Como os estúdios Ghibli lideram a animação japonesa

Além dos filmes de Hayao Miyazaki e Takahata, os estúdios são a entidade central na animação japonesa. No dia em que os estúdios Ghibli celebram 35 anos, o DN republica este texto de João Lopes, publicado originalmente no dia 7 de abril de 2018

De que falamos quando falamos dos estúdios Ghibli? No nosso linguajar cinéfilo, ouvimos muitas vezes dizer, por exemplo, que os prémios BAFTA funcionam como a antecipação britânica dos Óscares de Hollywood ou que os Césares são os Óscares franceses... Não admira que seja um lugar-comum definir a animação com chancela Ghibli como uma espécie de Disney "à japonesa"...

Convenhamos que tais paralelismos podem ter algum fundamento, de alguma maneira ajudando a compreender as dinâmicas internacionais da indústria cinematográfica. Em todo o caso, valerá a pena não perdermos de vista as especificidades de cada fenómeno. E não há dúvida de que os estúdios Ghibli são uma das mais importantes encarnações do multifacetado território anime (palavra japonesa para designar a animação), em estreita ligação com o universo manga (banda desenhada).

Curiosamente e, mais do que isso, sintomaticamente, o nascimento dos estúdios Ghibli é indissociável desse universo artístico e comercial. Foi depois do sucesso de Nausicaä do Vale do Vento (1984), de Hayao Miyazaki, que a Tokuma Shoten, editora de publicações manga ligada a esse projeto cinematográfico, decidiu criar os estúdios (data oficial de fundação: 15 de junho de 1985). O filme de Miyazaki tinha, precisamente, Isao Takahata como produtor, emergindo os dois, desde o primeiro momento, como decisivas forças criativas do universo Ghibli, a par do produtor Toshio Suzuki, que dirigia a revista Animage, uma das principais publicações da Tokuma Shoten.

Em boa verdade, a Disney não é estranha a toda esta história, uma vez que é o estúdio do Rato Mickey que, desde 1996, assegura a distribuição internacional dos filmes de animação Ghibli. E com resultados significativos, não apenas na diversificação dos seus mercados, mas também no reconhecimento artístico: A Viagem de Chihiro (2001), porventura o mais conhecido título de Myazaki, arrebatou mesmo o Óscar de melhor longa-metragem de animação.

O impacto de A Viagem de Chihiro pode medir-se através da performance nas salas do seu país: superando as receitas de Titanic (1997), de James Cameron, o filme continua a ser o mais rentável de sempre no mercado japonês. Aliás, no top 10 das bilheteiras do Japão surgem mais dois títulos de Miyazaki com chancela Ghibli: O Castelo Andante (2004) e A Prin- cesa Mononoke (1997), respetivamente em sexto e sétimo lugares.

Uma parte fundamental da história do cinema de animação japonês - incluindo cineastas e desenhadores como Hiroyuki Morita, Masashi Ando e Goro Miyazaki (filho de Hayao Miyazaki) - passa, assim, pelos estúdios Ghibli. E com derivações nos domínios da curta--metragem, publicidade e jogos de vídeo, sem esquecer a longa--metragem Ocean Waves (1993), de Tomomi Mochizuki, produzida diretamente para televisão. De tal modo que a gestão do vasto património artístico dos estúdios conduziu, em 2001, à criação de um Museu Ghibli [ghibli-museum.jp], na cidade de Mitaka, nos arredores de Tóquio.

Em 2013, a estrutura e a própria identidade dos estúdios pareceu abalada pelo anúncio da retirada de Miyazaki - foi, aliás, o próprio a dar a notícia numa conferência de imprensa realizada durante o Festival de Veneza, desejando manter-se ligado apenas a trabalhos específicos no museu. O certo é que, cerca de três anos mais tarde, Miyazaki decidiu regressar à realização com uma longa-metragem cujo título internacional será How Do You Live? - a estreia não deverá ocorrer antes de 2020.

* artigo publicado originalmente no dia 7 de abril de 2018

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