Os desenhos de uma viagem de Cabo Verde

"Será possível viver sem antecipar o dia seguinte?"

Em 2002, depois de cinco anos de trabalho com o premiado filme A Suspeita, e de mais uns anos de muito trabalho a dirigir uma equipa e a planear filmagens, o realizador José Miguel Ribeiro sentia-se exausto. Decidiu viajar. "Queria parar, respirar e reencontrar-me." Escolheu Cabo Verde. Por causa da língua, por causa da música, porque queria um sítio onde não precisasse de transportes públicos e pudesse andar a pé. "Suficientemente fechado para poder andar sem me dispersar." Comprou um bilhete de ida e volta, com dois meses de intervalo. "Só sabia que na primeira noite ia dormir no hotel de Espargos mas não sabia mais nada, tentei disciplinar-me para não programar o que iria fazer no dia seguinte."

É esta viagem que se conta em Viagem a Cabo Verde, o documentário de animação com 17 minutos que passa hoje (20.45), na Culturgest, integrado na competição portuguesa do DocLisboa.

José Miguel Ribeiro esteve no Sal, em Santiago, no Fogo, em São Vicente e em Santo Antão. Andou a fugir das cidades, procurou "as zonas mais inóspitas". Fez amigos, voltou a ter feridas nos braços e nas pernas, voltou a gostar de usar sandálias. Experimentou uma Hiace, ficou pasmado perante o poilão da Assomada, provou cachupa, subiu ao ponto mais alto do arquipélago. Durante a viagem ainda não havia filme, só os dois cadernos onde desenhava compulsivamente. O filme surgiu mais tarde, aproveitando parte dos desenhos e criando uma personagem, auto-retrato que até usa a voz do autor.

Talvez o único elemento de ficção aqui seja o final: José Miguel Ribeiro não dançou, bem agarradinho, ao som daqueles ritmos e, talvez por isso, não tenha tido problemas em obedecer à última chamada para o voo para Lisboa. Viagem a Cabo Verde é uma pequena maravilha que já venceu o Festival de Curtas de Vila do Conde na categoria de animação.

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