"Essas flores vão brotando assim." E Caetano canta com elas

Caetano Veloso apresenta Teresa Cristina e quase se coloca ao canto para não atrapalhar. "Tenho a impressão que em Portugal as pessoas vão ficar apaixonadas."

Há flores que brotam assim. No chão que pisa, Caetano Veloso tem prazer nisso e alimenta a vontade de cantar com elas. Será assim terça e quarta-feira, dias 6 e 7, no Coliseu de Lisboa: Caetano apresenta Teresa. E ela fica sem jeito quando ouve "o monstro" (é assim que Teresa Cristina fala dele) dizer que a voz que tem é mágica, que "torna a alma mais refinada". "Nem quero saber", e solta uma gargalhada contagiante ao telefone, desde o Rio de Janeiro, de onde falam os dois ao DN.

Caetano cantou com Anitta (e Gilberto Gil) na abertura dos Jogos Olímpicos e tem atuado com Maria Gadú ou Ivete Sangalo. Ainda esta semana, como que de propósito, no Facebook, o baiano escreveu "como é lindo o novo clipe" de Antonia Morais, filha da atriz Glória Pires a cantar A Santa Máquina. Ele gosta deste jeito de estar, de atuar ao lado de gerações mais novas. "Sinto prazer quando isso acontece. Eu gosto muito. E felizmente acontece com certa frequência porque no Brasil essas flores vão brotando assim." Flores que vale a pena alimentar? "Não tenha dúvida, não tenha dúvida", repete na sua voz pausada.

Caetano quer dar a conhecer Teresa ao público português e o violão que vem com ela - ele que também só vai trazer violão. Não há como ficar mesmo sem jeito, ri ela, questionada sobre o concerto. "Passa tudo pela cabeça: ansiedade, um pouco de nervosismo, de estar à altura, eu estou cantando com um ídolo, uma pessoa que eu admiro há muito tempo." E explica-se: "A gente aqui no Brasil chama monstro, né?!" E quase se corrige, com um sorriso. "Caetano não é monstro, mas é um monstro muito acessível às pessoas novas, é muito enturmado com o que acontece na música. O Caetano pode cantar com a Ivete, com a Anitta, comigo, com a Marisa, com quem quer que ele cante, é uma pessoa inquieta, um artista inquieto."

Tímida como se diz, Teresa ainda não digeriu bem o que lhe aconteceu. "Fico louca, tento nem acreditar muito nisso, sou uma pessoa muito envergonhada, tímida, mas ao mesmo tempo a gente vai colocando a timidez no lugar dela. Tenho esses momentos de timidez e gosto quando eles aparecem mas não deixo mais a timidez me atrapalhar."

A conversa com Caetano

Para não se atrapalhar mais, Caetano teve uma conversa "muito importante" com a carioca, que desde sempre tem cantado na Lapa, bairro do seu Rio de Janeiro. "Esse show foi um desafio para mim. Tive uma conversa com Caetano muito importante, antes de o show acontecer. Ele me mostrou algumas coisas que eu consegui colocar no palco, não na intensidade que ele falou, mas me abriu uma janela."

O baiano explica como abriu esta janela. "Teresa Cristina vai apresentar Cartola como quem traz o samba na sua mais alta dignidade, que é a voz e o jeito dela. Ela canta de uma maneira muito despretensiosa, vem meramente com a pureza da alma e as canções podem parecer assim homogeneizadas por uma voz discreta, direta, simples, elegante, respeitável, mas é como se ela não avançasse nada já além do que acontece. Eu fiz um esforço para que ela incluísse uma certa ambição de expressividade e tirou um partido maravilhoso disso porque, no espetáculo em que canta Cartola, acompanhada de Carlinhos Sete Cordas, ela apresenta de uma maneira discretíssima - sem perder nem de longe a marca estilística que tem sido a dela, nesses anos todos de Lapa e de gravações de samba - dimensões estéticas no cantar que vem da conversa que ela teve comigo. Eu fico muito orgulhoso e acho que faz do negócio dela algo apaixonante. Tenho a impressão que em Portugal as pessoas vão ficar apaixonadas."

