Blackstar. David Bowie tão intrigante como sempre

Referências ao Daesh e ao filme Laranja Mecânica? Uma reviravolta jazzista? Blackstar é um mistério

Se atentarmos para a capa do 25.º álbum de David Bowie, Blackstar, que chegou às lojas no dia do seu 69.º aniversário, vemos apenas uma grande estrela negra e, em baixo, outras cinco estrelas recortadas que podem querer indicar o nome Bowie. Este é também o primeiro disco do músico desde a sua estreia homónima há 49 anos em que o próprio não aparece na capa. Sinal da (quase) reclusão a que se sujeitou desde que em 2004 foi submetido, de urgência, a uma intervenção cirúrgica ao coração? Dele não há entrevistas nem concertos. Ainda recentemente foi o ator Michael C. Hall quem interpretou o mais recente single de Blackstar, Lazarus, no programa The Late Show with Stephen Colbert. O mistério da capa vai ao encontro do que se ouve neste álbum, uma obra intrigante que o leva para espaços distantes das formas pop a que nos habituou.

Nunca se fechou no seu mundo

É verdade que David Bowie raramente foi um músico de se conformar a um só universo musical. Mesmo nos últimos anos, desde o álbum hours... (1999), passando por Heathen (2002), Reality (2003) e The Nex Day (2013), em que olhou regularmente para o seu passado, tentando sempre não cair num exercício meramente nostálgico, mas refletindo sobre as suas próprias referências, Bowie nunca se fechou só no seu mundo. Mas nem este gosto constante pela mudança indicava que, quase a chegar aos 69, o músico ainda criasse uma obra tão intrigante quanto Blackstar, em que se deixa embrenhar pela liberdade formal do jazz, abraçando as eletrónicas e ritmos quebrados com origens na escola krautrock.

Ainda que o lançamento deste novo álbum também tenha estado envolto em mistério, esse não foi tão denso quanto foi o seu regresso às lides musicais há sensivelmente 3 anos. Era dia 8 de janeiro de 2013 quando foi lançado, para surpresa de todos, o single Where Are We Now?, que apresentava o álbum The Next Day, pondo então fim a 10 anos de silêncio por parte de Bowie. A capa replicava a do álbum "Heroes" (1977), cujo título aparecia riscado, e em que a cara do músico ficou tapada por um grande quadrado branco no qual se podia ler The Next Day. Estaria, então, Bowie, simbolicamente, já a distanciar-se da sua própria imagem? O disco acaba por ser uma amálgama de referências a obras passadas do músico, como Scary Monsters (1980), Young Americans (1975), Diamond Dogs (1974) ou The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), mas agora que chega este Blackstar não deixa de ser percetível que o cantor está, certamente, a viver uma nova fase, fulgurante, do seu percurso, em que a música e as palavras que canta têm de valer por si só, não o que diz em entrevistas ou como se apresenta em palco.

A importância de Maria Schneider

No final de 2014, aquando do lançamento da tripla coletânea Nothing has changed, desvendou um pouco do véu do que poderia vir a ser este Blackstar com o inédito Sue (Or In a Season of Crime), gravado com a orquestra de Maria Schneider, no registo de uma big band de jazz. No lado b desse single foi então revelado outro inédito, Tis a Pity She Was a Whore. Podia-se adivinhar que o que se seguiria seria uma mudança um pouco mais radical do que aquelas que tinha vindo a encetar nos últimos anos. Ambas as canções foram regravadas e aparecem de novo no alinhamento de Blackstar, adaptando-se aos ambientes densos que povoam este álbum.

Mesmo que não apareça neste novo disco, Maria Schneider é, certamente, uma das responsáveis por esta reviravolta que David Bowie agora nos apresenta. Foi, pelo menos, uma intermediária central em toda esta história. Foi a artista que em 2014 sugeriu a Bowie ir ver um quarteto de jazz liderado pelo saxofonista Danny McCaslin, num clube de jazz recatado em Nova Iorque, de onde o músico não sai há anos. Dez dias depois Danny recebeu um e-mail de Bowie desafiando-o a ele e ao baterista Mark Guiliana para a gravação de Sue (Or In a Season of Crime). Meses depois, McCaslin e o seu grupo entravam em estúdio para gravar o que viria a ser este Blackstar, em que é crucial a presença do saxofone em longos improvisos, que enformam o espírito exploratório deste álbum.

Presente está também o produtor de sempre, Tony Visconti, e James Murphy, líder dos recentemente reunidos LCD Soundsystem, que, inicialmente, era para ter um papel muito mais preponderante, tendo acabado apenas por tocar percussões em dois temas.

Simultaneamente, Bowie trabalhou também no musical off--Broadway "Lazarus", baseado no filme "O Homem que Veio do Espaço" que o próprio protagonizou em 1976, tendo o ator Michael C. Hall (Dexter) sido o escolhido para vestir o papel que então Bowie desempenhou. A canção que dá título ao espetáculo aparece agora em "Blackstar", um disco que aglomera referências ao filme Laranja Mecânica (1971) e, possivelmente, ao Daesh, ainda que mensagem final seja tão críptica como surpreendente.

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