Do Rossio a Alfama. Pelos caminhos da Lisboa Judaica

A proposta é esta: passar uma borracha mágica pela cidade de 2016 e regressar a 1506, ano aziago para os judeus em Portugal. A partir do livro "O Último Cabalista de Lisboa", percorrem-se os caminhos do Rossio à Grande Judiaria e dessa até à Pequena Judiaria, em Alfama, onde nascerá o Museu Judaico

Sábado, 10.30. Um grupo de pessoas de idades entre os vinte e poucos e os 50 e tantos reúne-se no Largo de São Domingos, no Rossio. "Vamos passar uma borracha mágica por tudo o que vemos", começa Andreia Salvado, guia desta dezena de interessados que quer saber mais sobre o que se passou em Lisboa naqueles três dias negros de abril de 1506 em que mais de dois mil judeus perderam a vida aqui no centro da cidade, expulsos por um édito que os considerava pessoas não gratas.

"Apagamos estes prédios pombalinos", diz, olhando para essa fileira de edifícios que emoldura o Rossio e onde está hoje o restaurante de uma cadeia norte-americana de hambúrgueres, uma loja de T-shirts e a pastelaria Suíça, local do antigo Hospital Real de Todos os Santos, à data dos eventos. O Teatro Nacional de D. Maria II, no topo da praça, também tem de ser "apagado". No seu lugar é preciso imaginar o Palácio dos Estaus, "uma casa nobre, rica, destinada a receber os embaixadores, nobres e alta nobreza estrangeira", situa Andreia Salvado, remetendo para o livro O Último Cabalista de Lisboa.

É este romance da autoria do autor norte-americano Richard Zimler, editado em 1996, o ponto de partida do roteiro Lisboa Judaica: Ao Encontro do Último Cabalista de Lisboa, que o DN acompanhou no dia 5 de março, com a chuva a ameaçar a cada passo.

Há mais de um ano que Andreia Salvado, também professora, passeia por Lisboa com portugueses e estrangeiros revelando os pormenores de uma cidade desaparecida, ou esquecida. Resta pouco dessa época, mas logo no Largo de São Domingos encontra-se uma estrela de David já do século XXI que evoca esses acontecimentos do início do século XVI. "Em memória dos milhares de judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de abril de 1506 neste largo", lê-se.

Nesses três dias da Páscoa de 1506, entre dois a quatro mil cristãos-novos - judeus convertidos à força - foram massacrados, por ordem dos frades da Igreja de São Domingos, e que, mais tarde, viriam a ser presentes à justiça. "Muitos [judeus] foram arrastados para serem convertidos à força", continua Andreia Salvado. Houve fogueiras no Rossio. O cronista Damião de Góis descreve estes acontecimentos, como lembra Andreia Salvado. "Há um incentivo a entrar na judiaria e arrombar portas."

São estes momentos que descreve O Último Cabalista de Lisboa, a partir do manuscrito de Berequias Zarco, protagonista da história, como detalha Richard Zimler na nota de autor que acompanha o romance histórico, rejeitado por mais de uma dezena de editoras antes de ser lançado em 1996 pela ASA.

A descoberta dos manuscritos

A história passa-se em 1990 quando Zimler está a fazer um doutoramento e vai a Istambul para estudar a poesia sefardita, "especialmente as baladas", durante sete meses. Um advogado, amigo do seu orientador de tese, Isaac Silva Rosa, empresta-lhe um apartamento. Instala-se em maio e em julho começam a fazer obras na casa, nos arredores de Balat, o bairro judeu medieval da cidade turca.

A 18 de julho é encontrado um esconderijo secreto, onde são encontrados nove manuscritos assinados por Berequias Zarco. Foram escritos entre 1507 e 1530 e nessa noite Zimler começou a lê-los, como conta nas páginas iniciais de O Último Cabalista de Lisboa. Três deles "têm uma natureza mais secular", conta. Percebeu logo que se tratava do massacre de 1506 em Lisboa. "Unidos por uma tira de couro. O primeiro data de 1507 e os dois últimos de 1530." Berequias Zarco, 8 anos em 1506, recorda o que aconteceu a partir de 6 de abril.

"Ficar a ver navios"

Andreia Salvado contextualiza o grupo: "Estamos numa sociedade de grandes desigualdades sociais". Dez por cento da população, calcula-se, eram escravos. A população muçulmana e judia era mais do que residual. Há peste em Lisboa. "Entre a Rua da Prata e a Rua dos Fanqueiros existia a Grande Judiaria, também chamada de Pequena Jerusalém", entre a Igreja de São Nicolau e a Igreja da Madalena.

