Cristina Branco: "Este disco é a minha liberdade. Cheguei à minha juventude"

Deixou de cantar apenas fado mas o fado é como a estrela da árvore de Natal: está lá a pairar, a brilhar sempre. O novo disco, Branco, é a afirmação de uma mulher que deixou para trás o supérfluo e tomou a vida nas mãos

A terra dela é Almeirim, onde os pais moram e ela tem as raízes e uma casa, mas divide-se entre Lisboa e Amesterdão. Pediu canções aos autores de quem mais gosta e o resultado são 12 temas onde o fado emerge apenas uma vez e pela mão do inesperado Luís Severo. Um disco feito a quatro: com Luís Figueiredo (piano e percussão), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Bernardo Couto (guitarra portuguesa). Amanhã mostra-o em Bragança, na sexta em Ílhavo e no sábado em Braga. Lisboa e Porto vão ouvi-lo em maio.

Como decide fazer um disco, qual é o processo?

É quase doloroso. É imaginar tudo o que vai existir à volta, que vou ter de defender, em que vou ter de acreditar antes de mais ninguém. Vou ter de vestir a pele desses doze personagens. Não é evidente, não se faz de forma leviana. Hoje fazer um disco é sempre um processo de catarse. Além da música, saio sempre com a sensação de que cresci um pouco.

Neste caso tem autores como o Sérgio Godinho, o Kalaf...

Brilhantes, todos.

A gravação foi feita com poucos músicos. Isso dá-lhe mais conforto?

É a minha formação de há uns anos a esta parte. Resolvi assumir de vez o facto de termos uma sonoridade tão própria, tão nossa, nós os quatro. Por que não produzirmos nós mesmos o disco? Ou seja, pegar nas letras e nas músicas destes autores e continuarmos nós a fazer o som sem deixar que mais ninguém interfira nele. Não é preciso muitos músicos para fazer muita música. E fazer silêncio também.

Toda a produção musical é vossa. Como fazem?

Começa tudo em mim. Sou eu que recebo os textos e as músicas e começo a ouvir lentamente, a tentar digerir e chegar a algumas conclusões de coisas que possam estar menos bem.

Pediu as canções aos autores?

Eu peço as canções aos autores e não vão para mais ninguém antes de passar por mim. Não é um crivo, não gosto de lhe chamar assim, mas sou eu a pessoa que as recebe. Acontece por vezes - que há canções que vão ficar de parte, por uma razão ou outra, ou porque não me apetece cantar aquele tema ou aquelas palavras. Essa é a primeira fase. Depois passa para eles, vamos ouvir juntos. Vou mostrando e vamos tentando criar o nosso universo.

Estão juntos com muita frequência?

Sim, trabalhamos muito, felizmente. Muita estrada.

Escreveu: É o disco em que prometo livrar-me de qualquer preconceito, juntando realidades que se transformam gradualmente num novo normal, em que tudo é possível e as alternativas se revelam claras, nítidas. O que quer dizer?

Quer dizer imensa coisa. À medida que vou crescendo e envelhecendo - sem ser de uma maneira pejorativa - vou-me livrando de peso e de véus que a vida construiu à minha volta, sobretudo quando era mais jovem e tinha menos experiência. Coisas supérfluas. É a tentativa de me livrar de tudo isso. Quando falo de novo normal, é olhar para essas músicas e para aquilo que eu quero ser e dar aos outros, comunicar aos outros - porque a música também é isso mesmo, não só no concerto mas também no disco - que é importante repensarmos o mundo em que estamos a viver, que passou a ser um mundo de espelhos e de filtros, em que já muito pouco daquilo que nós olhamos à nossa volta é real. Começamos a pensar: o que é que aqui é real? E fazemos uma filtragem do que está à nossa frente. E isso é perigoso, ou pode ser muito perigoso. O papel de um músico também é deixar isso bem claro para quem nos ouve, alertar para isso.

O primeiro preconceito era o fado?

Não, de maneira nenhuma. O fado, aliás, está hoje mais presente na minha vida, de uma maneira mais intensa e mais profunda do que alguma vez esteve.

Explique-me lá isso.

