David por David. Fonseca tocou de memória Bowie

"Bowie 70" é o projeto em que o cantor português homenageia o camaleão britânico, falecido em 2016. Com a ajuda de outras 12 vozes portuguesas.

David Fonseca comprou uma folha de papel gigante, colou-a na parede e fez um risco ao meio. Do lado esquerdo escreveu todas as canções de que se lembrava de David Bowie. Chegou a 25. E foi a partir dessa lista na parede que David começou a dar forma ao projeto que no dia 17 chega às lojas: Bowie70 - a homenagem que o músico português faz ao camaleão britânico, morto no ano passado, juntando outras 12 vozes portuguesas.

Uns meses depois da morte de Bowie, David Fonseca foi desafiado num almoço pela presidente da Sony Portugal, Paula Homem, "a fazer alguma coisa com o repertório do David Bowie". A primeira resposta foi uma nega tímida. "Saí da reunião e disse "vou pensar nisso, mas digo-te já que isso não vai acontecer"." Aconteceu: em casa, David começou a pensar como seria pegar e dar a volta ao livro de canções de David. "Resolvi arriscar e arrisquei logo com a primeira canção que eu conhecia do Bowie, o Blue Jean, e adorei a versão" - e desta nasceu mais uma e outra e outra. E pensou em fazer o disco inteiro.

Do outro lado do risco desenhado na folha, David Fonseca escreveu os nomes dos "cantores todos" que "admirava". E foi colando nomes às canções, conforme as versões que ia fazendo. "Eu faço as versões de memória, ouço as canções uma vez ou duas, depois nunca mais as ouço, tiro a estrutura, os acordes. Depois não quero saber. Quero que a minha memória avarie a canção." E ao DN David explicou David, ou como Fonseca tocou e cantou Bowie, muitas vezes cantando os sons pelo meio das palavras.

Tiago Bettencourt - Absolute Beginners

É uma memória claramente de adolescência e faz-me lembrar - e eu vou dizer coisas muito parvas - uma loja de vinis que se chamava Electroliz, em Leiria, e que vendeu todo o material. Ou porque tinham aberto falência ou iam fechar portas, já não sei. Eles venderam os vinis todos a 70% do preço e foi lá que comprei o Absolute Beginners. Não conhecia o tema e lembro-me de que comprei o disco porque gostei da capa, tinha uma lambreta na capa. Quando fiz a versão pensei em bandas como os Mazzy Star e achei que a voz do Tiago era perfeita para aquilo. Na canção original é tudo um bocadinho festivo, folclórico, muito anos 80, uma pessoa podia quase marchar por aí fora, uma coisa muito gloriosa, mas gosto da letra, que diz uma coisa muito bonita que escapa no meio daquilo tudo, por isso trouxe a canção mais cá para baixo.

Manuela Azevedo - Modern Love

É uma das minhas favoritas do David Bowie. Há pouco tempo estava a ver um filme chamado Frances Ha e há uma sequência com o Modern Love, uma miúda a correr, uma câmara a acompanhá-la de lado, tchan, tcharan, e eu não estava à espera. Lembro-me de pensar que a música é absolutamente inacreditável. A Manuela apareceu por causa da versão porque é tão radicalmente diferente da versão original que andava à procura de uma pessoa doce mas ao mesmo tempo meio amarga. A voz da Manuela tem essa capacidade, anda assim num sítio meio invisível.

Sean Riley (Afonso Rodrigues) - Let"s Dance

Eu toco a canção ao vivo, a versão original... Nesta versão quis integrar um elemento da banda e ir com ele até ao fim. Quando trabalho em estúdio, trabalho tudo em partes e vou acrescentando. Aqui somos uma banda, eu toco bateria, baixo, guitarra, órgão e piano. São estes os instrumentos e toco os cinco como se fôssemos uma banda para ele cantar. Funcionou neste sentido porque é assim que o Afonso costuma trabalhar, tentei aproximar do que ele costuma fazer nas suas bandas.

António Zambujo - Life on Mars

O Zambujo foi fácil. A certa altura na primeira versão que fiz havia um loop de uns djambés, que está lá metido no meio, numa parada brasileira, e ouve-se uma coisa lá no fundo que faz (e cantarola o som de um instrumento) e eu escrevi a música toda em cima daquilo. Não foi em cima do ritmo original, por isso a música tem assim um balanço muito brasileiro. É das que conheço mais, que mais ouvi, sei a letra de cor, confesso que a parte do Bowie que mais me cola nunca foi a dos anos 70, sempre foi a partir dos 80, mas tem a ver com a idade em que o descobri. Quando se vai para trás e se redescobre não é a mesma coisa que as canções fazerem parte da minha vida, não é a mesma coisa que "eu ouvi esta música pela primeira vez quando dei um beijo a esta miúda numa discoteca". As canções do Bowie imiscuíram-se na minha vida, lembro-me do que estava a fazer quando as ouvi pela primeira vez.

Camané - Space Oddity

É a canção mais emblemática de Bowie e aqui não tive dúvida nenhuma: fiz a versão e já sabia que era o Camané que a ia cantar. Só a ideia de o ter a cantar é tão boa! Há uma coisa que tenho de dizer: considero o Camané a melhor voz masculina que já pisou o nosso país, duvido que haja alguém que lhe faça frente porque a voz dele vem de outro sítio, que eu não consigo descrever muito bem.