Por enquanto, ainda estamos à porta da Igreja de São Domingos. D. João II, "por pressão da Santa Sé, restringe o seu acesso a cargos políticos", nota. D. Manuel, "ambicioso" e desejando casar um filho com uma descendente de Fernando e Isabel, os reis católicos. Assina o édito de expulsão em 1496 (quatro anos depois dos espanhóis).

Em 1497, 20 mil judeus reúnem-se em Lisboa e são forçados a ir à pia batismal.

A troco do pagamento de um imposto, que se vem a revelar mentira, alguns judeus acreditam que partirão do Terreiro do Paço, de barco, para outras paragens. O momento cunhou a expressão "ficar a ver navios" que chegou aos dias de hoje, como conta Andreia Salvado.
Em época de seca e doenças pedem-se milagres. No então Mosteiro de São Domingos, os frades incitam à violência. A população acompanha-os.

Até à Judiaria Grande

O Rossio fica para trás e a caminhada faz-se pela Praça da Figueira até chegar aos territórios antes ocupados pela Grande Judiaria. "O seu grande poder era comercial, contrastando com a Lisboa pobre que ficava fora da Judiaria", resume Andreia Salvado. Nada resta desses tempos, é preciso imaginar uma cidade de ruelas estreitas e pouco iluminadas. "Havia 20 mil casas, vivam aqui entre 30 mil e 50 mil pessoas." Sabe-se também que da Rua dos Fanqueiros ao Elevador de Santa Justa ficava o cemitério judeu. A Rua Augusta era já uma rua forte de comércio. A cidade ruiu com o terremoto de 1755 dando lugar ao traçado pombalino de hoje.

Pelo caminho até Alfama, Júlio Correia e a mulher, Isabel Melo, contam que vieram de Évora, onde ele é professor universitário e ela é educadora de infância, para fazer este roteiro. "Interessa-me compreender a história", resume. Entre os participantes há licenciados em História, para quem é fácil imaginar Lisboa de então.

Na Judiaria Pequena

E entretanto chegamos a Alfama, ou melhor dizendo, Pequena Judiaria, zona de concentração de judeus mais modesta nos idos do século XVI do que a Judiaria Grande, mas ainda assim dedicada ao comércio, sobretudo de cereais, situa Andreia Salvado. Os participantes são convidados a localizar a sinagoga mencionada no livro de Richard Zimler. Nem toda a gente leu O Último Cabalista de Lisboa, mas quem o fez não tem dúvidas: "Do outro lado da sinagoga fica a Rua de São Pedro", descreve Berequias Zarco no manuscrito.

O nome da rua remete para uma igreja que já não existe e da qual apenas "resta uma pedra com as chaves de S. Pedro, deixada por um pedreiro livre", explica Andreia Salvado.
Antes, é no Largo das Alcaçarias que se concentram as atenções. O prefixo "al" atira para os árabes e, explica Andreia Salvado, tem que ver com banhos. Esta era uma zona de águas e ali perto o Beco dos Curtumes confirma. "A concentração de água é maior em Alfama do que outras zonas de Lisboa."
O traçado irregular do bairro é herança judia e deixa perceber "como eram as ruas da Baixa". Permanecem referências claras como a Rua da Judiaria.

O percurso termina no Largo de São Miguel, na praceta marcada pelas escadas da igreja e que, segundo O Último Cabalista de Lisboa, "ficava a 200 passos da casa do protagonista". Aqui mesmo, um tapume que anuncia o Museu Judaico, cuja abertura a Câmara Municipal de Lisboa anunciou para 2017.

250 já fizeram este percurso

Foi para os seus alunos que Andreia Salvado delineou este roteiro da Lisboa judaica há cinco anos. Entretanto, um grupo de guias russas pediu-lhe algo deste género e surgiu o Lisboa Judaica, um sucesso da Oui Go Lisbon, uma empresa dedicada a organizar estes percursos turísticos, com base em eventos históricos e escritores. Esgota num abrir e fechar de olhos. Cada grupo não tem mais de 17 pessoas. Andreia, diz, aliás, que quando chega a este número é porque tenta responder a todas as solicitações. "Vêm muitos judeus todas as semanas." Não só portugueses, também americanos e franceses. Pelas suas contas, cerca de 250 pessoas já o fizeram.

"O ambiente era incontrolável. Os judeus que sobreviveram puderam deixar Lisboa sem restrições", explica Andreia Salvado, junto às escadinhas da Igreja de São Miguel, antes da fotografia de grupo. "Com um decreto do rei será permitido aos judeus saírem." O destino é Constantinopla, atual Istambul - a cidade onde O Último Cabalista de Lisboa começou.

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