É como um ecrã sempre dentro da minha cabeça ou, de uma maneira mais figurativa, é como a estrela da árvore de Natal. Está sempre lá a pairar e a brilhar e a dizer que é preciso manter aquela matriz. Para mim é importante a influência daquela linguagem. E é inevitável, porque foram 20 anos de fados. Fados feitos para mim, muito pouco fado tradicional. Fui percebendo melhor a tradição e entrando nela de uma maneira muito própria, sozinha. Nunca fui muito de circular pelas casas de fado ou de conviver com algumas pessoas do fado, mas sobretudo de ouvir as pessoas sem me imiscuir naquele meio, por achar que sou sempre um pouco à parte. Mas percebo melhor, respeito cada vez mais e ele está sempre presente.

Na última canção do disco Branco, chamada Minha Sorte, letra e música do Luís Severo, senti que há fado e nas outras não.

Eu também, e tentámos que assim fosse. O Luís Severo, um autor de 25 anos que não é do fado, pelo contrário, está nos antípodas, confessou-me que além de gostar muito de fado e de ser um fã de Alfredo Marceneiro, ele próprio gostaria de cantar fado, mas a dada altura percebeu que a voz dele não era para ser usada nesse género. Disse-lhe: então por que não fazes um fado, se é isso que te apetece? "Era o que eu estava a pensar fazer para ti". E o resultado é o Minha Sorte. Acabámos por entrar nessa atmosfera, é o momento do disco mais próximo do universo do fado.

Nas outras canções também está a guitarra portuguesa.

Está, mas não é fado.

A sua música aproxima-se do jazz mas não é jazz. O que é?

Ui, eu não sei como classificar. Sei que as pessoas têm a necessidade de catalogar os artistas e os músicos e os géneros e tudo o mais, mas eu não tenho um nome para isto. Se calhar, essa influência vem do facto de dois dos músicos serem do mundo do jazz - o Bernardo Moreira e o Luís Figueiredo. O Bernardo Couto é do fado, toca a guitarra portuguesa. Essa mistura finíssima dá este resultado, este som próprio que as pessoas apelidam de "isto só pode ser Cristina Branco". É uma coisa um bocadinho fora. Nós tentamos que a guitarra portuguesa seja ainda mais orgânica, tentamos perceber que aquelas doze cordas têm muito para dar, muito além daquela estrada que se definiu como o caminho que a guitarra portuguesa deve fazer dentro do fado. Há outras coisas, tem muito potencial, e sobretudo com um músico muito eclético, que ouve todos os géneros de música como o Bernardo, é natural que ele depois recorra a isso como se fossem instrumentos, e tente trazer esse potencial da guitarra para a nossa linguagem.

Há uma canção do Sérgio Godinho, Armadilha, que tem uma letra muito...

...muito Sérgio.

Quando lhe pede uma canção, como é?

É maravilhoso falar com o Sérgio, porque dá sempre bons conselhos e tem sempre coisas fantásticas para me dizer. É uma pessoa que eu - venerar é uma palavra um bocado forte - respeito muito desde muito antes de começar a cantar ou de pensar em ser cantora. É uma pessoa muito importante na minha vida. Ele vai-me falando das músicas que cantou e que eu repeti no meu repertório, o que é acha da maneira como o faço. Acho que temos um respeito mútuo e é uma coisa muito bonita. Ao ouvir-me cantar essa música que o Sérgio fez para mim fiquei muito comovida e achei que era a minha melhor homenagem a ele. Mostrei às pessoas e todas disseram: isto só pode ser Sérgio. A letra é notoriamente Sérgio Godinho e a música também, mas a minha interpretação está muito mais próxima. Eu, que tenho uma interpretação tão própria e tão vincada, não consigo livrar-me daquele espetro que é a voz e a maneira de cantar e de conduzir a música do Sérgio.

Tem duas canções com letras do Kalaf, uma com música do Mário Laginha, Noite onde vais cheia de pressa. O Mário Laginha que é um velho comparsa.

Sim, já fizemos várias coisas juntos.

E a outra chama-se Casa e tem música do Toty Sa"med. Quem é?

