Época de saldos volta com a 87ª Feira do Livro de Lisboa

Editores preocupados com o festival de comes e bebes em vez de cultura. É o regresso da maior Feira do Livro de sempre na capital.

A palavra "saldos" é das que mais ficam no ouvido quando se questionam os editores sobre o que vai ser a Feira do Livro de Lisboa, que abre já na quinta-feira. "Saldos" porque é para isso que as grandes editoras aproveitam a presença na festa do livro segundo os responsáveis da Abysmo e da Teodolito. João Paulo Cotrim considera que o modelo atual é propício "ao abaixamento abrupto dos preços dos livros de forma disparatada e até ilegal, transformando a iniciativa numa feira de saldos". Carlos Veiga Ferreira concorda: "Como as livrarias estão a vender menos, os grandes grupos aproveitam para fazer enormes saldos e equilibrar as contas."

Se neste ponto concordam, também não discordam que nos últimos tempos a Feira perdeu o caráter de apresentação de novidades que já teve. Para Cotrim, o aparecimento de "tantos pavilhões para comes e bebes, em número cada vez mais próximo dos para livros, diminui o caráter de festival cultural". Para Veiga Ferreira, "antes, faziam-se grandes lançamentos que marcavam a vida dos livros, hoje é mais um escoadouro para os fundos em armazém dos grandes grupos". O primeiro ainda acrescenta que a Feira era uma "gigantesca livraria onde as editoras podiam mostrar o que faziam", enquanto o segundo alerta para os desvios da edição, preocupada em apresentar o carimbo de best-sellers internacional, livros que "são mais caros e quando não funcionam perde-se mais dinheiro".

Os números impressionantes da edição nacional - mais de 14 mil títulos anuais - preocupam a maioria dos editores. Para Francisco Vale, editor da Relógio D"Água, é uma questão de difícil resposta: "Se se edita a um certo ritmo é porque os leitores existem". Não deixa de referir que "pessoalmente, penso que se editam livros que não fazem falta mas isso cabe ao leitor decidir, até porque em termos europeus corresponde ao que se faz".

Já António Lobato Faria, do Clube do Autor, pensa de outra forma. Diz que se deve à sua formação financeira: "É uma falsa questão porque não podemos controlar a configuração sócio-económica do país. Mas está a editar-se menos do que há cinco anos. Existem muitas editoras num equilíbrio financeiro precário, mas o registo revela revela mais de mil editoras enquanto só umas 40 é que tem atividade normal. A maioria dos editores sempre trabalhou desta forma e não há esperança que o mercado se ajuste."

Quando se questiona Pedro Sobral, do Grupo Leya, este diz que o "mercado não tem um comportamento e cada livro é um livro e cada autor um autor". Sobre se aumentou o número de leitores, a resposta de Sobral começa por ser a de que não se conhecem estatísticas oficiais que expliquem o perfil de quem lê: "Achamos que o número de compradores de livros está estável nos últimos anos." Especifica: "Quanto a leitores regulares, o seu total é desconhecido. Um ou outro livro rompe mas quem o faz destacar-se é parte do universo dos não leitores, aqueles que seguem uma moda e uma tendência por prescrição massiva."

A única coisa em que todos concordam é que a Feira do Livro continua a ser o melhor ponto de encontro entre o escritor e o leitor. Pedro Sobral aponta o evento como a "oportunidade para ter os autores em contacto com os leitores e não como uma operação financeira". Para Lobato Faria, a "Feira continua ser uma grande montra e muitas famílias vão para lá passear. É uma promoção da leitura que dá oportunidades a livros que desapareceram na voragem das novidades". Vale diz que "o leitor é surpreendido por livros que nem anda à procura". Cotrim garante que "este é o momento em que as editoras podem mostrar ao leitor o que fazem". Veiga Ferreira espera que "esta coisa da geringonça mantenha a expectativa de fim de crise nos leitores e ajude a vender mais".

Entrevista a Rui Couceiro, editor da Contraponto

"O insucesso de um livro é quase uma certeza"

Editor da Contraponto, Rui Couceiro critica a edição em demasia que se vive no nosso país, designadamente quando uma mesma editora publica duas ou três dezenas de títulos por mês.

Está a editar-se demasiado?

A eventual publicação de muitos livros poderia ser um sinal de pluralismo e, por outro lado, de dinamismo do setor. Mas confesso que me impressiona a capacidade de muitas editoras publicarem dezenas de títulos por mês. Fico com a impressão de que funcionam como lojas de pronto-a-vestir e duvido que seja positivo. Procuramos que a Contraponto seja um serviço de alfaiataria.

Os livros publicados, mesmo que às centenas, não deveriam ter vida mais longa nas livrarias?

É evidente que todo o editor gostaria de ver os seus livros durante muito tempo nas livrarias, mas eu não sou de lamentos. Se o contexto é de dificuldades, a única coisa que me ocorre fazer é trabalhar bem para resistir melhor a essas dificuldades e dar aos autores o melhor que consigo. Por isso propomos-lhes projetos, dividimos com eles as dores de crescimento, acompanhamo-los em tudo o que podemos. É a lógica da editora.

Se os livros não forem bem trabalhados a nível de edição ficam condenados ao fracasso?

Num mercado pequeno como o nosso, o insucesso de um livro é quase uma certeza. Por isso encaro cada projeto como uma operação de resgate, como se tivesse de evitar uma catástrofe. Mesmo quando o êxito já é praticamente certo. Só se estiver a correr na direção oposta é que tenho a certeza de nunca cair no precipício. E eu não suporto a ideia de falhar.

As editoras oferecem o que os leitores merecem?

Nós publicamos apenas livros em cuja qualidade acreditamos e com um profundo respeito, e até devoção pelo objeto livro.

Há algum segredo para se escrever um bom livro?

Não creio que haja segredos, mas há uma coisa fundamental para um aspirante a escritor que é bastante lógica: ler muito. Ninguém consegue ser um génio em área nenhuma sem beneficiar do conhecimento adquirido pelos outros. Na ciência é assim. Ninguém grita Eureka! à chegada à escola. O progresso científico advém da acumulação de conhecimento. Na escrita, as coisas não funcionam de modo diferente. É preciso ler muito para se conhecer o que já se inventou e trabalhar muito, falhar muito, ou falhar melhor, como diria Beckett em Worstward Ho. Falhar cada vez melhor.

Quando aceita um livro para editar segue a receita habitual?

A lógica da Contraponto é um pouco a contrária: os projetos partem, na sua maioria, do nosso lado. Desafiamos os autores para fazerem livros pertinentes e de qualidade. Mas não seguimos receitas, porque cada livro é um livro e cada autor tem as suas especificidades. Trabalho para combater o insucesso de cada livro. Num mercado tão pequeno e em contínua retração como o nosso, a probabilidade de um livro vender pouco é muito grande, é quase uma certeza. Mas como editor não posso permitir isso, porque assumi compromissos com a empresa para a qual trabalho e com os autores que me confiaram as respetivas obras no sentido de eu as editar e divulgar. Portanto tenho sempre e só uma hipótese: dar tudo pelo livro, trabalhar cada um como se estivesse a evitar uma tragédia. Porque, à partida, as vendas de cada livro são uma tragédia. Enquanto editor, vejo-me como quem tem de evitar tragédias e de fazer alguns pequenos milagres.

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