"É a versão Julieta e Julieta da história de Romeu e Julieta"

Entrevista a cate Blanchett, a atriz que se reencontra com Todd Haynes em "Carol"

Uma entrevista com Cate Blanchett em pleno Festival de Cannes é tudo menos uma entrevista. Enfim, cada um tenta dar o seu melhor... Desde logo, porque a célebre round table, ou seja, uma conversa com cinco ou seis jornalistas, é tudo menos round (passa-se num recanto do barulhento terraço de um hotel) e acaba por incluir uma dúzia de entrevistadores, alguns dos quais pouco motivados pelo cinema, mais apostados em saber como é que a atriz equilibra os compromissos profissionais com as tarefas da maternidade...

Fala-se do filme de Todd Haynes, Carol (estreia-se na quinta-feira), em que a prodigiosa Blanchett contracena com Rooney Mara, na história do amor de duas mulheres, na década de 1950, tendo como inspiração o primeiro romance de Patricia Highsmith (originalmente assinado com o pseudónimo Claire Morgan).

Consciente da delicadeza temática e do poder simbólico do filme, a atriz sugere um resumo exemplar: "Para Todd Haynes, tratava-se de contar de novo Romeu e Julieta, mas agora é a versão Julieta e Julieta da história de Romeu e Julieta. Claro que é importante que sejam duas mulheres, mas o que conta é a experiência de aprendizagem que decorre de uma relação profunda com alguém."

No cerne dessa tragédia íntima está a dificuldade de nomear aquilo que se vive de forma tão intensa: "Carol e Therese descobrem que não podem dar um nome ao amor que sentem, mas também que esse amor é ilegal, é mesmo considerado um crime."

Pergunto-lhe até que ponto o conhecimento do contexto social e legal da ação foi importante na construção do filme. Lembrando que foi um fator "absolutamente vital", Blanchett explica o método de trabalho de Haynes: "Estabelecemos aquilo que se pode chamar um alinhamento de factos políticos e costumes sociais, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até ao começo dos anos 1960. De facto, a década de 1950 não é um bloco homogéneo. Com a guerra, houve muitas mulheres que tiveram a possibilidade de aceder a atividades que eram exclusivamente masculinas. Depois, num certo sentido, foram de novo remetidas para a cozinha. Veio a Guerra Fria, a tecnologia nuclear e toda uma subterrânea transformação da política americana." Filme político? O rótulo não é importante, mas "os debates que suscita poderão ser abertamente políticos."

Elogio do teatro

Curiosamente, a carreira de Blanchett tem sido pontuada pela interpretação de algumas figuras lendárias. Também sob a direção de Haynes, em I"m Not There (2007), interpretou... Bob Dylan! E foi Katharine Hepburn em O Aviador (2004), de Martin Scorsese. Será que representar uma personagem verídica envolve um desafio especial? "Sim, quando é alguém do cinema." Como foi, então, com Hepburn? "Pânico total! Mas o que é que se faz quando Scorsese nos convida? Viramos as costas? Além disso, ele ajudou-me imenso, dizendo-me que eu podia ser loura, andar sempre de calças e não me preocupar em parecer-me com ela..." Se o leitor conseguir imaginar a deliciosa imitação do falar sincopado de Scorsese, poderá compreender a alegria com que Blanchett recorda a experiência.

Enfim, questão clássica, mas incontornável: até que ponto uma personagem forte se imiscui na identidade da própria atriz? Curiosamente, ao contrário de outros profissionais, Blanchett não resiste ao tema: "Há, sem dúvida, qualquer coisa que fica, um resíduo da personagem que passa a viver connosco. Ser atriz é isso: podemos enriquecer através das personagens. Sentimos o mesmo quando lemos um romance de um grande escritor: o mundo expande-se."

Segredos da profissão? Talvez o menos secreto: um trabalho contínuo e paralelo no teatro: "O teatro ajuda-nos a compreender a responsabilidade que temos perante os espectadores." Convém, por isso, tomarmos nota nas nossas agendas: lá mais para o final do ano, Cate Blanchett vai ter a sua estreia na Broadway, numa peça de Tchekhov.

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