David Crosby, o velho hippie entre a erva e as armas

Fez parte de grupos musicais míticos e vive, agora, a sua fase solitária mais produtiva. Faz hoje 75 anos, entre zangas e harmonias... vocais. Novo álbum, "Lighthouse", sai em outubro

É provisoriamente definitivo: não voltaremos a ter notícias frescas e conjuntas de Crosby, Stills, Nash & Young (CSNY). Ou sequer de Crosby, Stills & Nash (CSN). Como, neste caso, será difícil repetir o chavão "a culpa foi da Yoko", parece legítimo assacar a maior dose de responsabilidade nesta rutura a David Crosby, o californiano desta história. Primeiro, incompatibilizou-se com Neil Young, acusando-o de se julgar melhor guitarrista do que realmente é e insultando a atual namorada do canadiano, a atriz Daryl Hannah. Mais recentemente, foi Graham Nash que publicamente denunciou o seu velho parceiro: "Tomei conta dele durante 45 anos, salvei-lhe a vida algumas vezes e, nos últimos dois, fui repetidamente insultado, por todos os meios. Agora, chega!"

Na base do "mau feitio" de Croz parecem estar algumas passagens da autobiografia de Nash - Wild Tales: A Rock & Roll Life -, que lhe dizem respeito e que considerou "pouco verdadeiras". Valerá a pena recordar que, quando o fantástico quarteto partiu, Crosby e Nash ficaram de um lado, gravando em dueto quatro álbuns de estúdio e mais dois ao vivo, Stills e Young do outro, considerado mais criativo. Mas é a Crosby que se devem, por exemplo, hinos como Guinnevere, Wooden Ships, Déjà Vu e o épico Almost Cut My Hair.

Noutras ocasiões, já houve trabalho conjunto deitado para o lixo ou apenas reaproveitado. Em 1973, depois de uma sessão de gravação na quinta de Young, os CSNY cancelaram a edição do álbum que estava previsto. A diferença maior está nisto: hoje, todos eles deram o salto para dentro da área demarcada dos septuagenários, algo que não joga a favor do tempo como fator curativo. Por isso mesmo, as probabilidades apontam para que não cheguemos a ouvir - pelo menos em vida dos quatro protagonistas - o disco de versões que os CSNY andaram a preparar ao longo de um ano, com o produtor "midas" que é Rick Rubin (que, entre outros feitos, revitalizou Johnny Cash e o acompanhou até ao fim).

Croz está disposto a não dar parte de fraco neste combate: se Graham Nash publicou recentemente This Path Tonight, David vai responder a 21 de outubro, com a edição de Lighthouse, que sucede a Croz (2014). Um recorde, para um homem que esperou 18 anos para passar de If I Could Only Remember My Name (1971) para Oh Yes I Can (1989) e, depois, demorou 21 para dar continuidade a Thousand Roads (1993) com o já citado Croz. Há mais, espanto dos espantos: o disco seguinte já mora no computador, diz Crosby. Da fome à fartura.

No olho do furacão

A pressão e a necessidade de seguir em frente já lhe renderam outros triunfos: há quase meio século, quando Roger McGuinn e Chris Hillman o despediram dos Byrds, de que foi fundador, alegadamente por "divergências musicais" mas, em boa verdade, por estarem fartos das diatribes políticas de Croz entre as canções, nos concertos da banda, Crosby foi o primeiro a procurar Stills, só depois surgindo Nash e, posteriormente, Young.

Quem olhar para o percurso de Crosby perceberá que este raramente se cruza com a ideia de equilíbrio. Em 1970, na sequência da morte da sua namorada à época, Christine Hinton, Crosby mergulhou fundo nos consumos excessivos. O título do seu disco de 1971, If I Could Only Remember My Name, não poderia ser mais ajustado ao que se passava. De resto, Croz reconheceu que não teria escapado a um fim precoce e continuado a compor e a gravar sem a ajuda dos amigos: Joni Mitchell, Grace Slick e Paul Kantner (ambos dos Jefferson Airplane), Jerry Garcia (dos Grateful Dead) e Gram Parsons, entre outros.

Muito mais tarde, em 1997, voltaria a cruzar-se com a tragédia, quando o seu irmão mais velho, Ethan, que ensinou David a tocar guitarra, se suicidou. De resto, o próprio Croz esteve perto da morte: além de problemas cardíacos e com a diabetes, teve de submeter-se a um transplante de fígado (1994). A operação foi paga por Phil Collins, com quem tinha trabalhado anteriormente.

Além dos seus parceiros mais conhecidos, Croz tocou com meio mundo: com Jerry Garcia e outros músicos dos Grateful Dead, chegou a formar um grupo só para concertos, David & The Dorks. Gravou vozes com Joni Mitchell, James Taylor, Art Garfunkel, John David Souther, Carole King, Elton John, Hot Tuna, Phil Collins, Indigo Girls, Lucinda Williams e David Gilmour. Durante a década de 1990, formou os CPR, aproveitando as iniciais Crosby, Pevar (Jeff Pevar, guitarrista) e Raymond (James Raymond, pianista e... filho de David, tardiamente reconhecido pelo pai) e simultaneamente ironizando com a sigla que designa a reanimação cardiorrespiratória (em inglês, cardiopulmonary resuscitation). Crosby tem mais três filhos, sendo apenas o mais novo resultado do seu atual casamento com Jan Dance. Isto não contando com o seu contributo, por inseminação artificial, para os dois filhos do casal de lésbicas formado por Melissa Etheridge e Julie Cypher.

No lado negro, foi detido, multado e preso várias vezes por posse de drogas, mas também de armas ilegais. Chegou, aliás, a "estagiar" nove meses numa prisão texana. Mais feliz é a sua memória náutica, a do barco que possuiu durante décadas, o Mayan, a bordo do qual terá escrito algumas das melhores canções. Vendeu-o em 2014 mas continua em velocidade de cruzeiro.

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