Dentro do festival, de colete fluorescente

Cerca de 1200 pessoas trabalham diariamente durante um mês para que tudo esteja pronto hoje, quando as portas se abrirem. Relva sintética é a novidade deste ano.

Às 15.00 desta quinta-feira, o pórtico do Nos Alive será uma porta digna de selfie a anunciar a chegada ao festival. Lá estará a banda Seattle a dar as boas-vindas a quem quer ser o primeiro a entrar no recinto do Passeio Marítimo de Algés, ansiedade contida pelos seguranças. E, lá dentro, 25 mil metros de relva sintética novinha em folha, nunca pisada e acabada de colocar, a grande novidade deste ano, grades de metal a separar do palco principal alinhadas milimetricamente, esperam os espectadores. É o mais próximo de "cheirar a novo" que vão encontrar neste 10.º ano de vida do festival que este ano traz Radiohead, Arcade Fire, Chemical Brothers e mais 125 artistas.

A "república do Alive", como na terça-feira lhe chamou o seu promotor, Álvaro Covões, dono da Everything is New", representa mais de um mês de trabalho e mais pessoas ou empresas do que consegue contabilizar Pedro Viegas, diretor de produção da empresa que promovo o Nos Alive, a Everything is New, e um mar de gente vestida de colete fosforescente e capacete na cabeça. São quase 18.00 de terça-feira, dois dias antes do arranque, um nevoeiro esconde a vista rio e só os jornalistas deram por findo o trabalho. Coincidência, ou não, a música -- uma batida eletrónica forte com ritmos africanos por baixo -- começa a soar, vinda de um dos stands de maiores dimensões, enquanto se continua a colocar relva artificial, se pregam painéis e os nomes das marcas começam a aparecer nos pequenos detalhes.

O festival recebe uma média de 55 mil pessoas por dia. É este o número total de bilhetes que são postos no mercado pela organização. Sexta-feira e sábado, dias em que Radiohead e Arcade Fire, respetivamente, são cabeças de cartaz, estão esgotados, tal como o passe de três dias, que custava 119 euros. Para hoje, restavam 600 bilhetes na terça-feira (56 euros).

Álvaro Covões já pôs como meta vender antecipadamente todos as entradas para o Alive e, assegura ao DN, não pensa fazer crescer o número de bilhetes. "Quando cá veio aos Radiohead, o dia mais cheio, com 55 mil pessoas [em 2013], havia espaço cá atrás, não havia? Há normas a respeitar", afirma, taxativo.

Este ano aplicaram parte dos recursos na promoção do festival fora de Portugal. Este ano venderam 30 mil bilhetes, "fora os que compram cá", quase o dobro do número do ano passado. O Alive foi recomendado por publicações ligadas à música e pela CNN. E é dessa que Álvaro Covões fala com indisfarçável orgulho. "Acham que obrigo a CNN a falar? Nós achamos que fazemos bem e mostramos o que fazemos, se eles escolhem é porque acham que devem fazê-lo", refere, no seu escritório improvisado, com o cartaz, horários e planta do recinto afixados na parede.

Mais de 30 mil estrangeiros

Abre o documento excel no computador e diz os números das vendas fora de Portugal: 31 767, para sermos exatos, até às 18.00 de terça-feira. Metade vem do Reino Unido.

Reino Unido - 15144

Espanha - 8578

França - 2356

Alemanha é o quarto país que mais comprou bilhetes: 1040. "Temos 82 nacionalidades", diz Covões. Islândia, Índia, Albânia, Eslováquia...

"Fizemos muita divulgação nos três principais mercados - Inglaterra, Espanha e França", afirma. "Tudo o resto é viral". Redes sociais, acima de tudo, mas também meios de comunicação especializados em música.

O escritório está num dos muitos contentores atrás do palco principal, o production compound, como se lê na entrada. Contratos, questões de última hora, decisões... Tudo passa por aqui. Se fosse o corpo humano, este seria cérebro.

O coração é o palco principal, o primeiro lugar a ser montado, o último a ser terminado. Anteontem, era o equipamento de som que estava em construção. Uma tenda serve de cantina. "Almoço 12.00-16.00", "Jantar 19.00-23.00". E é aqui que estão os camarins que recebem os músicos do palco principal estão nesta zona. "Cada palco tem os seus camarins", salienta Rita Barradas, diretora de comunicação, durante a visita.

Nos camarins

Miguel Costa recebe a imprensa na zona que vai receber esta quinta-feira a comitiva de Robert Plant, a maior do dia. É aqui que vão ficar Radiohead e Arcade Fire também. Há uma sala com tábua e ferro de engomar e toalhas. Uma sala com sofá e cadeiras. Mais lugares sentados na área comum, máquina de café e casas de banho com duche. Este é um dos locais mais inacessíveis do festival, mas nem por isso o mais glamoroso, salientam o coordenador de hospitality, a diretora de comunicação e Álvaro Covões. "Às vezes pedem-nos uma coisa de uma marca que não existe apenas para saberem que lemos até ao fim o rider". Rider = aquela alínea no contrato com os requisitos de cada banda.

"Pedem giletes, t-shirts brancas, toalhas... ", elenca Rita Barradas. "Pedidos de quem não está em casa há muito tempo", diz. Covões acrescenta: "São atletas de alta competição. Fazem concertos de três horas". Faz uma comparação com o futebol: A nossa seleção leva cozinheiro, alguns músicos também.

Pedidos de última hora, Miguel Costa lembra um, de imediato: uma festa de anos para uma criança dos Muse. "Foi preciso encontrar um bolo com uma bateria, o mais difícil". Nesse dia, houve balões nos camarins e confetis por todas as partes.

Segurança é tema tabu

Por esta altura, trabalha-se 24 horas por dia. "Está cá sempre alguém de nós", diz Pedro Viegas, dono de todos os números do Alive: 1200 pessoas por dia até ao arranque do festival, cinco mil diariamente.

Falamos de segurança, em ano de atentados em Paris. "Não se discute na praça pública", corta, Covões. A estratégia policial é para manter fora da comunicação social, mas as autoridades estão lá. Até antes da zona se encher de festivaleiros. Um carro de polícia policiava a porta de staff, na terça-feira.

O movimento na "república Alive", como lhe chama Álvaro Covões, é o de uma pequena cidade portuguesa. Pelo menos no que diz respeito às telecomunicações, segundo a diretora de marketing da Nos, Rita Torres Baptista, explicando que o grande investimento da empresa de telecomunicações tem a ver com as infraestruturas. A torre instalada serve uma cidade como Aveiro e "20% superior ao ano passado".

Tal como bares, zonas de alimentação, multibancos e casas de banho, é entre concertos que mais se usa o telefone. "Depois dos concertos, o uso do telefone duplica", explica a diretora da marketing. A preocupação do patrocinador é manter os aparelhos a funcionar. No recinto vão estar a funcionar dois pontos de wi fi, com 38 pontos de carregamento cada um. É a música na era do sharing.

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