"Em Portugal, o músico sente-se muito bom em palco"

Faltam dois meses para o inglês Jamie Cullum voltar a um palco português. E logo em dose dupla: a 28 de julho nos Jardins de Serralves, Porto, e no dia seguinte no Parque dos Poetas, Oeiras, espetáculo integrado no festival CoolJazz. Cullum, de 37 anos, estudou Literatura e Cinema - e não fecha portas a essas artes -, mas é como radialista na BBC, compositor e cantor que despende quase todas as energias criativas. Quase: também se dedica à fotografia e, quando lhe dá na gana, publica uma revista, a Eighty-Eight. É de manhã cedo, o que explica a primeira pergunta da entrevista telefónica.

Li que gosta de tomar um bom pequeno-almoço. O que é para si um bom pequeno-almoço?

Ah! Adoro abacate, bacon, torradas, ovos mexidos e um café expresso ou um capuccino. Isto seria perfeito.

Gosta de ouvir música quando toma refeições?

Também sou radialista e tenho sempre música a tocar, não só porque gosto mas também para preparar o programa de rádio. Esta manhã vamos tocar o novo disco dos Magnetic Fields.

Como é que começou a paixão do Jamie e do seu irmão pela música numa terra tão pequena?

Os meus pais amam música e a música faz parte da vida deles. Saíam ao fins de semana e tocavam numa banda de casamentos para fazerem um dinheiro extra, mas também porque se divertiam. Sempre se ouviu música em casa e sempre foi bem-vista por todos na família, os meus pais, o meu tio, os meus avós. A música era sagrada. Quando o meu irmão começou a tocar, eu copiei-o, fui atrás dele.

Quer do lado materno quer do lado paterno tem refugiados na história da sua família. Como é que lida com o discurso de ódio perante os refugiados?

Tento fazer algo sobre o assunto e participo em campanhas. Não para chamar as pessoas de estúpidas, mas para ajudar. Para quem não tenha refugiados na comunidade ou na história da família talvez seja difícil compreender como isto se relaciona com a nossa vida e a nossa sociedade. Educar talvez não seja a palavra adequada, mas falar de uma maneira que seja mais frutuosa. Sinto que as redes sociais causam mais problemas para o debate do que promovem o debate. Mais do que paixão, o debate necessita de razão, distância, educação e paciência.

No entanto, é muito ativo nas redes sociais.

Adoro partilhar o material relacionado com a minha música, mas vejo outras pessoas partilharem coisas do quotidiano e da vida familiar e, honestamente, não me sinto confortável em revelar os pormenores da minha família.

Disse uma vez que conheceu o jazz através de A Tribe Called Quest. O que tem de especial o hip hop?

Para mim, quando tinha 12, 13, 14 anos, quando comecei a ouvir, o aspeto principal era a atitude. A maior parte dos artistas de hip hop falam de coisas que não se relacionam com a minha vida. Adoro a riqueza, a poesia de rua e o pano de fundo sonoro, que ao princípio não percebi mas sabia que era rico em vários níveis. E comecei a investigar o que era o hip hop e o sample em geral: drum"n"bass, reggae, dub... o DJ Shadow foi uma descoberta pela qual fiquei fascinado. Depois descobri Herbie Hancock, David Axelrod...

Ouvir o seu programa de rádio é de certa forma ouvi-lo ao vivo: um cruzamento apaixonado de géneros musicais. Quais são os limites, se é que existem?

Ah! Espero que não existam. Talvez praguejar, dizer asneiras, porque há famílias a ouvir, mas obviamente como o programa está sob o chapéu do jazz tento relacionar tudo com o jazz. Acredito sinceramente que a maior parte do géneros de pop se relaciona com o jazz.

Se tivesse uma loja de discos, onde arrumaria os seus álbuns?

[risos] Acho que poria na pop.

Está a trabalhar num álbum novo?

Sim, neste momento estou no meu estúdio. Assim que acabarmos a conversa vou continuar.

Vai ser um disco de jazz como o último, Interlude?

Mais do que ser um álbum de jazz ou de pop, é um álbum com as minhas canções, ao contrário do anterior, que era de versões. É um disco com temas muito pessoais.

Vai tocar temas novos em Portugal?

Sem dúvida. Espero lançar o disco depois do verão, mas espero tocar três ou quatro canções na digressão.

Pergunta clássica: tem boas memórias das atuações em Portugal?

Só tenho boas memórias. Em Portugal há um público apaixonado que faz que um músico se sinta muito bom em palco. Acabámos uma digressão no Reino Unido e tocámos de seguida em Lisboa, e o público do Coliseu fez mais barulho do que o barulho de todos os concertos juntos no Reino Unido [risos]. Mas num bom sentido, no sentido de que aprecia a paixão e a perícia que transparece em palco. É uma das razões pelas quais volto a Portugal. Outra coisa de que gosto em Portugal é que o público sente tanto entusiasmo pelas músicas antigas como pelas novas.

Conhece a música portuguesa?

Um pouco. Colaborei com a Luísa Sobral. Fizemos uma canção juntos e foi ótimo ter colaborado com a Luísa, ela tem uma voz excelente e faz parte de uma cena musical portuguesa muito interessante.

Como define o jazz?

É a música que usa a improvisação como forma essencial de expressão.

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