Emmanuel Babled, o designer do vidro mudou-se para Lisboa

Emmanuel Babled deixou Milão e Amesterdão para trás e instalou-se em Lisboa. É aqui que vai apresentar as suas duas novas peças, Pyros e Etnastone.

"A partir de 1 de fevereiro, o nosso estúdio vai estar localizado em Portugal, num edifício de azulejos azuis no centro de Lisboa". O designer Emmanuel Babled anunciou assim a mudança para a Rua da Madalena, 85. E esperou pelo outono, para abrir, literalmente, as portas ao mundo. "Queremos que as pessoas saibam que existimos".

Sexta-feira é dia de Open Studio e de mostrar duas novas criações, as jarras Pyros e a mesa de jantar Etnastone. É, também, uma maneira de apresentar esta casa pombalina, piso de madeira corrida, a velha chaminé à vista. "Daqui vejo o 28, estou perto da pequenas lojas, já do lado do Castelo", diz ao DN.

Babled, autor do candeeiro Digit e com 25 anos de experiência em vidro, podia entrar na lista de franceses ligados às indústrias criativas que se estão a mudar para Portugal, tirando partido das vantagens fiscais, ao lado do colega de profissão Phillipe Starck, dos designers de moda Christophe Sauvat e Christian Louboutin (ou mesmo o ex-futebolista Eric Cantona e a atriz Monica Bellucci). Admite as vantagens ("Posso estar na Baixa, o que não acontece em Milão ou Amesterdão"), mas garante que a mudança já esteve nos planos há seis anos quando se mudou de Milão para a Amesterdão.

O interesse de Emanuel por Portugal não começou em janeiro, quando se mudou para Lisboa. "Há seis anos, quando me mudei para Amesterdão, pensei em Lisboa. Conhecia o país, costumava passar férias com a família no Algarve e na costa vicentina, "aquele paisagem agreste", que lhe lembrava as férias da adolescência em Biarritz. Mas, para ficar mais perto da filha, acabou por mudar-se de Milão para Amesterdão. "Já dava aulas na Holanda", explica. Até, com os filhos a estudarem na universidade, que se voltou a interessar por Portugal.

Empacotou as protótipos, maquetes, computadores e fotografias de arquitetura do artista alemão, e amigo, Josep Schulz, que já estavam em Milão, e instalou-se.

No estúdio, o inglês é a língua franca entre as cinco pessoas que aqui trabalham: ele, duas portuguesas, uma alemã e um turco com quem já trabalhava na Holanda e viveu em Itália. Está por dentro de todo o trabalho do designer. Acabam por trocar impressões em italiano. Outras duas pessoas trabalham em Itália, perto da produção que se continua a fazer por lá.

A mudança tem, também, a ver com a cidade de Lisboa. "Estou aqui no centro, a dois passos de casa, faço tudo a pé, tenho uma vida de melhor qualidade e isso é bom para minha equipa. Estar num sítio que oferece boa qualidade de vida é importante para quem tem um trabalho criativo", afirma. Fala-se das condições de Lisboa. Há elogios: "geopoliticamente é um outsider, é um pequeno país diferente e original, com grande potencial. Uma ligação com o Brasil ou África".

De Paris para Milão

Emmanuel Babled, 49 anos, pai de três filhos, nasceu em Paris e mudou-se aos 18 para Milão para estudar, inspirados nas viagens de família que fez a Itália. "Passei mais tempo em Itália do que em França", explica. "Sei falar melhor do meu trabalho em italiano do que em francês", diz. "Sou um europeu", define-se. "Quando mudamos crescemos, porque aprendemos", defende.

Tinha interesse em arquitetura, mas ingressou no curso de design industrial do Instituto Europeu do Design, em Milão. Estávamos em 1989, o grupo de Memphis tinha-se dissolvido, mas a sua influência enorme. Mostrou os seus desenhos ao fundador, Ettore Sottsass (um dos artistas representados na coleção de David Bowie que será leiloada em novembro). "Ele aconselhou-me a trabalhar o vidro, disse-me que lhe parecia adequado à minha forma de expressão". Seguiu o conselho, e os seus desenhos agradaram ao comprador da loja Idée, no Japão, que lhe encomendou uma coleção, que Babled aceitou fazer mesmo sem ter toda a experiência necessária.

Acabou por se especializar até ser "aquele que faz vidro", como se autointitula, com colaborações robustas com Venini, Baccarat, Rosenthal e Covo. O currículo é mais vasto, com candeeiros, mármores, carpetes, mesas com pedra de lava de vulcão Etna.

A mesa Etnastone, como a Pyros, feita em Murano, pertencem a uma nova etapa na carreira de Babled, A primeira é uma espécie de puzzle de peças em pedra de lava vidrada que depois se juntam. Não existem duas iguais, estão numerados. As peças de vidro Pyros são feitas em Murano, artesanais, e, como admite Babled, "estão cheias de erros". "Mas essa é a sua beleza", sublinha. O trabalho atual, de edição e circulação limitada (mais próximo de galerias de artes) é cada vez mais feito "sem obrigação de mercado". "A minha filosofia é a excelência", afirma.

Recorre a técnicas ancestrais ao lado da tecnologia, como acontece com a Osmosi, uma jarra de vidro de Murano, imperfeita como todas, cuja medida é cortada de forma escrupulosa no mármore. "Acredito que Portugal mantém muitas destas técnicas, tem essa riqueza", diz, e acrescenta: "Isto é uma divagação, mas regressar à autenticidade é uma nova necessidade. A globalização tornou a conceção mais pobre, há mais espaço para coisas feitas com sentido, paixão e orgulho".

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.