Catarina Salinas (Best Youth) - Blue Jean

Foi a primeira versão que fiz, ainda à experiência, e decidi logo que era a Catarina: já colaborou comigo mais do que uma vez, já cantou comigo ao vivo, somos amigos há muito, e ela tem qualquer coisa na voz. A versão que fiz era muito mais sensual do que o original, muito mais para baixo, lembrei-me logo daquela voz rouquinha dela, aquela coisa com muito ar. Blue Jean foi a primeira canção que ouvi do Bowie, vi-a e ouvi-a, num vídeo, e lembro-me de ficar muito intrigado, com 12/13 anos, com aquilo e aquele senhor, das pinturas que ele tinha na cara, no final as pessoas a estalarem os dedos (e estala também) em vez de baterem palmas... era um imaginário muito forte. E era uma altura em que os videoclips passavam na televisão.

Marta Ren - Fame

Também não foi muito difícil: adoro o Fame, eu descobri a versão de 91, só depois ouvi o original. Acho que o Fame não é nada mais do que dois ou três tipos a fazerem uma jam que nunca mais acaba num estúdio e gosto muito do que a música diz. É uma canção estupidamente cínica. Depois como aquilo é uma jam do princípio ao fim, lembrei-me da Marta porque ela tem um disco em que se vê que improvisa muito, que está habituada a esse tipo de abordagens, de jam. É a miúda ideal para fazer esta música. Não me enganei: chegou lá e arrasou.

Rita Redshoes - Heroes

A Rita é a pessoa que eu melhor conheço destas pessoas, tocou comigo anos e anos. Eu tinha de fazer o Heroes! A última vez que passei o Heroes foi no casamento de um amigo, escolhi-a para música de entrada. Mas tinha um problema muito duro: a linha principal é uma linha de guitarra feita pelo Robert Fripp e pelo Brian Eno. Eu pensei que nunca conseguiria chegar, nem sequer de perto, daquele tipo de som e fiz uma coisa desleal: não há nenhum instrumento que ultrapasse a voz, então pedi à Rita para fazer a linha de guitarra.

Márcia - This Is Not America

Também pensei logo na Márcia: é uma pessoa muito ativamente política e achei que seria uma música que ela iria gostar de cantar, tal e qual. Ela adorou logo a ideia, porque é uma proposta que vai ao encontro do que ela pensa. O que ela não sabia é que depois eu ia transformar a versão numa espécie de trip-hop feito no inferno. Confesso que quando fiz a versão pensei que não se parecia com nada, que me ia distanciar de tudo o que tinha feito até então. Foi uma versão muito out of the blue e pedi-lhe para ela fazer com a voz o inverso do instrumental: ela canta muito doce e muito leve, quase segreda. É uma das que mais adoro do Bowie.

Ana Moura - The Man Who Sold the World

É uma música que me é muito específica, que conheci com os Nirvana, quase como 98% da população e vi a canção ser tocada ao vivo pelos Nirvana. Fiz para a Moura logo de início, quando tive uma ideia de dividir numa cadência Nick Cave... Pensei na Ana por causa dessa subdivisão: tinha visto um espetáculo da Ana, no ano passado, e cada vez que ela cantava uma coisa mais dura, mais escura, eu gostava mais, muito mais... É quando eu gosto mais dos fadistas.

Aurea - Starman

A versão encontra-se muito dentro daquele território funk branco nova-iorquino, porque é uma coisa meio rock"n"roll. E pensei: "Quem é que vou tirar do seu lugar confortável para fazer isto?" Não queria um roqueiro, queria alguém que se pudesse aventurar naquele sítio, e lembrei-me da Aurea, porque ela tem uma capacidade vocal impressionante e se há uma miúda que de repente chega aqui e consegue arrasar a canção para onde ela quiser é esta miúda... e não me enganei.

Rui Reininho - Where Are We Now

Ele era a pessoa que eu tinha a certeza de que tinha de participar neste disco! Ele adora o Bowie. Telefonei-lhe, propus-lhe esta ou aquela, e ele é que me disse: "E se fosse o Where Are We Now?" E olhei para a lista e lá estava ela. Eu disse-lhe que era uma excelente ideia mas que ainda não tinha tentado fazer uma versão. É uma das minhas músicas favoritas do Bowie, que merecia muito mais airplay, mais destaque, é brilhante.

David Fonseca - Lazarus

Eu canto o Lazarus no disco porque tive um convidado que não pôde aceitar - até queria, mas tinha outros compromissos - e não consegui arranjar ninguém para o substituir. Acredito muito na forma natural como as coisas acontecem e pensei que era engraçado que a única pessoa que não arranjei para cantar foi a última música do Bowie, o Lazarus. Então fico eu com ela, canto eu, aliás, já tinha cantado, numa maquete na versão original às quatro e meia, cinco da manhã e foi essa que ficou... Parece-me sincero, parece-me honesto o que lá está, que é um tipo a cantar às quatro e meia da manhã, no final de ter concluído essa maquete. A canção tem outras formas de interpretação que não necessariamente aquela que nós lhe damos por causa da morte de Bowie.

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