Eric Nepomuceno: "Prefiro a morte a perder a memória"

Foi lançada nas Correntes d'Escritas uma coletânea de 16 contos de Eric Nepomuceno, o primeiro livro do escritor brasileiro em Portugal. Um tradutor que já ganhou três Prémio Jabuti por esse trabalho. Apresentou na Póvoa o novo romance de Valério Romão, sobre o qual disse ser impactante" e do melhor a literatura portuguesa.

Traduziu autores muito importantes. Essa sombra não o atemoriza quando escreve o seu próprio trabalho?

Eu não sou tradutor, sou um escritor que traduz amigos ou o que me instiga e inquieta. Recusei vários convites para traduzir autores importantes, alguns que admiro, porque não fazem parte da minha tribo. Traduzo por afeto ou por curiosidade. Tudo na vida influência não só o escritor como qualquer artista e eu traduzi alguns dos maiores contistas o mundo hispânico: Juan Rulfo, Cortázar ou García Marquéz, mas não há uma influência direta. Tiveram sim, uma grande influência direta na na minha vida.

A maioria dos autores brasileiros são pouco conhecidos em Portugal. E o contrário?

Não sei bem qual é a realidade, mesmo que João Ubaldo Ribeiro Rubem Fonseca o tenham sido. Tirando os monstros Saramago e Lobo Antunes, e os clássicos portugueses, acho que são mal conhecidos no Brasil. E muitos da língua portuguesa que o são não têm nacionalidade portuguesa: Mia Couto e Agualusa.

Porquê, sendo a língua a mesma?

O Brasil não tem uma política oficial de difusão da sua cultura no estrangeiro. Este meu livro foi publicado em Portugal sem qualquer apoio do Estado brasileiro. Não sei se em Portugal é diferente, nas se for ignora o Brasil.

Disse em tempos que os brasileiros desconhecem em muito a literatura da América do Sul...

Eu disse isso? Pode ser... É um universo tão rico essa América Latina dividida entre as américas hispânica e lusitana, sendo que a primeira tem uma integração que não existe nem em nós nem com eles. Muitos autores chilenos, argentinos, uruguaios e mexicanos chegam ao Brasil por iniciativa editorial e não por políticas de intercâmbio cultural e são muito mais conhecidos no nosso país do que ao contrário.

Quando houve a democratização no Brasil recusou-se a voltar...

... Fui antes para o México, porque havia um momento político importante nesse país. Queria ver a revolução sandinista, porque sou de uma geração que acreditava em revolução, e tornei-me correspondente de guerra durante quatro anos. Eu fiquei anos sem poder voltar o meu país e quando o meu editor diz "quer voltar, pode", eu respondi: quando queria, não pude; agora que posso, não quero. Quando chegou o momento de tomar a decisão de regressar, decidi voltar e não me arrependi até há dois nos.

Agora não voltaria?

Não. Costumo brincar com os meus amigos ao dizer que se tivesse menos 30 anos e mais cem mil euros ia-me embora por algum tempo para não ver o horror que está a acontecer no Brasil.

É uma situação irreversível?

Vai terminar com toda a certeza, a própria vida acaba, mas eu não vou ver a recuperação do que está a ser destruído estes três últimos anos. Vai levar gerações para refazer, e mesmo que espere viver bastante mas tenho de ser realista.

É um país dividido!

Sim, porque os meios de comunicação social do Brasil, principalmente a televisão, teve uma capacidade formidável de tornar a classe média brasileira uma perfeita idiota. Ninguém se dá conta do que está a acontecer porque tudo é manipulado com interesse em dividir o país. Além de que o Brasil é muito racista e tem um preconceito social muito grande contra os negros e as classes mais pobres.

A literatura pode ter algum papel na mudança dessa realidade?

Não, a função da arte é ajudar a ver e a da literatura é chamar a atenção para o que está acontecer na vida quotidiana do país. Só que é de uma forma lenta, até porque já não acredito em literatura de intervenção.

Nos seus contos só usa a memória.

Eu nunca fiz literatura política, mesmo que toda arte o seja. Nunca me sentei a fazer um conto com uma história que tivesse como objetivo a denúncia.

Nem sente vontade?

Há contos neste livro que são denúncias mas não foram escritos com essa intenção. Aliás, nunca nunca tenho uma intenção quando escrevo, nada é preconcebido. Uma imagem ou uma memória desperta-me algum gatilho da memória e vem a história toda construída.

Diz num conto que não sonha. São autobiográficos?

Sim, mas qualquer psicólogo dirá que sonho várias vezes por noite, só que não me lembro. Ou seja, não sonhei.

Até que ponto a memória é fundamental para a sua escrita?

Sou um autor de muito pouca imaginação e sou um homem de muitíssima memória. É a minha matéria-prima e a minha angústia. Prefiro a morte a perder a memória.

Se lhe pedisse para dar um nome de um escritor brasileiro que pudesse ser candidato ao Nobel qual seria?

O Prémio Nobel tem como regra o escritor estar vivo, havia vários e morreram todos. Hoje diria que Raduan Nassar, uma espécie de Juan Rulfo brasileiro que só escreveu três livros o mereceria, tal como Rubem Fonseca. Como já que deram o Nobel ao Bob Dylan, acho que o Chico Buarque merece e até é melhor. O meu candidato seria mesmo Dalton Trevisan.

No caso do Chico seria uma escolha atualmente polémica.

Não, Chico é ótimo no que faz, é idolatrado, as mulheres gostam dele e é íntegro. Tem tudo para ser odiado pelos inúteis da classe média.

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