É um menino. É angolano, não vive cá mas começa a aparecer mais no cenário musical português. Para muita gente ainda é um jovem desconhecido mas é talentosíssimo. Vão ouvir falar muito dele.

Tem também o Filipe Sambado, o André Henriques, o Filho da Mãe...

Que é o Rui Carvalho, eles usam os nomes dos projetos deles...

...o Jorge Cruz, a Beatriz Pessoa, o Afonso Cabral, o Nuno Prata, o Peixe, e o Luís Figueiredo com a canção Eu. Eu é a Cristina?

Não sou eu, é outra pessoa. Pensámos fazer a letra a dois mas era muito confuso. Às tantas o Luís fez a letra e perguntou-me o que eu achava e eu não quis mexer em nada.

Vive em Almeirim?

Não, vivo entre Lisboa e Amesterdão, tenho duas moradas. Os meus pais estão em Almeirim e tenho lá uma casa. É óbvio que é uma raiz forte ali, vou muitas vezes lá, continua a ser a minha terra.

E Amesterdão?

É a minha segunda casa.

Foi a Holanda que a lançou.

E tantos anos volvidos continua a ser o país onde mais trabalho. Vamos passar o mês todo de abril na Holanda. Ainda hoje há uma ligação, é incrível.

Fala holandês?

Percebo se eles falarem devagarinho. Como vivi com a família toda em Amesterdão durante três anos, os meus filhos falam holandês, mas eu não. Algumas pessoas ficavam incomodadas por eu não falar mas a verdade é que toda a gente fala inglês, não tenho oportunidade de praticar o meu pobre holandês.

É uma língua difícil.
Para os meus filhos não. Sobretudo para ela - ele aprendeu muito pouco. Ela em seis meses estava a falar corretamente a língua.

Como é a sua vida na Holanda? Muitos espetáculos?

Este ano são 13 concertos, num país que é do tamanho de uma caixa de fósforos. As pessoas conhecem o meu percurso e têm sempre aquela curiosidade muito própria dos países do norte : quando gostam de uma coisa gostam de perceber para onde evolui. E como há sempre evolução, nunca houve estagnação, da minha parte, as pessoas continuam a ir e ter essa curiosidade.

Reconhece alguns fãs?

Sim, as pessoas fazem-se notar.

Vão conversar consigo?

E eu faço questão de conversar com elas.

É diferente a maneira como as pessoas reagem a si em Portugal e na Holanda?

Os holandeses reconhecem-me e os portugueses não.

Reconhecem-na na rua?

Não sou propriamente a Madona mas reconhecem-me. Por exemplo na viagem Lisboa Amesterdão reconhecem-me, "está aqui a Cristina". Mas são muito educados e discretos, é bonito, não é uma coisa estranha. E acontece haver portugueses à volta que olham para mim com este ar banal, espreitam para ver quem é, não percebem. É uma delícia.

Incomoda-a que os portugueses não a reconheçam?

Não, porquê? Por que é que as pessoas têm de nos reconhecer? Eu também não as reconheço.

Como faz a divisão do tempo entre Lisboa e Amesterdão?

Vou tentando gerir. Como vou estar lá um mês, os meus filhos estarão comigo na última semana porque coincide com a semana de férias da Páscoa e eles vão rever os amigos. É difícil, mas um voo são duas horas e meia. Já aconteceu ir e vir no mesmo dia.

Disse que o fado está hoje mais presente, mas ao longo dos discos percebe-se um afastamento cada vez maior.

Isso deixa-me triste. Não é um afastamento porque para mim está sempre muito presente. É como um filme que está na minha cabeça e que eu sinto, porque a essência tem de estar lá, seja na maneira de abordar os textos, na profundidade que dou àquilo que estou a contar, seja por uma tentativa de explicar as palavras com correção. Não sei se acontece sempre assim, mas eu sinto que ele está lá. Esse afastamento de que fala, e que outras pessoas irão com certeza, tem a ver com a minha procura, com a minha necessidade. Acho que cheguei à minha juventude. E o fado, por muito difícil que seja admitir, é uma música algo envelhecida, hermética. Tem aquelas 180 músicas - estou a falar da tradição, onde nós podemos pôr múltiplos textos, mas não há muito por onde fugir. Só que a minha cabeça foge sempre para outras coisas, sempre fugiu.

