Durante 50 anos Bowie foi um espelho único do seu tempo

Através das várias mudanças que o artista foi encetando podemos também traçar um possível caminho da história da música popular das últimas cinco décadas.

Da imersão pela liberdade jazzística do último Blackstar (2016) aos primeiros singles ainda editados como Davie Jones, em meados dos anos 1960, David Bowie nunca deixou de dialogar com a música do seu tempo, mas, ao contrário dos camaleões, fê-lo destacando-se nessa sede de mudança.

Depois de em 1962 se passear de saxofone na mão como um dos membros dos Kon-Rads, 64 foi o ano em que lançou o seu primeiro single, Liza Jane, ainda como Davie Jones, que espelhava a cultura mod de então. É certo que não foi este Bowie que ficou para a história, mas é interessante perceber como desde muito cedo foi refletindo em si as convulsões que o rodeavam, mesmo que o tenha feito com um cunho pessoal que só poderia ser dele.

Nova vaga

Os anos de 1966 e 1967 foram de charneira para o psicadelismo. Recorde-se, por exemplo, obras como Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, The Piper at the Gates of Dawn, a estreia dos Pink Floyd, ou Their Satanic Majesties Request, dos Rolling Stones. E, mesmo que nunca se tenha embrenhado totalmente nessa corrente, o primeiro álbum de David Bowie, o esquecido homónimo de 1967, carrega em si algumas referências dessa música e da cultura hippie, só que a isso cruzando heranças do vaudeville e da tradição do teatro musical. Demarcou-se de forma tão clara dos seus contemporâneos que esse disco acabou por ser um fracasso comercial.

David Bowie assistiu também ao renascimento de uma nova vaga folk, surgida das cinzas do psicadelismo de outrora, e, depois da experiência com o trio Feathers, em 1968, lança Space Oddity (1969), disco que, além de lhe ter dado o seu primeiro sucesso, assimila as mudanças em curso, com o desencanto na cultura hippie.

Já em 1970 a estética hard rock começava a chegar às massas, através do que então praticavam os Led Zeppelin e os Black Sabbath. Interessado nesse mundo, Bowie criou The Man Who Sold the World (1970). No entanto, foram os anos que se seguiram que acabaram por delinear David Bowie como um nome maior da cultura pop, em parte por tudo o que rodeou o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972). O músico torna-se então estrela rock"n"roll na pele da personagem Ziggy Stardust, cruzando referências cinematográficas com o teatro kabuki, explorando questões de género quando esse discurso estava longe de permear o mainstream como hoje. E se é verdade que na altura Marc Bolan era já precursor do glam rock, a androginia de Bowie como Ziggy marcou definitivamente esse género, que teve ecos numa série de artistas que se seguiram, dos Roxy Music aos New York Dolls.

David Bowie como estrela glam rock ainda ficou mais apurada no álbum sucessor, Aladdin Sane (1973), mas quando o glam se massifica, Bowie volta a querer mudar, e essa vontade espelha-se em Diamond Dogs (1974) e, principalmente, Young Americans (1975), disco que reflete o seu gosto pela música negra norte-americana, uma viragem que voltou a ganhar eco nas obras de Roxy Music ou Rod Stewart.

A revolução eletrónica

Mas, nesta altura, a revolução estava já em curso noutro lugar, na Berlim do krautrock, através da música eletrónica, com os Kraftwerk, Neu!, Cluster ou Harmonia. Bowie sabia-o e os primeiros ecos desse interesse encontram-se em Station to Station (1976). Mudou-se então para Berlim onde gravou Low (1977), "Heroes" (1977) e Lodger (1979), na companhia de nomes como Brian Eno ou Robert Fripp, uma trilogia de discos que estão entre os mais influentes do músico pelo seu modernismo pop. Os anos 1980 deram a Bowie o seu maior sucesso de sempre ao olhar novamente para a América, chamando Nile Rodgers dos muito bem-sucedidos Chic, para lhe produzir Let"s Dance (1983), numa era em que não faltavam êxitos r&b nos tops.

Os anos que se seguiram foram de desnorte criativo, ainda que muitos vejam a experiência no grupo Tin Machine como precursora do grunge. Na verdade, em 1994 os Nirvana fizeram uma versão do seu The Man Who Sold the World que é tão ou mais popular que o seu original.

A década de 1990 foi a última vez que Bowie procurou assimilar a modernidade do seu tempo, como o provam 1.Outside (1995) e Earthling (1997) no diálogo com as novas linguagens do drum"n"bass.

A partir de então, Bowie criou uma série de álbuns que fazem eco do que foi o seu passado, mas com Blackstar deu uma nova reviravolta, surpreendendo tudo e todos com o seu espírito audaz. Não podíamos pedir melhor carta de despedida.

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