombo". Todavia, afirma que não lhe parece inverosímil que se trate de facto de Esmeralda e dos seus já anunciados 2800 artefactos descobertos.

Entre os mais importantes, está um disco de liga de cobre com o brasão real e uma esfera armilar, emblema pessoal de D. Manuel I, um sino de bronze que data o navio de 1498 , e uma raríssima moeda de prata - um Índio -, que o monarca terá mandado fazer e do qual só existirá mais um exemplar em todo o mundo. Tudo o mais saber-se-á na conferência de hoje em Mascate, cidade que, tomada por Afonso de Albuquerque em 1507, chegou a ser a maior base da armada portuguesa no Médio Oriente.

António Camarão, formado em História e com uma pós-graduação em Arqueologia Subaquática, recordou ao DN os dois anos a estudar o possível paradeiro dos navios: do Livro de Lisuarte de Abreu às obras de Diogo do Couto, do "arquivo histórico ultramarino, fundos reservados da Biblioteca Nacional, Torre do Tombo, arquivos da Índia, nomeadamente Goa, até informações dos otomanos".

E descobriu o sítio do naufrágio. Acompanhado pelos mergulhadores Lyle Craigie Halkett e Alex Double, em 1998, via, no fundo do mar, "balas de pedra na superfície do recife, um prato em prata, ou um prumo, que deve ser o mais antigo encontrado até hoje". Com Camarão fora do projeto a partir de 1999, as novas expedições só aconteceram em 2013 e nos dois anos seguintes.

"Os [irmãos] Sodré", diz, "foram apanhados pela tempestade por teimosia. Os árabes avisaram que vinha mau tempo. Parte da esquadra passou para a costa este da ilha e safou-se. Eles não quiseram, porque era ali que costumavam ir os árabes e os chineses fazer tráfego de mercadorias".

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