Cantar em palco é melhor do que em estúdio?

É diferente, porque no estúdio é como estar aqui, há um foco, um silêncio, um vácuo que ajuda a concentrar e a construir a história daquele disco, daquele trabalho que estamos a fazer. O palco é outra coisa, é a explosão das emoções e a explicação para mim mesma daquilo que acabei de fazer no estúdio. São momentos diferentes da história que esse disco está a ter e para onde ele me vai levar.

No palco, sente a presença do público? Sente variações?

Agora sim. É muito curioso. Na semana passada estive em Paris e o concerto estava esgotado, a sala estava cheiíssima. Senti um lapso, uma coisa de três segundos, de uma maneira tranquila mas muito bonita. As pessoas compraram um bilhete possivelmente para ir a um concerto da fadista Cristina Branco. No entanto, o concerto não começa com fado, aliás começa de uma maneira bastante intensa, sem ser monumental mas numa linguagem nos antípodas do fado. E sente-se um rumor nas cadeiras, há um incómodo. Acho que devem dizer para elas próprias "eu comprei um bilhete para ver outra coisa, estou a ouvir qualquer coisa de muito diferente, mas estou a gostar". Isto é tão gratificante. E é muito recente. Normalmente tento afastar-me do público para poder concentrar-me, isso é uma coisa recente mas já é passado. Hoje o público é uma coisa mais intensa, mais vivida. Está mais presente, participa mais do meu espetáculo. Eu permito-me participar das emoções deles e ter o retorno também.

Disse: cheguei à juventude. O que quer dizer?

Havia muitos mantos em cima do que eu estava a fazer. Comecei a cantar com 23 anos, não conhecia nada do mundo nem do fado nem da música. Permiti sempre que outras pessoas opinassem por mim e que a sua opinião fosse preponderante sobre o meu sentir. E com o tempo fui-me livrando desses mantos, desses véus, e fui construindo a minha própria história. Hoje é no osso, é no arame, mas é a minha história, sou eu que a faço.

A idade adulta vem a seguir?

Ou não. Porque não fazer um Benjamin Button? Estou a brincar. Acho que é importante manter a frescura e a juventude de quem é curioso e está sempre à procura de ser melhor. Essa juventude agora não para.

Quando está sem cantar sente falta?

Canto sempre, até a dormir, segundo consta. Quando estou mais inquieta, quando estou a fazer um disco, canto muito durante o sono, deve ser terrível.

E anda pela casa a cantar?

Canto o tempo todo, desde jingles de rádio, anúncios de televisão, tudo, pareço as Páginas Amarelas.

Tem algum cuidado especial com a voz?

Há uns anos, fruto de variadíssimas coisas, comecei a sentir que a minha voz estava, não em retrocesso, mas havia momentos em que não estava no seu melhor. Fiz perguntas à minha otorrino e uma coisa que me despoletou a atenção foi o facto de ela dizer que a água é extremamente importante. "Beba imensa água, não deve estar a beber a água certa, tem de beber água o mais alcalina possível". Fiz o que ela me sugeriu e notei logo diferença. E comecei a fazer a minha própria história: se é assim com a água, vai ser também com a comida, e fui fazendo os meus menus a tal ponto que, num desses gigantescos tours na Holanda em que estava a viver em Amesterdão, assumi os caterings dos músicos, era eu que fazia tudo. Não sou minimamente ortodoxa, vou sempre misturando outras coisas, mas sempre com esse foco da comida alcalina, por forma a limpar o organismo e a livrarmo-nos de tudo o que é ácido.

E sentiu diferença na voz?

Brutal.

A sua voz é cristalina.

Tem muito a ver com isso. Não tenho mais nenhum cuidado especial, aqueço as cordas vocais quando vou cantar.

Ainda tem medo do palco?

Mete muito medo. É terrível, é devastador. Acho que não passa, está sempre lá, porque cada milésimo de segundo vale por isso mesmo. É a responsabilidade de falhar, de fazer qualquer coisa menos bem, de falhar comigo, de falhar com os outros. Está sempre lá mas dissipa-se de alguma maneira. Faz parte da adrenalina de estar em cima do palco.

