Demónios de Bosch conquistam mais de um milhão

Fila diárias de horas, cerca de 80 entradas a cada 15 minutos, quatro filas para ver as obras da exposição que o Museu do Prado dedicou a Hieronymus Bosch, no V centenário da sua morte. Resultado: mais de 600 mil entradas, um recorde para o museu madrileno.

A pouco mais de 24 horas para o fecho da exposição de Bosch no Museu do Prado, em Madrid, continuavam as filas para se poder descobrir a genialidade do pintor holandês. Trata-se do mais importante conjunto de obras do artista e dos seus seguidores e já é a exposição mais visitada da história do museu - com 600 mil visitas, sendo a contabilidade final apresentada amanhã. Um valor impressionante ao qual se juntam mais 421 700 mil pessoas que na cidade natal de Hieronymus Bosch, Den Bosch, na Holanda, fizeram questão de ver a mostra Visões de um Génio, entre 13 de fevereiro e 8 de março. Cinco séculos após a sua morte, a obra do pintor holandês continua a despertar imensa curiosidade.

"Há dias em que não há entradas [para vender] e as pessoas ficam nervosas", disse ao DN Pilar Silva, comissária da mostra, às portas do museu. "Os números de visitantes são muito bons, a organização toda está muito feliz", confessa a especialista em pintura espanhola, flamenga e das Escolas do Norte da Europa da instituição madrilena.

Esta última semana foi especialmente frenética, com compromissos em diferentes pontos do planeta. Sabine Heeg, da equipa de direção do Museu da História da Arte de Viena (Áustria), deu um salto até Madrid para observar a exposição. "Simplesmente maravilhosa. Só o Prado consegue uma mostra assim, muito bem organizada para os visitantes num grande espaço", explica ao DN. Além dos quadros emblemáticos como o tríptico do Jardim das Delícias ou o tríptico das Tentações de Santo Antão (do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa) são destacados por Sabine Heeg, bem como "a parte tecnológica da exposição, com os raios X de algumas obras, que permitem entender a técnica utilizada", acrescenta.

A exibição El Bosco. La Exposición del V centenario, aberta ao público no dia 31 de maio, foi prolongada duas semanas mais do inicialmente previsto, de 11 para 25 de setembro. Nestes últimos 15 dias estendeu-se também o horário de visita (de segunda a quinta das 10 às 22 horas e de sexta a domingo das 10 às 24 horas). A cada 15 minutos estava programada a entrada de uma média de 80 pessoas. O preço era o da entrada geral, 16 euros, com direito à visita da coleção permanente e às mostras temporárias (sujeito à disponibilidade).

Risa e o seu namorado, ambos do Japão, estão de visita à capital de Espanha e depois seguem para Granada. A semana passada adquiriram a entrada para o museu e o passe para a exposição de Bosch pela Internet. "Foi rápido e simples", garantem. Era a primeira vez que observavam o trabalho do artista holandês, "muito bonito mas muito difícil de perceber", afirmam à saída da mostra. Uma opinião partilhada por António e a sua mulher, naturais de Granada, que estão a passar uns dias de férias em Madrid. "É uma exposição muito interessante mas é difícil perceber as obras". Além disso, "há muita gente, não consegues ficar à frente do quadro o tempo necessário para observar melhor as obras".

Alguns visitantes optaram pela opção de comprar o áudio guia, por mais 3,5 euros, para terem acesso às explicações dos quadros. "Estava muito curioso por ver de perto quadros tão famosos e adorei", conta François Darcy, de Paris. "Optei pela visita com áudio guia, sabia que o Bosch é um artista difícil de perceber, os quadros têm muita história por trás e desta forma aproveitei mais a visita", relata. Está em Madrid em trabalho e para ele foi uma surpresa saber que podia visitar a exposição. "Esta viagem estava programada há muito e quando viajo até Madrid procuro sempre as boas exposições. Neste caso, fechava no dia 11 de setembro e fiquei com pena de não poder ir. Por isso quando me disseram que fechava dia 25 fiquei todo contente e fui logo à Internet para comprar o bilhete".

Eva García estava também satisfeita pela oportunidade de visitar a mostra, no penúltimo dia da exibição. No seu caso, foi numa visita organizada pela Embaixada da Holanda em Espanha, e contou com a explicação de uma guia particular. "Durou hora e meia e soube a pouco, há quadros espetaculares", explica ao DN. "Eu não sabia que era um autor tão religioso, fiquei surpreendida", reconhece Eva. A partir desta embaixada foram organizados dois grupos, um com a explicação em espanhol e outro em inglês.

Concha Hurtado, de Madrid, visitou em duas ocasiões a mostra de Bosch. Ela conta com o cartão dos Amigos do Prado "e por isso recebo convites para as exposições temporárias". Uma das vantagens é "não precisar de fazer fila para comprar o bilhete" e como é visitante frequente "já sei as melhores horas para vir, quando há menos gente, ou logo na abertura, às 10.00, ou na hora do almoço, a partir das 14.00". Para Concha "esta mostra é muito interessante, é um pintor lúdico e curioso", e sublinha que "as últimas exposições no Prado foram admiráveis, muito bem organizadas".

Nos últimos dias as filas para entrar ao museu andaram mais rápidas do que nos meses anteriores. Com as entradas para a exposição de Bosch já esgotadas, a admissão era mais acelerada, cada pessoa a entrar no horário estipulado. "Chegámos às 11.00, temos o passe para as 11.15 e a fila anda muito rápido", explica uma jovem de Almeria. A sua visita a Madrid coincidiu com a mostra e comprou a entrada há uma semana. A família da Luísa González, do México, tem a entrada comprada há vários meses. "O ano passado estivemos em Madrid e não conseguimos visitar o museu por isso agora comprámos com tempo as entradas para não voltar a ir embora sem o visitar", contam.

Na sexta-feira à noite o ritmo para entrar era igualmente rápido, as pessoas bem dispostas e com muita vontade de ver de perto as obras. "Nunca tinha visitado uma exposição às 10 da noite", confessa Maria, de Santander. "Mas agora que sei que já não há entradas sinto-me uma privilegiada por ser uma das últimas pessoas a entrar na exposição", sublinha.

O verão tem sido muito mais agitado, com filas nas bilheteiras. O normal, quase todos os dias, era ouvir o segurança dizer "já não há bilhetes para hoje, só para amanhã". Alguns ficavam na fila e outros desistiam e iam embora. O resultado de esta constante afluência de público é o já referido recorde de assistência. Até agora a mostra mais bem sucedida do Prado era Tesouros do Hermitage (entre novembro de 2011 e março de 2012) com 583 206 visitantes e supera a de Velázquez, em 1990, que teve meio milhão de visitas, um grande acontecimento na época.

Dentro das salas da exposição, tem sido muito normal formarem-se até quatro filas à frente dos quadros e inclusive na loja do museu para adquirir o catálogo (o produto mais vendido), postais ou outros souvenirs relacionados com Bosch.

Foram muitas as dificuldades para juntar obras deste nível procedentes de diferentes museus. Um esforço da direção do Prado, que tendo em conta os resultados, bem valeu a pena.

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