É assim que a luz entra

Ahmed Rashid, jornalista e investigador paquistanês, autor de vários livros, reflete sobre a (sua) vida com as canções de Leonard Cohen

Para milhões de pessoas em todo o mundo o choque dos resultados das eleições nos EUA será enormemente ampliado pela notícia da morte de Leonard Cohen aos 82 anos. Há muito tempo que ele cantava sobre a sua morte. Delgado e frágil, morreu na sua casa em Los Angeles na noite anterior às eleições, caiu, bateu com a cabeça no chão, entrou em coma e não recuperou.

Canadiano de nascimento, disse há muito tempo aos filhos que queria ser enterrado na sua cidade natal de Montreal no cemitério da família, deitado ao lado da sua mãe e dos seus antepassados rabinos, muito antes de a sua morte ter sido anunciada.

Leonard Cohen, trovador extraordinário, poeta, romancista, cantor, espiritualista, amante supremo das mulheres, elegante no vestir e, para alguns, um profeta, reinventou-se geração após geração de fãs, desde 1967. Ano em que a cantora folk Judy Collins o convenceu a cantar pela primeira vez Suzanne, um poema que passou a canção, num evento contra a guerra do Vietname em Nova Iorque. Ele já tinha 32 anos - de longe o cantor popular mais velho do seu tempo.

A sua extraordinária voz rouca, a sua forma obstinada de tocar guitarra e a irresistível poesia das suas canções convenceram inicialmente algumas pessoas de que tinha aparecido outro Bob Dylan, mas a vida e a música de Cohen iriam seguir um rumo radicalmente diferente. Muita da sua imagética não nascia do protesto, mas de uma profunda espiritualidade, do conhecimento das Escrituras, de um amor duradouro pela humanidade, de uma humildade autodepreciativa e do sentido de humor presentes nas canções de amor mais tristes que alguma vez alguém cantou. Ele não correspondia a qualquer modelo existente de um cantor pop.

Cohen vocalizou a sua poesia e rapidamente ganhou uma compreensão magistral do acompanhamento musical e do uso de vários instrumentos musicais. Ele não definiu apenas uma época única, mas meio século de épocas.

Na década de 1960, o seu primeiro álbum, The Songs of Leonard Cohen, tornou-se um som obsessivo nos dormitórios universitários por toda a Europa e América. Estudantes como eu punham o álbum a tocar, acendiam uma vela, abriam uma garrafa de vinho e esperavam que uma mulher mística e bela entrasse pela porta. Esse primeiro álbum ainda é muitíssimo vendido e as suas canções marcam as recordações de milhões de pessoas.

No entanto, a imagética das suas canções também se inspirava em símbolos e conhecimentos profundamente espirituais e religiosos. Ele vinha de uma família de rabinos judeus que desempenharam um papel proeminente na instituição do modo de vida judaico do Canadá. Mas ele era também um mestre do budismo zen da escola Rinzai. Na década de 1990, em recuperação de um período depressivo e tendo desistido da música, Cohen passou cinco anos num mosteiro zen nos arredores de Los Angeles, vivendo como um monge e meditando.

Mais tarde, passou vários anos a estudar com um místico hindu, Ramesh Balsekar, na Índia. Leu o Corão e estudou profundamente o misticismo sufi - o lado espiritual do islão. Os dervixes com raízes sufis da Turquia adotaram até canções de Cohen para dançarem. A sua maior canção, Hallelujah, que foi cantada literalmente por centenas de artistas, é, em parte, um tributo ao antigo israelita e profeta rei David.

Numa longa conversa que tive com ele em 2012, disse--me que estava sempre a ler textos religiosos judeus, budistas, hindus, muçulmanos e cristãos. Ele lamentava nunca ter tocado num país muçulmano, embora fosse adorado em todo o mundo por ser um homem de todas as crenças com uma mensagem de tolerância e aceitação.

Era também um perfecionista, levando muitas vezes vários anos para escrever uma única canção ou para a musicar. Nunca estava verdadeiramente satisfeito, dizendo com frequência que uma canção estava "ainda inacabada". Há uma história famosa que conta que Bob Dylan, agora com 75 anos, lhe disse uma vez que tinha levado 15 minutos a escrever uma das suas canções populares. Dylan perguntou então a Cohen quanto tempo tinha ele levado a escrever Hallelujah e Cohen respondeu: "Cinco anos."

As outras influências de Cohen eram infinitas, desde os grandes nomes do jazz e dos blues, até Hank Williams, Edith Piaf, Jacques Brel, Pablo Neruda, o poeta grego Constantino Cavafy, o poeta espanhol Federico García Lorca, cujo nome deu à sua filha, e muitos outros.

Ele admitia que os seus álbuns nunca venderam tanto como os dos grandes do rock, mas amava a sua extraordinária popularidade de nicho. No início, ele vendeu a maioria dos álbuns na Polónia, onde durante a Guerra Fria os fãs aprenderam a falar inglês com as suas músicas. Era um herói na sua pátria, o Canadá, com uma legião de fãs em todo o país. Adorava a forma como era recebido em Espanha, onde contava como, aos 15 anos, um guitarrista itinerante de flamenco espanhol lhe deu as suas primeiras aulas de guitarra em Montreal.

Ele era uma figura de culto na Escandinávia, onde as suas canções ressoavam e acendiam fogueiras no frio. A sua namorada de muitos anos, Marianne Ihlen, que inspirou várias das suas canções mais famosas, era norueguesa. Ela morreu no início deste ano, de cancro, depois de escrever uma última carta a Cohen do seu leito de morte. A resposta de Cohen - tornada pública - foi viral. "Bem, Marianne, chegámos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem e penso que te seguirei muito em breve. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que creio que se estenderes a tua mão conseguirás tocar na minha."

Em 2008, depois de descobrir que o seu agente lhe tinha roubado todos os seus bens - Cohen estava então com 70 e tal anos - decidiu lançar uma digressão mundial extraordinária para ganhar dinheiro. A digressão terminou em 2013 em Auckland, na Nova Zelândia, depois de 380 apresentações - algumas das quais duraram quatro horas. Esses espetáculos eram pura euforia e exultação. Desde a sua suposta reforma fez três álbuns: Old Ideas, Popular Problems e o mais recente, lançado há apenas algumas semanas, You Want It Darker.

Ao longo da minha vida tenho levado Cohen para todos os lugares, e fi-lo, tal como muitos outros, por querer que a sua poesia de amor e tolerância, a harmonia musical e a sua voz áspera encerrassem os dias em que cobria guerras e conflitos políticos como jornalista. Quando viajo, ainda o levo como um comprimido para dormir, um belo espírito a que me render, um cantor espiritual para estes tempos não espirituais. Numa entrevista em 1993, ele quase que definiu o seu credo:

"Sou completamente aberto e transparente e, portanto, é fácil para qualquer um compreender a emoção que está presente. Eu sou a pessoa que tenta tudo e vejo-me a desmoronar. Eu tento drogas, Jung, meditação zen, amor e tudo se desmorona a cada momento. E o lugar onde tudo se revela é na análise crítica dessas coisas - as canções. E por causa disto eu sou vulnerável. Há aquele verso em Anthem que diz: "Há uma fenda em tudo/É assim que a luz entra". Isso resume tudo: foi o mais perto de um credo que eu cheguei."

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