Antes ou durante?

Antes é constrangedor.

Fica insuportável?

Fico. Fujo das pessoas, tento não estar perto, é só entrar.

Quando entra descomprime?

Dissipa um bocadinho.

E quando acaba?

Quando acaba é a descompressão total e só gostava de ter uma cama ali. Tenho a certeza de que fechava os olhos e ficava a dormir até ao dia seguinte. Depois passa, demora algum tempo mas fico esgotada emocionalmente. Não é fisicamente, podia fazer outro concerto a seguir, porque gosto, porque gosto imenso de cantar. Emocionalmente fico de rastos.

Os concertos que estão anunciados são em salas grandes, embora não gigantescas. Dão para concertos intimistas?

Sempre cantei em salas, nunca fui cantora de casa de fados. Não me assusta o espaço. Será sempre um concerto intimista, seja para 5000 pessoas ou para 500 ou para 50. Essa intimidade constrói-se com o público, com as pessoas e não com o espaço.

Como gere o silêncio?

Pode ser constrangedor. Às vezes preciso de pensar e de respirar entre as músicas, porque de repente ficam intensas e preciso de dar um tempo para sair daquela personagem, para ir para outra coisa. E o silêncio é importante. Antes de ser som, a música é silêncio. Dizemos e sentimos imensas coisas no silêncio, e cada vez mais esse despojamento é importante.

Está contente com este disco?

Estou muito contente.

Pareceu-me um disco especial, embora venha na linha do anterior, do Menina.

É um disco muito especial, muito pessoal, chama-se Branco não só por ser o meu nome mas por ser um reset, um recomeço. Essa normalidade da minha frase que citou no início tem muito a ver com isso, viver é diferente todos os dias. É um disco diferente, como tinha de ser depois do anterior.

Neste disco houve muitas que ficaram de fora?

Houve algumas, porque recebemos muitas, mesmo destes autores que enviaram mais do que uma.

O que faz com essas músicas?

Ficam ali. Vou confessar uma coisa, já falei com o Sérgio muitas vezes sobre este assunto: o Armadilha foi uma música que ficou do disco anterior, não entrou.

É uma questão de momento?

Há um momento em que é para acontecer. Disse-lhe: Sérgio, não quero gravar este tema agora, fica para depois. E agora chegou o momento de vir cá para fora. Acontece muito, mesmo com palavras. Há uma música do Jorge Cruz, a Aula de Natação, que menciona palavras que eu jamais imaginaria vir a usar numa canção - hérnias discais, time-sharing, varizes. Isso tem uma plástica, são palavras raramente usadas em canções. Estranhei durante muitos dias, ao ponto de achar que não ia poder ser assim, que ia para trás e pedia ao Jorge para refazer. Até que chegou o dia. É uma canção dolorosa, fala de uma mulher que está a pôr a vida dela toda em perspetiva, e há milhares de mulheres iguais a essa que está ali sentada na bancada de betão. Era um tema muito importante e eu não queria usar aquelas palavras, não queria fragilizar aquela mulher ainda mais. Mas depois fez todo o sentido. Por que não? Eu pedi atualidade, normalidade, e são palavras que nós usamos. Não usamos a cantar mas são importantes, fazem parte da nossa vida.

Identificou-se com esta mulher ou viu isto como uma situação exterior?

Vi como uma situação exterior, não é uma situação que eu tenha vivido alguma vez mas já presenciei. Senti na pele sem ser comigo. Toda a gente conhece. É muito curioso e é muito difícil de fazer. Como é que se pega numa história que pode prolongar-se por um romance inteiro e se consegue acondicionar tudo num poema? A história está toda lá, tem princípio, meio e fim.

Todas as canções deste disco são originais, não foi buscar nem a Joni Mitchell nem...

Não, e quando o faço é porque há uma razão para isso acontecer, porque naquele momento aquela canção era o que eu queria cantar. Sinto: "gostava tanto de ter escrito esta canção".

Este disco é bastante homogéneo e tem uns arranjos muito bons.

É o espelho daquilo que eu queria que fosse, é aquilo que tinha de ser, é a minha liberdade.

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