Di Caprio. A consagração, sem palavras

À quinta nomeação foi de vez. "Leo" DiCaprio é um dos melhores atores da atualidade, com um percurso notável, finalmente reconhecido pela Academia

"Ele é um verdadeiro ator do cinema mudo, capaz de transparecer meia dúzia de emoções em poucos segundos, usando simplesmente os olhos." As palavras de Martin Scorsese, o grande mentor de Leonardo DiCaprio, fazem eco na carreira do ator, que teve uma ascensão bem mais sólida depois da primeira colaboração com o mítico realizador, em 2002 - Gangs de Nova Iorque. Não que tenha sido o desempenho nesse filme que o colocou nas luzes da ribalta (nem isso seria possível ao lado de um ofuscante Daniel Day-Lewis), mas a sua presença no grande ecrã deixou de estar conotada com o menino bonito de Titanic, Romeu + Julieta ou A Praia. Eram outros tempos, esses, os de uma promoção ainda frívola, e não propriamente do seu agrado pessoal. Ontem, o ator com vestígios do cinema mudo, foi enfim consagrado, e justamente num papel em que é praticamente privado da palavra, fazendo valer essa ideia forte de transparência das emoções através da expressão facial.

Realizadores: só os grandes

Depois do tal ano de 2002, em que também se cruzou com Steven Spielberg, para vestir a pele do jovem impostor Frank Abagnale Jr, em Apanha-me Se Puderes, treinando a habilidade para adquirir várias posturas numa só performance, DiCaprio estava preparado. Para quê? Para tudo. Desde personificar o cineasta e produtor Howard Hughes (O Aviador), ao manipulador financeiro Jordan Belfort (O Lobo de Wall Street), passando pelo Grande Gatsby, DiCaprio é o rosto certeiro que se molda a estes homens ricos, reais ou fruto da criação literária. Mas os vilões assentam-lhe igualmente bem, como teve oportunidade de provar em Django Libertado, de Tarantino. E se a quintessência do ator americano se traduz sobretudo no cinema de Scorsese, com quem soma cinco colaborações, não é verdade que o seu trabalho com Ridley Scott (O Corpo da Mentira), Sam Mendes (Revolutionary Road), Christopher Nolan (A Origem), e Clint Eastwood (J. Edgar) seja menos memorável. Encontrar-se sob a alçada de grandes cineastas sempre foi uma das suas metas, e eis que tem sido essa a constante do seu percurso artístico, a que se junta Alejandro G. Iñarritu, com O Renascido.

O Óscar à espreita

Efetivamente, Leonardo DiCaprio era o favorito à estatueta dourada, apesar de concorrer com um brilhante Michael Fassbender, no papel de Steve Jobs, ou Eddie Redmayne, como transsexual em A Rapariga Dinamarquesa (que poderia acompanhar Iñarritu ao receber dois anos seguidos o Óscar). Esse reconhecimento da Academia foi de tal modo adiado, que a ovação colocou toda a sala de pé, à semelhança do que aconteceu com o veterano compositor Ennio Morricone, pela banda sonora original de Os Oito Odiados, e com o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que foi apresentar a performance musical de Lady Gaga.

Era a quinta indicação de DiCaprio para o Óscar, ao longo de 25 anos de carreira. A primeira nomeação pertence a um passado longínquo, 1994, na categoria de ator secundário, para o filme Gilbert Grape, de Lasse Hallström, em que o então jovem de 19 anos somava apenas três títulos na bagagem (o seu trabalho anterior, A Vida Deste Rapaz, tinha sido uma escolha direta de Robert De Niro, que o distinguiu entre um casting infinito). As designações seguintes para melhor ator estão, no entanto, mais frescas na memória: O Aviador, de Martin Scorsese, em 2005, tendo perdido para Jamie Fox (pela performance de Ray Charles); Diamante de Sangue, de Edward Zwick, em 2007; e O Lobo de Wall Street, de Scorsese, em 2014, cerimónia na qual recebeu um abraço sentido do colega vencedor Matthew McConaughey (O Clube de Dallas), provavelmente consciente deste acumular de injustiças.

Vale a pena regressar, por uma última vez, ao início da trajetória de DiCaprio no cinema, que, estando ligada aos seus impressionantes olhos azuis (os mesmos em que Scorsese vislumbrou um ator do mudo), não se encerra num falso critério comercial. Antes pelo contrário. Basta recordar o papel de toxicodependente em Grito de Revolta ou o poeta Rimbaud em Eclipse Total, ambos de 1995. DiCaprio um poeta, quem diria.

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