"Escolher o meu retrato foi um acto de coragem"

Tem 48 anos, um quadro na Casa Branca e a partir de dia 9 o retrato oficial de Cavaco Silva no Museu da Presidência. Mas são os ousados nus eróticos a face mais visível da obra de Carlos Barahona Possollo

É o autor do retrato oficial do presidente Cavaco Silva. Como decorreu este processo?
Tanto quanto sei houve dois quadros finalistas e como a decisão não seria simples o Presidente decidiu fazer uma votação com pessoas da família, amigos e colaboradores próximos. Creio que foram cerca de cerca de 40 pessoas. Os quadros foram postos numa sala em que as assinaturas foram ocultadas para que não se soubesse quem é que os tinha feito. E depois as pessoas votavam e passavam a outra sala sem falar com as que iriam entrar a seguir para ser o mais imparcial possível. E eu tive a felicidade de ser o quadro escolhido pelo maior número de votos. E foi esse o apresentado. O Presidente explicou isso mesmo ontem [sexta-feira, na apresentação pública do retrato oficial].

Já tinha estado antes com o Presidente, quando pintou o quadro?
Sim, durante algum tempo trabalhei lá no Palácio de Belém para aproveitar alguns tempos livres que o Presidente tinha para posar.

Propôs-se fazer o retrato oficial ou foi convidado?
Eu fui desafiado para tentar fazer esse trabalho pelo Presidência da República.

Começou então o processo de trabalho com o Presidente?
Exatamente.

Trabalhei lá no Palácio de Belém para aproveitar alguns tempos livres que o Presidente tinha para posar

O Presidente posou para si só no Palácio ou noutros locais, como o seu atelier?
Não, não. Foi só no Palácio de Belém. Deram-me um espaço para eu trabalhar lá e nalgumas oportunidades o Sr. Presidente vinha posar durante algum tempo para eu avançar com a pintura.

Foi um processo que demorou muito? Quando começou?
Eu não tenho a contabilidade exata mas talvez uns dois meses mais ou menos desde a primeira altura até que foi entregue.

Foi quando? No ano passado?
Não, foi há mais tempo. Mas não me recordo da data exata e ontem [sexta-feira] nem olhei para a data que está na assinatura.

Quando começou a fazer este trabalho ainda não sabia se seria o quadro que iria ser escolhido como retrato oficial do Presidente da República Cavaco Silva.
Exatamente.

Quando soube que foi o escolhido, como foi a sua reação?
Fiquei muito contente. Fui avisado com pouca antecedência e fiquei muito contente. É uma grande honra e um privilégio porque o retrato vai ficar numa galeria que tem alguns dos nomes mais ilustres da pintura portuguesa.

Como foi o processo de trabalho com Cavaco Silva? Este trabalho não está na linha do que é seu trabalho mais conhecido, que envolve nus eróticos, ou tem também feito trabalhos com estas características?
Eu faço bastantes [retratos] mas como são trabalhos privados e encomendas particulares raramente são expostos, portanto as pessoas não estão tão a par dessa parte, que é sempre importante. Vêem mais o outro género, [quadros] que têm uma intenção completamente diferente, embora a linguagem plástica seja o realismo. Daí um pintor que costuma pintar pessoas tenha um lado de retratista também mas que não é tão aparente. Só raramente aparecerá uma referência porque não há ocasiões públicas destas assim tão frequentemente.

Eu faço bastantes [retratos

Antes deste desafio para fazer o retrato oficial, já tinha conhecido o presidente Cavaco Silva ou foi o primeiro contacto que tiveram?

Não. O Presidente e a sua família já conheciam o meu trabalho há bastante tempo. Tanto que eu creio que a questão do realismo ou do naturalismo da representação terá sido o fator que desencadeou o desafio. A minha profissão divide-se em inúmeras tendências, em modos de expressão e técnicas e de facto um trabalho mais realista terá sido o motivo de interesse pelo meu trabalho, porque já trabalho neste género há mais de 20 anos.

E só pintou o retrato oficial ou fez por exemplo uma série ou outras representações do Presidente?
Não, não. Foi aquele tal e qual.

O retrato oficial foi pago?
Sim, foi pago pela Presidência.

Quanto custou?
Cheguei agora a Trás-os-Montes e não me lembro exatamente. A Presidência tem esses dados. Eu teria de ir aos meus papéis e isso está tudo em Lisboa. Não quero dizer um valor que não seja o exato.

Tem 48 anos, formou-se em pintura na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, tem feitos vários trabalhos, alguns estão em instituições oficiais...
... em termos oficiais há a parte da filatelia já há bastantes anos. Creio que comecei em 96, já há 20 anos que trabalho com os CTT num género que não tem nada que ver com aquele lado polémico do nus e dos eróticos porque não chama tanto a atenção, são temas obrigatoriamente clássicos e históricos, é outro capítulo. Mais outro capítulo.

Quando soube que foi o escolhido não ficou surpreendido por saber que há essa faceta mais polémica do seu trabalho e ainda assim assinar o retrato oficial do Presidente da República?
Fiquei. Interpreto como um ato de uma certa coragem separar os territórios e ver a coisa de uma maneira muito objetiva. Fiquei surpreendido muito agradavelmente.

Tem trabalhos seus no Museu de Setúbal, no Banco de Portugal, na Casa Branca. O que está na Casa Branca?
Foi um presente que foi oferecido ao Presidente Obama aquando da sua visita cá [em 2010]. Foi-lhe oferecido esse presente e foi aceite. A presidência americana não recebe todos os presentes, fazem uma seleção e esse foi levado por eles para a Casa Branca.

Foi um quadro oferecido pela Presidência portuguesa?
Não, não. Foi uma oferta particular. Era um retrato do presidente George Washington com o motivo da campanha do Obama como cenário de fundo.

O naturalismo é um traço muito claro do seu trabalho.
Sim, sem dúvida. Realismo, naturalismo, é a exatamente a tónica.

E o que gosta mais de fazer: o retrato ou as representações eróticas?
Mesmo naqueles temas mais ousados, eu gosto que as pessoas que figuram mantenham a sua personalidade e então muitas das figuras são também retratos. Claro que esses modelos estão a facilitar-me o papel em histórias que eu lhes peço para encenarem. No caso dos retratos é precisamente o contrário. A minha personalidade deve-se apagar perante o caráter e a personalidade do retratado. São questões completamente diferentes mas a questão do realismo é importante para mim tanto num caso como outro.

Mesmo naqueles temas mais ousados, eu gosto que as pessoas que figuram mantenham a sua personalidade e então muitas das figuras são também retratos

Essa preocupação com o realismo no retrato oficial do Presidente está no resultado final. O presidente numa pose oficial com uma caneta na mão. A ideia da caneta foi sua ou do Presidente?
Acaba por ser o resultado entre ideias do sr. Presidente e das minhas, é uma espécie de um acordo. A Presidência queria alguns elementos iconográficos importantes, como os símbolos nacionais. A caneta é um principio de ação, de que está a dar despacho, trabalho. A Constituição e o volume do Adam Smith [A Riqueza das Nações] são os dois livros que estão descritos e isso foi uma escolha do Presidente.

O que se segue? Vai fazer um retrato ou uma série de D. Pedro V?
Trata-se de uma citação a partir do retrato de D. Pedro V que está no Museu da Ajuda e que é uma cópia do original. Eu vou fazer uma citação, tem um caráter muito pós-modernista, não é um retrato que se pretenda demasiado fiel e tem tudo a ver com o nosso imaginário histórico.

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