Dançar até ser dia e acordar na praia de Sines

Muitos foram aqueles que dançaram até ser dia e acordaram na praia de Sines. O Festival Músicas do Mundo prossegue a bom ritmo

A fasquia estava alta e Bixiga 70 não falhou a quem encheu o castelo de Sines ontem à noite para assistir à atuação do grupo brasileiro de São Paulo. Falou de "golpe de estado", como é usual nos concertos, mas estava naquele palco alentejano para "fazer a festa" e arrancar dança do público, que respondeu logo aos primeiros acordes. Tanto dentro do castelo como lá fora, onde largas centenas seguiram os concertos à boleia dos ecrãs gigantes.


A banda criada em 2010 num dos bairros mais multiculturais de São Paulo (Bixiga) se apresentava-se ao estilo das grandes orquestras de música africana, com guitarras, saxofones e trompetes, mas prometia também apostar num cunho virado para a intervenção. Aliás, a política e a alusões ao momento político brasileiro também marcaram a passagem dos dez músicos do grupo pelo Festival de Músicas do Mundo, enquanto foram "desfiando" sons afro-latinos, fundindo o "afrobeat e a música mandinga guineense com o candomblé, samba e cumbia".


Passava das duas e ainda se saltava no castelo. Mesmo quem tinha começado cedo a pular ao ritmo de Danyèl Waro, prémio Womex 2010. Chamam-lhe "gigante da música de Reunião", ilha do Índico sob administração francesa e subiu ao palco às 22.00, exibindo o estilo de música maloya, criado nas plantações de cana-de-açúcar pelos escravos e trabalhadores pobres de origens africanas, malgaxes e indianas.


Seguiu-se Noura Mint Seymali, apresentada pela organização do festival como "a nova estrela" da música de Mauritânia, que começou a carreira aos 13 anos como vocalista de apoio à madrasta, a célebre Dimi Mint Abba. Foi o pai, estudioso de música na Mauritânia, que a ajudaria a formar-se como compositora. Foi ele que antecipou Bixiga 70, cabendo ao grupo brasileiro encerrar a noite no castelo, enquanto o festival descia até à marginal.


Foi no palco instalado na Avenida Vasco da Gama que atuaram os The Comet is Coming, grupo de música de Londres, e o DJ Satelite, natural de Luanda, que pegou no leme às quatro da manhã para dar música quase até ser dia.


Com o areal ali ao lado não faltou quem tivesse optado por adormecer mesmo na praia, recusando subir a íngreme ladeira até ao centro da cidade. Perto do meio-dia ainda havia quem continuasse deitado a dormir na praia, vestido com a roupa da noite, indiferente aos banhistas que iam passando.


Hoje pelas 17.00 sobe ao palco do Centro de Artes Filho da Mãe, projeto a solo do açoriano Rui Carvalho, enquanto Bitori atua no castelo a partir da 18.45. Trata-se de Vítor Tavares, uma lenda do funaná. Às 20.00 é a vez de Los Pirañas, banda alternativa do Bogotá, seguindo-se David Murray Infinity Quartet feat. Saul Williams. O tunisino Imed Alibi é o percussionista que se segue, estando o fecho da noite no castelo a cargo de Konono nº 1 meets Batida.

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