Da garagem para o palco principal do Bons Sons

Os Lodo, um grupo de jovens músicos de Cem Soldos, era um dos mais esperados na segunda noite de concertos no festival

Daquele portão aberto sai um barulho em forma de La Bamba e de Twist and Shout. Ali fica o Palco Garagem do festival Bons Sons, um palco que tal como o nome indica fica numa garagem e existe para receber quem lá queira ir tocar. Basta fazer a inscrição e aparecer à hora marcada, nem sequer é preciso levar instrumentos porque já lá estão umas guitarras, uma bateria e um microfone. Bernardo, João Rufino, João Cotovio e Carlitos, os quatro elementos dos Lodo, conhecem bem este palco - atuaram ali nos últimos dois anos. Mas, neste ano, dão um passo gigante. Iam apresentar-se ontem à noite no palco Eira.

Cem-soldenses, com idades entre os 20 e os 30 anos, são estudantes e trabalhadores, mas ocupam grande parte do tempo livre com a música. Bernardo e Carlos começaram por ter bandas de covers, mas quando há três anos decidiram avançar para um grupo de originais decidiram desafiar os outros dois amigos. Bernardo toca baixo, João Cotovio guitarra, João Rufino toca guitarra e teclas, e Carlos toca bateria. Todos cantam, mas pouco porque a sua música é mais instrumental.

"Chamamo-nos Lodo porque o nosso som é sujo. É o oposto da água pura e cristalina", explica Carlos. A nossa onda é mais pós-rock, uma música mais experimental", diz João Rufino. "Juntamos muitos estilos, entre o eletrónico e o indie, porque não há compositor, compomos em conjunto e cada um traz a sua influência." Passaram o primeiro ano na sala de ensaios, com as paredes forradas por folhas de jornal, até fazerem o primeiro concerto no espaço do Centro de Exposições: "Já tínhamos umas sete ou oito músicas e ainda tocávamos duas covers, dos Linda Martina e dos Dead Combo, e o concerto tinha já 40 minutos", recordam. A partir daí começaram a procurar outras oportunidades para se apresentarem, ganharam concursos e, no ano passado, foram uma das bandas que atuaram no pórtico do NOS Alive. Em dezembro também gravaram um EP, editado por conta própria. "Tudo feito por nós e pelos amigos."

Mesmo se este ano vão estar num palco grande, numa área com capacidade para cinco mil pessoas, os Lodo guardam as melhores recordações dos concertos no Palco Garagem. "Avisamos a nossa malta e acaba por ser muito porreiro." Como todos fazem parte da equipa técnica dos palcos e passam esta semana a trabalhar intensamente e quase sem dormir, aqueles 40 minutos a tocar, seja para meia dúzia de pessoas ou para cinco mil, é o "momento para desbundar um bocadinho" e relaxar a meio do festival.

Os Lodo, além de um orgulho para Cem Soldos, são também um dos exemplos do modo como o festival contribui para a autoestima e a capacitação da população da aldeia. A "sustentabilidade social" é um dos vetores mais importantes do evento. Trata-se, explica Luís Ferreira, diretor do Bons Sons, de "usar o que a terra tem e envolver as pessoas". Depois há ainda, e muito ligada com a primeira, a sustentabilidade económica de um festival que é 70% autofinanciado.

Por último, vem a sustentabilidade ambiental que, admite Luís Ferreira, é talvez o elo mais fraco. As canecas são distribuídas com os passes gerais mas ainda não são uma prática comum entre os festivaleiros. "Temos pedido às pessoas das barraquinhas para que insistam nas canecas, para que deixe de ser um brinde e passe a ser usada para beber, mas não é fácil", admite. "Este é um festival feito com as pessoas, com diferentes ritmos e hábitos. Não queremos impor nada. Nem sei se seria desejável."

De qualquer forma, apesar dos copos, pratos e talheres de plástico que ainda se veem no recinto, existem preocupações ecológicas. "Sempre que possível usamos materiais reciclados, nos palcos e nas barraquinhas. Até porque isso também significa poupança. Mas sabemos que ainda temos muito por fazer nesta área."

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