Eleanor estreia-se na realização de ficção aos 80 anos

Mulher de Francis Ford Coppola surpreende com este pessoalíssimo Paris Pode Esperar, lição romântica com sabedoria feminina. Foi um dos filmes ignorados em Toronto em 2016

Chegar aos 80 anos e estrear-se como realizadora de um filme de ficção. Aconteceu a Eleanor Coppola, a matriarca do clã de Francis Ford. Dela já conhecíamos o muito aclamado documentário de 1991, Coração das Trevas, em que documentava o trabalho do marido durante a odisseia que foi a rodagem de Apocalipse Now. Na verdade, este Paris Pode Esperar não é um capricho. É um filme que já vinha sido pensado há muito e cujo financiamento não foi fácil. Nestes dias, investir num filme sem atores jovens e passado todo em França não é muito tentador, mesmo quando tem a produção de Francis Ford Coppola.

O filme é uma espécie de espelho pessoal para Eleanor. O seu argumento conta-nos uma viagem de Cannes até Paris, onde um produtor francês charmoso e uma mulher de um parceiro americano partilham um automóvel vintage. Essa mulher é Diane Lane, num dos grandes momentos da sua carreira (com uma capacidade de sedução fulminante) e pode representar em certos aspetos Eleanor - ela também é esposa de um figurão de Hollywood, vive na sombra do seu ego e pode por vezes ser esquecida. Lane tem a sua proveta idade mas já passou há muito dos cinquenta. O problema é que a viagem não é direta. Jacques, o tal produtor francês, está atraído por ela. Quer mostrar-lhe a França rural: as pontes, os monumentos, as paisagens, mas sobretudo os melhores restaurantes. Talvez por isso, acontece o inevitável: Paris vai ter mesmo de esperar. A meio do caminho param num hotel de luxo num restaurante com estrelas Michelin e os melhores vinhos.

Lendo esta sinopse parece que Paris Can Wait é um filme unicamente romântico, uma comédia para "cotas" com carta branca do Turismo de França. Se calhar, até é um bocadinho de tudo isso mas não tem mal. Não tem mal também nenhum que às vezes se pareça com um virtual cruzamento de A Viagem a Itália, de Michael Winterbottom (que não era romântico), com French Kiss, de Larry Kasdan. A mãe de Sofia Coppola tem uma delicadeza própria na sua "função" de filme-de-estrada. Filma dois adultos em estado de charme com uma subtileza tão feminina quanto sensata. Não força nada. Esta é realmente daquelas comédias que não precisa de gags nem de punchlines. Rimo-nos com as pequenas coisas mais humanas como, por exemplo, um olhar da protagonista quando vê algumas sobremesas de chocolate chegarem à mesa.

E por muito que nos queixemos de um certo "toque" aburguesado, esta estreia de Eleanor será sempre uma prova de que não há mal gostarmos de filmes apenas "simpáticos". Ajuda muito também gostarmos da música dos Phoenix, que inundam a banda sonora.

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