As palavras parecem sair cantadas, como quando há paixão. Teresa concorda com o que diz Caetano. "Aprendi a cantar, cantando na Lapa. Eu ouço muita música, eu gosto muito de ouvir tudo, eu comecei a cantar sozinha, sem técnica. Ele disse que eu precisava de ir além da minha voz, que é um timbre um pouco mais grave. Eu precisava de mostrar a canção de um jeito que pudesse ter algum tipo de assinatura no que eu estivesse fazendo. E ele me fez invocar todo o universo de cantoras que eu admiro muito e que ouço desde criança. Ele falou, "pôxa, pense nas cantoras que você admira e gosta, tenta fazer alguma coisa, aquilo que te emociona, tenta fazer isso mas de um jeito seu". E foi isso que fiz no show do Cartola. Estou cantando com um violão só, do Carlinhos, que é intergalático. Ele tem um jeito de cantar e de tocar muito peculiar, uma pessoa também muito apaixonada pela música brasileira."

Neste concerto, Teresa Cristina e Caetano Veloso apresentam-se só de violão, uma vontade que o cantor da Bahia já tinha há algum tempo. Antes de ir para a estrada com Gilberto Gil, na digressão que os dois amigos cantaram Um Século de Música, Caetano preparava algo assim. "Eu queria fazer um espe-táculo meu só de voz e violão, mais estruturado, mais trabalhado. E algo desse sonho, desse projeto, vem para aqui para este trabalho com a Teresa Cristina. A digressão com Gil era também com voz e violão mas era com Gil..."

Caetano parece quase colocar-se a um canto do palco: "É engraçado porque você quando fala que eu faço com voz e violão e a Cristina também, mas na verdade eu faço minha voz e meu violão e eu cantando, mas a Teresa Cristina canta com o Carlinhos Sete Cordas e o violão dele é uma sinfónica. O meu negócio é mais modesto. Eu não tinha pensado antes que ia apresentar as canções de um modo mais despido. É o acaso dos acontecimentos, o modo como as coisas vão acontecendo, o acaso que traz muitas possibilidades. Agora, o acaso coincidiu com esse plano que eu tinha para fazer." E ri-se.

É da canção: desde que o samba é samba, cantando a gente manda a tristeza embora (ensina-nos Caetano). "O samba às vezes engana muito a gente", justifica Teresa. Com este espetáculo, a cantora lança "uma luz na letra e na melodia do Cartola", reconhecido compositor sambista. "O cavaquinho é praticamente um instrumento de percussão no samba. Você se prende no ritmo e eu já cansei de ver as pessoas dançarem sem saber o que elas estão cantando. A maioria das vezes as letras são muito tristes e as pessoas estão com um sorriso enorme no rosto, cantando, rebolando, paquerando, celebrando um braço para cima, cantando uma música triste."

"Música é uma coisa muito forte"

Como nestes tempos de convulsão social e política no Brasil em que também a música ajuda, completa Caetano: "A música é uma coisa muito forte, é um elemento muito importante, vital, na preservação da sociedade brasileira. Tem sido assim desde sempre, eu acho que não tem como deixar de ser. A música consola, mas também estimula, ela esclarece a mente de quem está ouvindo, ela pode produzir uma intensificação da vontade, da nitidez, pode também dispensar a mente e a alma das questões. A música é nosso elemento revitalizador constante."

Falando antes do processo que destituiu Dilma Rousseff da Presidência brasileira, e referindo-se a "um período tenebroso, difícil", Caetano diz que este é o momento para o país "parar para observar e agir da maneira mais digna possível dentro de uma situação tão complicada".

Só ele não conta parar, aos 74 anos, com um álbum em perspetiva. "Eu tenho na cabeça... Tenho muita vontade de fazer um disco que eu sinta que vale a pena me ter dedicado a essa profissão. Entendeu? Estou plenamente convencido, pelo que tenho conseguido fazer. Fiquei com muitas dívidas na juventude, coisas que eu deixava por fazer, porque fazer canções era uma coisa provisória. Nesta altura, com 74 anos, eu não posso dizer mais que fazer canções é uma coisa provisória, não dá mais. Então tenho que procurar fazer alguma coisa que justifique eu ter ficado fazendo isso, é isso que eu quero fazer."

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